TUDO MUITO!

Eu sou uma pessoa meio maluca, eu sei. Mas em um nível não perigoso para sociedade, apenas para mim, mesmo, felizmente.

Meus amigos e parentes realmente próximos sabem que sou meio doidinha, mas mesmo assim não chega a ser Transtorno Bipolar ou alguma anomalia à qual se dê ao trabalho de atribuir algum nome chique (espero!).

A minha patologia é que eu não gosto de nada “um pouquinho”. Eu gosto de tudo “MUITO”! Eu quero tudo MUITO, eu acho tudo MUITO, eu desejo tudo MUITO, eu sofro tudo MUITO, eu amo tudo MUITO, se é que dá para me entender.

Uns diriam que uma pessoa assim é insaciável, outros que é megalomaníaca, outras diriam “intensa”, outras “carente”, e poderíamos ficar me rotulando aqui até amanhã, mas eu, como o Salvador Dalí, não gosto de rótulos (apesar de botar etiquetas com nominhos em tudo, ixe!). Não me esqueço de uma obra do Dalí, na exposição do MASP, era um enorme móvel (mesmo, MUITO!) com inúmeras gavetinhas, todas com rótulo, criticando o fato de o ser humano ter mania de rotular e nomear tudo, dividir em categorias, etc. Bem, pelo menos foi como eu entendi a obra dele naquela ocasião.

Meu marido, homem brilhante, me deu (e depois nos deu) essa definição (rótulo?) enigmática e genial: eu sou “tudo muito”. Caríssimo amor, nós somos. Ainda bem, já pensou se eu fosse “tudo muito”e ele “tudo pouco”? Nunca iríamos combinar!

Por isso eu gosto de tudo MUITO! De dançar muito, de cantar muito, de ler muito, de dormir muito, de tocar muito, de ouvir música muito, chorar muito, rir muito, etc.

Por isso, aqueles salgadinhos e docinhos pequenos e em grandes quantidades são uma perdição para mim: pipocas, biscoitos de polvilho (aqui, na simplicidade bonitinha do “interior”, os chamados “totós”), suspirinhos, confeitos, os “podritos” de supermercado, batatinhas e, quando eu era criança, aquelas balinhas coloridas, me exerciam um facínio incrível – por sorte minha mãe não me deixava comprar, ou já estaria sem dentes. Bombons eram um pecado mortal, pois eu só podia comer dois, estourando três, e eu queria TUDO MUITO, a caixa toda!

Por isso eu brinco que nasci para ser obesa. Não sou, porque me seguro. MUITO. Li uma vez que “quanto maior o freio, maior é a potência do motor”. Por isso sou MUITO reprimidinha…

Sempre adorei também coisinhas pequenas tipo botão, pedrinhas, lantejoulas, strass, grãos em geral (feijão, etc), pois dá para manusear em grande quantidade. Minha mãe me colocava para escolher arroz ou feijão, e eu adorava aquela quantidade enorme de coisas. Adoro estrelas, pois jamais daria para contar. Adoro o mar, pois é infinito em movimentos e variações. Adoro areia. É incrível algo ser impossível de contar. Ah, e sabe aquele desenho que tem o mesmo desenho dentro, e tem o mesmo desenho dentro, que tem o mesmo desenho dentro, ad infinitum (não sei como se chama isso)… adoro! TUDO MUITO! Caleidoscópio também é muito legal para mim, pois é uma brincadeira sem fim.

Basta ver que minha dissertação de Mestrado teve 220 páginas. Não sei falar pouco. Falo MUITO (meus aluninhos sabem MUITO bem).

É…acho que talvez eu seja mesmo meio insaciável, mas, vamos levando.

Eu não consigo estudar uma escalinha, por exemplo, se começo, vai uma hora, uma hora e meia de técnica, repetições, trinados, arpegios, escalas menores relativas, etc. É super difícil para mim dar uma horinha miserável de aula para cada aluno, eu já quero ensinar TUDO o que sei, eles sabem que é dificil sair da minha sala (ou entrar) exatamente na hora… mas eu tento, estou conseguindo cada vez mais, mas acho uma mixaria!

Dar abraços e beijinhos (e carinhos sem ter fim…) também: não pode ser um só, tem que ser MUITOS (eu não fico regulando mixaria, também não gosto que fiquem comigo).

Isso pode ter a ver com a natureza da minha descendência européia, camponesa e pósguerra, que, depois de ter passado por muito perrengue financeiro, acabou querendo dar a maior fartura possível de comida aos filhos, e daí minha mãe herdou os “pedacinhos” gigantescos de bolos e tortas, que são um almoço, e ela também compra maçãs e ovos tão grandes que não dá para acreditar… juro que fico com MUITA pena das pobres galinhas!

Pode ter vindo de eu ter trabalhado em loja de brinquedos, onde havia fartura de bugingangas, zilhões de caixinhas e pacotinhos para embrulhar, etc… será?

Eu não consigo também beber uma tacinha de vinho, por isso, nem vou me dar ao luxo de fumar, pois tenho um grande problema de atração por qualquer coisa que vicie, eu gosto de tudo muuuuuito! Então, bebida é um problema, pois vinho é bom pra caramba, caipirinha, etc, então, sempre que eu tomo, tenho que ficar me podando, senão viraria uma alcoólatra “das brabas”, certamente. Os outros vicios, evito a todo custo.

Já vi muitas pessoas falarem que são facilmente viciáveis, acho até que é um problema generalizado, pois, se não fosse assim, a mídia não estaria nos empurrando o tempo todo para querer ter tudo, comprar tudo, beber tudo, comer tudo, emagrecer tudo, tudo , tudo, tudo MUITO! É um verdadeiro complô, e funciona assim:

Primeiro você tem que comprar muito, comer, fumar e beber muito, gastar muito para trocar todo o quarda roupa, gastar muito na academia para perder tudo, gastar tudo em remédios depois, para emagrecer, para ficar menos ansioso, para dormir, para sair da depressão, etc. O brasileiro adora MUITO comprar remédios, dessa eu me livrei, eu não tenho essa mania (essa loucura, eu diria). Entro na farmácia para ver um xampu novo, só para ler o rótulo, já tem algum funcionário me olhando e me oferecendo uma cestinha, pois eu tenho que “fazer compras” na farmácia. Isso sim é que é loucura. Outro dia comento mais sobre isso, mas a síndrome do “coitadinho” brasileiro, essa mentalidade generalizada, o faz precisar MUITO de remédios. Dessa eu me livrei, ufa, essa loucura não tenho. Basta saber que o Brasil é o país que mais tem farmácias por habitante no mundo, e, pelo que eu constato por aí, deve ser o que tem menos livrarias por habitante também. Mas, me coloque numa livraria ou loja de CDs (sim, ainda sou do tempo do CD, ainda compro, eu sei, sou MUITO ultrapassada também), pra ver. Aí sim eu deveria ser seguida por um funcionário que me oferecesse uma cestinha. Da argentina eu trouxe, de verdade, uma pilha de livros (já li três) e alguns Cds, não trouxe mais porque ia gastar uma fortuna, e meus familiares iam achar ridículo. Não comprei nenhuma pecinha de roupa ou sapato, para vocês verem o quanto AMO livros e cds. MUITO. Apesar de que sapatos… também adoro, mas infelizmente os bons são caros. E eu sou uma reles musicista.

Brincadeiras à parte, acho MUITO importante para o artista viver. Há muito tempo, ouvi uma história de um violinista do Municipal (aquelas histórias que não sabemos se é verdade), de muito tempo atrás, que ficou louco de tanto estudar, e o professor que me contou isso falou: “Artista tem também que viver, amar, rir, chorar, ficar com raiva, pra ter o que transmitir em sua música, senão fica louco”. Essa história me convenceu, mas talvez tenha convencido DEMAIS. MUITO. Mas acho que, realmente, os solistas e artistas bons mesmo tem alma boa, bondade de verdade, além de serem pessoas que vivem intensamente e que apreciam MUITO a vida, inclusive os sofrimentos. Apreciar sofrimentos? Você vai se perguntar… acho sim que devemos também dar valor aos sofrimentos e vivê-los, para a alegria vir depois com maior convicção.

Essa loucura de querer TUDO MUITO tem suas vantagens, claro. Estudar técnica, por exemplo. Viver, tudo MUITO. Se apaixonar MUITO. Amar alguém, por exemplo, nunca é demais – se não chegar a sufocar a pessoa, obviamente. Gostar de música também, nunca é demais. Fazer exercícios também, se não chegar no DEMAIS, está bom.

É,… talvez a solução para o meu (o seu também?) problema seja não deixar nunca o MUITO chegar no DEMAIS.

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Pessimista disfarçada de otimista

Quem é meu amigo faz tempo deve se lembrar que minha definição na internet (Orkut, facebook, etc), era “Pessimista disfarçada de pessimista”. Depois virou “Pessimista disfarçada de otimista disfarçada de pessimista. Entendeu ou quer que eu explique?”

Bem, de verdade, mesmo, eu sou uma bela de uma pessimista. Eu sempre acho que TUDO vai piorar. CERTEZA. É claro que todo mundo que me conhece sabe que eu estou sempre rindo, fazendo brincadeiras, contando piadinhas (de verdade, adoro piadinhas, pois se dependesse de mim, não existiria jamais NENHUMA piadinha, eu não consigo nem acreditar que alguém fica imaginando e criando uma piadinha, eu não seria capaz de um feito desses! E é por isso que piadas SEMPRE me surpreendem, e por isso é que eu dou tanta risada. E saio contando).

Bem, além disso, muitas pessoas, eu, e um de meus alunos, por exemplo, e MUITA gente, rimos também quando temos vergonha. Sim, eu, apesar de, talvez, não parecer, depende do ponto de vista, claro, sou MUITO tímida e envergonhada. É que, por ser artista, luto contra isso há uns 20 anos, e creio ter melhorado. Às vezes até consigo disfarçar, juro.

Então, pela vergonha, acabo rindo, e todos pensam que sou alegre, ou simpática, ou boba. Depende do ponto de vista.

O que acontece, DE VERDADE, é que estou constrangida, ou, morrendo de medo, ou envergonhada, ou surpreendida, ou disfarçando algo, ou, de verdade, muito irritada e até TRISTE. Não tenho escrito muito, recentemente, pois ando muito pra baixo, como diz uma grande amiga, no “lado negro da força”. E não tem a ver com testes de orquestra em que eu não passei, juro. Tem a ver com minhas tristezas existenciais, mesmo. Pois, por mais que eu tenha o sonho de tocar na Orquestra Municipal, na Jazz ou na Osusp, e até mesmo na Osesp (nessa ordem), apesar de lá ser extremamente pesado na carga horária, mesmo assim, a coisa que eu mais quero na vida é ser feliz. E ser feliz não tem, ABSOLUTAMENTE nada a ver com ter um posto ou um status ou dinheiro. De verdade, eu ralo MUITO no trabalho, mas NUNCA me faltou, exceto quando EU pedi demissão, então, de fato, eu pedi isso. Mas, apesar de não sobrar pra quase nada, eu nunca precisei de muito mais do que eu tenho ou tive.

Eu não tenho grandes pretensões financeiras, somente terminar minha casa, fazer uma viagem longa pela Itália e pela França, conhecer a Amazônia, coisinhas assim. Juntar uma graninha para o futuro das crianças, para uma previdência, essas coisinhas. Ir para NY e escolher “o violoncelo” em algum atelier de sonhos (eu sei qual), mas não sei, de fato se ele é como eu sonho…

E, trocar, em relação às minhas coisas, trocar quantidade por qualidade. Só isso. De verdade. Sem pretensões enormes. Não sonho em tirar o emprego de ninguém, em tirar a vaga de ninguém, não tenho grandes maldades, a não ser mandar alguém pro inferno no trânsito, é claro, sem ninguém saber – vocês já sabem que sou muito educada, pelo post anterior – e, muita gente acha o inferno mais divertido do que o céu, meu tio Luis sempre falava isso, deixando minha Nonna horrorizada, então, nesse caso, mandar pro inferno nem é tão ruim assim…

Tenho alguns amigos, muitos conhecidos que simpatizam comigo, pouquíssimos inimigos, mas são REALMENTE três pessoas que não gostam de mim, e deixam isso claro, e querem meu mal. Também não vou ficar AMANDO essas pessoas, pois elas são tão burras que me querem mal e acham que são discretas, mas de verdade deixam isso TÃO claro, como 2 mais 2 resulta em 4, não dá para amá-los, não dá. Eu sou educada, mas não santa!

A música do Cartola (gênio absoluto) diz: “quem me vê sorrindo, pensa que estou alegre, o meu sorriso é por consolação, porque sei conter, para ninguém ver, o pranto do meu coração…”, mas… EU,… eu não sei. Eu não sei esconder. Mas ninguém fica confortável ao lado de alguém que sofre. Por isso eu tenho sido uma BRILHANTE pessimista disfarçada de otimista. Mas, de fato, meu humor sempre foi mais para Machadiano, nunca para o humor do Candide! Ou do Lazarillo de Tormes, conto lindo que eu tive o prazer de ler no primeiro ano da Faculdade de Letras da USP – outro grande prazer, a Faculdade de Letras, nunca me esquecerei dessa parte linda da minha vida!

Perdoem-me, mas, apesar disso, vou ficar no lado negro da força, pois eu, infelizmente, não sei conter tão bem assim: a vida é muito pesada, e é muito duro de agüentar tantas decepções!

A felicidade para mim é um sorriso, um beijo na boca, um amor muito forte gritando no peito, uma paisagem incrível, um cheiro de mato, um som divino, tocar feliz por um segundo, uma paixão, uma dança, um samba, um aprendizado meu, um aprendizado de um aluno, uma cuíca, o movimento lento da 9ª. de Beethoven, um som de clarinete, um concerto do “Sujeito a Guincho”, Paulinho da Viola, um poema do Pablo Neruda, uma frase do Saramago, um livro maravilhoso terminado, uma semente brotando do chão sorrindo em forma de uma plantinha, o olhar amoroso de seu cachorro quando você está chorando e ele sabe, uma música cantada pelo João Gilberto, ou pela Elis, ou pela Ella, ou coisa assim.

Hoje, e ontem, infelizmente, me falta totalmente o sorriso.

Quanto mais educado, mais sofre!

Hoje, num “tereteté” com minha linda amiga D. (não vou dizer quem é exatamente, para ser educada), ela soltou um comentário e eu, que associo as coisas em questão de milésimos de segundo, pensei: “quanto mais educada a pessoa, mais ela sofre”.

A D. é uma pessoa de educação ímpar (a família toda dela é assim, mãe, irmã, cunhado, é uma beleza, coisa que já nem se vê mais por aí, pessoas a quem você deixaria a chave da sua casa ou do seu carro na mão deles, sem problemas – sou uma pessoa de sorte de ter essa amiga; meus vizinhos também são assim, coisa muito rara – sou mesmo uma pessoa de sorte!) e, por causa dessa educação toda, acho que, apesar de não parecer, por ela ser MUITO educada, ela deve sofrer MUITO.

Eu também, vou ser agora muito metida, eu sou muito educada. Meu irmão também. Fomos rigorosamente treinados por minha mãe, e meu pai, e por meus avós e bisavós, e tataravós, a JAMAIS ofender, responder, etc.

Se você me ofender, em geral ficarei tremendamente chocada, mas não vou responder, vou ficar MESES pensando o que eu devia ter respondido na lata, mas não vou responder. E vou me arrepender. Depois não vou, depois vou, depois não vou, etc, etc.

Tive uma conversa longa outro dia com meu irmão, e, apesar de não termos falado sobre isso, especificamente, falamos apenas disso, em como as pessoas educadas sofrem.

Os mal educados são grossos e insensíveis, logo não se incomodam muito com nada. Nós é que ficamos agüentando tudo o que acontece por aí, sem gritar, xingar, nem espernear. Por exemplo, aquelas mulheres gordas com sacolas enormes, que vocês já sabem que me perseguem e passam por cima de mim e de meu discreto cello, atropelando TUDO, sem ver nada nem ninguém, e, geralmente, rindo muito.

Ah, também tem as velhas (sim, as idosas, OK, às vezes não sou tão educada assim) falando mal dos outros BEM ALTO, quando queríamos é, por exemplo, ver o pôr do sol em Campos do Jordão, no mais absoluto silêncio que aquela obra de Deus merecia. Mas a velha (ou as velhas) está lá, quase BERRANDO para a pessoa que está DO LADO DELA (!) que o Murilo é assim, e a Rose ainda ficou do lado dele! Aí eu fico infelizmente sabendo da vida INTEIRA do Murilo (quem?), que ele acorda tarde, que almoça sozinho de domingo, e fica vendo futebol, e é uma pessoa TÃO anti social, etc, etc, etc. E o sol caindo, a paisagem linda, absolutamente incrível, mas aquela senhora continua com RAIVA do marido dela, que, desculpe, ELA escolheu. Ou fui eu?!?  Escolhemos mudar de lugar, e aí sabe o que acontece? Ela sente que perdeu subitamente a platéia, e vem caminhando lentamente até ficar novamente a dois metros de nós, e continua BERRANDO sua raiva ao SEU marido, que está em OUTRA cidade, vendo seu futebol. Sem incomodar, de verdade, ninguém, muito educado.

Ponho uns pedaços de papel no meu ouvido, numa tentativa DESESPERADA de ter meu momento de contemplação do pôr do sol, mas aí chega um ônibus de senhoras odiosas que riem alto (gargalham), e posam para fotos, fotos essas que vão ficar observando em casa e das quais vão ficar falando MESES, falando mal das suas colegas, dos penteados, da gordura delas, elas que agora riem e posam juntas. Eu tenho RAIVA desse tipo de reunião de “amigas”. Mas ninguém suspeitava disso, pois sou muito educada.

Cada vez que eu estudo com metrônomo e fico muito mais educada na pulsação, mais eu sofro. Quanto mais eu sei, mais eu sofro, quanto mais estudo com afinador, mais sofro. Ou seja, quanto mais rezo, mais assombração me aparece! Quanto mais leio, mais tenho raiva dos textos que leio, dos programas de concerto, dos colegas, dos comentários dos maestros, das interpretações dos maestros. Quanto mais lemos sobre música barroca, mais vibrato os maestros pedem, quanto mais lemos sobre o estilo clássico, mais pesados e “na corda” temos que tocar os Haydns e Mozarts da vida (ok, fica tudo parecendo a “Water Music” do Haendel!  Tudo bem, fica bem “lindo”! Argh!!!!!).

Quanto mais eu amo, mais vejo falta de amor e mais raiva eu passo. Quantos mais Saramagos e gênios eu leio, mais erros eu acho por aí e mais raiva eu sinto.

Daí eu tenho CERTEZA que quando educamos nossos filhos, os deixamos mais sensíveis às brutalidades da vida (eu, por exemplo, cada vez que vejo ou ouço o Lula falando, ou as Dilmas e Serras, e etc, eu TAPO OS OUVIDOS, juro, tapo mesmo, ou deixo o rádio do carro MUDO, pois não SUPORTO, verdadeiramente tanta falta de educação e tanta brutalidade).

Vou ver um filme dos brilhantes irmãos Cohen no cinema (que me educaram para gostar e eu gostei), e o idiota atrás de mim fala alto, ou ronca, ou chuta a minha cadeira. Se eu estivesse me “entretendo” no cinema, em vez de me deleitar com a arte, eu estaria, provavelmente, chutando a cadeira da frente e comentando BEM ALTO alguma bobagem que não interessaria a absolutamente ninguém, nem àquela pessoa a quem estava sendo comentado.

Meu marido, homem sábio e sensível ao extremo, a quem admiro LOUCAMENTE, diz que 80% do que é falado nem precisava ser falado, de tão inútil, e diz que quase todas as idéias que ele vê ou lê nem são novidades, nem nada, logo, comentários, quase sempre se tornam redundâncias ou inutilidades, dessa forma, eles rompem o silencio com inutilidades! Uma grosseria!

Uma vez um colega disse uma frase excelente, que acho que era do Fernando Pessoa, que TODO COMENTÁRIO É UMA GROSSERIA. Acredito que é mesmo. Ou pode ser. Então, meu blog é uma super grosseria, e eu sou é MUITO mal educada, e não educada, como me julgo!

Bem, escrevendo, eu posso ser BEM grossa, mas acredite, sou MUITO educada. Quando voltei da Filadélfia, do encontro do Rostropovich, uma “amiga” “brincou” comigo, em frente a muitas pessoas, vendo a minha foto com o Rostropovich, que vestia uma camisa estampada de seda (um momento maravilhoso e muito feliz da minha vida, que ela, sendo amiga, devia ficar tão contente ao ver a realização daquela foto e daquele sonho…): “olha, a Mery viu o Rostropovich de pijama!” e gargalhou. Até aí, tudo bem, um gracejo leve, mas ela completou: “e aí? Ele é bom de cama? Hahahaha!” E todos os bobos em volta riram da minha cara. Eu, chocada, não respondi NADA.

Até hoje eu tenho raiva de não ter respondido algo grosseiro, mas eu sou MUITO educada, e estou a dez anos com raiva desse comentário, querendo ter respondido, mas fui rigorosamente treinada a não responder, e, sem brincadeira, não tinha interesse em saber se o Rostropovich era bom de cama, pois eu, na minha faixa dos 20, tinha atração por homens de, no máximo, a faixa dos 30, não dos 70, e, além disso, ele era um homem casado, eu, muito educada, jamais teria tido essa “fantasia” que minha amiga deve ter tido naquela ocasião. Isso sim, aguentei 10 anos e acho que nem consegui responder de uma maneira mal educada! Mas, de verdade, continuo amiga dela, e nem tenho raiva dela, só desta falta de tato brutal que ela teve naquela ocasião.

Eu sou tão bem educada que tenho dificuldade de escrever sem trema, sem hífen, etc!!!

Eu vejo que essa educação maior, que faz muita falta, é a educação vinda de casa, dos pais, a sensibilidade aos sentimentos dos outros. A sensibilidade que vem da leitura, também, e ainda acho que as pessoas do interior tem muito mais essa educação, especialmente as vindas do campo, e também, pelo que vejo dos amigos, a educação do norte e do nordeste do Brasil. Eles são muito mais cultos do que os paulistanos ou cariocas (pelo menos se eu tomar como exemplo as pessoas que eu conheço).

Fico com pena dos meus enteados, pois eu e meu marido, e também a mãe deles, estamos empenhados na tarefa diária de dar educação e cultura a eles (e todo mundo diz – êeeee!!!!!- que eles são MUITO educados). Tenho pena dos meus alunos, pois eu tenho uma batalha diária para educá-los e sensibilizá-los, mas sei que eles vão sofrer. Por isso, também, tenho tanto medo de ter filhos.

Cada vez que eles souberem que uma repetição musical tem de ser DIFERENTE da primeira vez, eles vão se IRRITAR profundamente com os maestros, por não darem nenhuma idéia musical, nem mesmo para a primeira vez, o que dirá para a repetição, que acaba saindo miseravelmente IGUAL `a primeira vez, no dia do concerto. O que sair, saiu, não é?

Cada vez que eles estudarem com metrônomo eles vão ODIAR seus colegas de orquestra, de quarteto, seus maestros. Cada vez que eles estudarem com afinador, eles vão ODIAR aos outros e a si mesmos, às sopranos solistas e também aos naipes de contraltos, e também ao seu naipe de cellos, CADA VEZ que tocarem um fá sustenido grave, na corda Dó, em QUALQUER orquestra, de QUALQUER nível, e ele soar irremediavelmente impossível de afinar…

Como é duro ser “educado”. Quanto mais educado o ouvido, mais sensível. Quanto mais educada a pessoa, mais sensível. E quanto mais sensível, mais sofre. Eu, por exemplo, se parasse para deixar meus sentimentos aflorarem, só choraria. E, juro, nem estou de TPM, se estivesse, me mataria! Mas, pensando bem, eu jamais me mataria, pois eu JAMAIS ofenderia tão profundamente meus pais, que me educaram direitinho, então, vamos aguentando!

Caladinhos!!!

(Mas sempre podemos escrever! Que parece bem mais educadinho…)

Ser infeliz e’ MUITO seguro (?!?!)

Sim, eu fico nervosa (brava mesmo). Pra caramba.

Porque eu estou sempre rindo, há uma PROFUNDA falta de compreensão de eu também ter o DIREITO de ficar triste, doente, mal humorada, nervosa, raivosa ou simplesmente sizuda. Alegres são idiotas para TODOS, basta ver que JAMAIS um filme de comédia vai ganhar Oscar de melhor filme. Sempre drama ou, no máximo algum tipo de aventura impossível, de outra dimensão, porque o ser humano DE VERDADE não pode nem rir demais, nem se aventurar demais. Senão é louco. Ou burro. Ou as duas coisas.

Por isso, hoje, fecho meu riso, como tantas vezes: eu simplesmente ODEIO ficar ouvindo o que eu devo ou não devo fazer. E não tem ABSOLUTAMENTE NADA a ver com o fato de ser teimosa (sim, sou teimosa) e não aceitar conselhos, ou recomendações. Eu juro que escuto e penso a respeito de TODOS os conselhos. Mas não precisa repetir tanto. Se eu não faço, é porque não concordo, e se faço, já me convenci, não precisa desenhar!

Mãe, pai, irmãos, amigos, enteados, marido, parentes, conhecidos, alunos, professores, e até estranhos (sim, eles sempre me recomendam ter escolhido “flauta”, por ser mais fácil de carregar… sim, até estranhos me dão ordens ou conselhos furados e batidos – TODOS OS DIAS). Estas pessoas todas, ou seja, TODAS as pessoas, simplesmente não aceitam o fato de você ser como é (ou tentar MUITO ser), não aceitam que você já ouviu 234.987.762.009 vezes as MESMÍSSIMAS recomendações e conselhos e também ordens, e que simplesmente já faz o melhor que pode em relação a isso tudo.

Sim, eu tenho certeza absoluta de que sendo toda irritantemente certinha, até mesmo para mim, eu já sei que eu tenho que estar atenta ao dirigir em estrada, principalmente de noite, principalmente chovendo, principalmente se estiver chovendo MUITO, eu é que sei, depois do acidente eu jamais vou conseguir dirigir displicentemente de novo, se é que eu já dirigi… eu já SEI que deveria usar chinelinho e não ficar descalça, não tomar friagem, acordar sempre cedo, dormir cedo, fazer abdominais, estudar escalas 1 h por dia, não beber, comer que nem uma louca pra ficar “fortinha”, me entupir de sobremesas (“comer, comer, comer, comer, é o melhor para poder crescer..”, se lembra? – eu achava esta bosta de música totalmente ofensiva a minha magreza e opinião de não querer definitivamente me entupir de comida). Sim, ao contrário da Revista Boa Forma ou Women’s Health, minha família acha que todo mundo PRECISA comer, e muito.

Vestir a “blusinha” quando estiver frio, olhar pros lados, tomar cuidado, não namorar, não transar para não engravidar. Sim, o MUNDO obriga a boa moça de família a concordar com isso por muito tempo, até ela resolver transar com camisinha – o que não é mesmo mau conselho, por isso mesmo a boa moça aceita – e simplesmente tentar viver. Com aquela culpinha desagradável que todos querem que todos tenham. O Dr. Ângelo Gaiarsa diz uma frase que eu adoro, que é mais ou menos assim: a sociedade vigia todo mundo para não deixar ninguém fazer aquilo que todo mundo queria fazer. É mais ou menos isso, desculpe se errei a citação, Prof. Gaiarsa, pessoa que, apesar de ser polêmica, admiro MUITO. Não vou achar em que livro está a citação tantos anos depois e a essa hora da noite.

Eu sou repressora também, às crianças, aos alunos, ao marido, aos pais, aos irmãos. Nem tanto ou nunca, acho, com estranhos, a diferença, eu acho, é que eu tento convencê-los de coisas que eles nunca viram, não pensaram, não aquilo que eles mil vezes já sabem, e, pior, o que eles não concordam nem nunca vão concordar. Pelo menos é o que eu tento. Sim, eu sei, de boas intenções o inferno está cheio, talvez eu até vá para lá mesmo, por causa dessas (não queria mesmo, pois não gosto de lugar cheio de gente, e o ditado já diz que está cheio mesmo, e a voz do povo é MESMO a voz de Deus). Será?

Eu não sou madame, não sou de vidro, nem de cera, nem de açúcar, nem de louça, eu já sei que TENHO que tomar cuidado, e tanto cuidado, mas pelo amor de DEUS, me deixem viver sem medo, sem culpa, sabendo que eu não sou idiota, nem sonsa. Somos vulneráveis, mas não somos exatamente frágeis, não é mesmo?

As pessoas acham MUITO difícil alguém risonho, ou mulher, ou jovem (sim, depende do ponto de vista, alunos) ou simpático (nem sempre tão simpático assim, eu sei, hoje, por exemplo), ou tudo isso junto, ser ao menos um pouquinho inteligente. As pessoas ODEIAM que uma mulher risonha possa ter um mínimo de inteligência. O que as pessoas não percebem mesmo é que com tantos conselhos, elas MATAM uma possibilidade saudável (que eu já acho bem remota, a essa altura de “nãos” e de conselhos e de ordens e de repressões) de o outro ser como ele é ou quer ser, de conversar, de rir, de ser simpático.

Será que eu não poderia nem ter um minutinho por dia para TENTAR pensar sozinha, e fazer as coisas do jeito que eu JÁ sei fazer, ou, do que eu GOSTARIA de fazer? Ou até mesmo do jeito que eu decida um dia fazer? Meu Jesuzinho, como é difícil passar dois minutos sem uma repressãozinha básica! Depois reclamam que as pessoas comem demais, abusam de tudo demais, são revoltados demais, se estressam demais, precisam demais de terapia, floral, yoga, orações, etc, gente, não dá pra dar um passinho sozinho e relaxar!

As pessoas passam por cima do sentimento dos outros que nem tratores, mas se você OUSAR reclamar, jamais será perdoado, pois todo o mundo é MUITO sensível. Os outros não. Como diz a música do grupo Numismata, de que eu gosto muito, “Ah, em matéria de dor eu sou mais eu!”; essa frase eu acho genial.

Se eu JAMAIS ouvisse de novo pra dirigir com cuidado, para me alimentar bem, para me agasalhar quando estiver frio, para tentar fazer tudo da melhor maneira possível, eu tenho CERTEZA que é isso que vou continuar tentando fazer!

Mas, tomar cuidado demais com tudo, não relaxar jamais, ter escolhido flauta, ficar sempre com medo de TUDO, achar que TUDO que eu faço está errado, é uma bosta, ou burro ou ingênuo, nunca mais andar descalça, aí, por favor, não é por maldade nem rebeldia: essas idéias eu vou lutar TODOS OS DIAS para não estarem nunca mais nem na minha cabeça. Porque eu discordo veementemente com o fato de que ser infeliz é muito seguro.

Coisas marcantes da minha vida (que não entendo)…

Toda vez que “faço aninhos” tenho essas crises (dessa vez não foi exatamente crise, nem mesmo inferno astral), esses devaneios filosóficos e existenciais…

Sempre pensei que as coisas mais marcantes da vida fossem apenas as coisas boas. Claro que são, sim, com certeza. Mas as ruins também são. As coisas que moldam nossa maneira de ser, nossas vozes interiores, nossa auto-estima.

Uma coisa que definitivamente me marcou muito, e continua me marcando cada vez que acontece, é andar de avião e observar nossa pequenez. A sensação de pequenez. Isso não é lá uma coisa muito boa. Eu sempre me sinto absolutamente insignificante ao andar de avião e olhar pra baixo, de lá de cima. Sim, cada metro, cada pouquinho que o avião levanta, eu vou vendo como não sou absolutamente ninguém.  Daquela altura toda, os carros e as casas são apenas casinhas e micro carrinhos que depois se tornam quase nada. As pessoinhas que estão dentro daqueles carros e daquelas casinhas e daquelas piscininhas estão tão entretidas, como eu, com as suas vidinhas, e seus problemões, a troco de quê?

Bem, paradoxalmente, eu tenho sempre a certeza de que qualquer pessoa, fazendo o bem, acaba interferindo em todo o meio à sua volta, de pessoas a bichos, de coisas a plantas, e, dessa forma, aquela pequenez vai se somando e vira uma grandeza sem tamanho. É algo maluco, coisas que me marcam e que eu não entendo. Seria eu grande ou minúscula? O que eu faço de bom (reciclagem, incentivo aos alunos, empenho ao tocar, honestidade, ser boadrasta, ser educada com as pessoas, de maestros a faxineiras, de funcionários de pedágio a alunos de outros instrumentos na escola de música), essa pequenez, faria diferença? O meu querido budismo, que por sorte também descobri, diz que sim, e eu, que fui casada por sorte pela Monja Cohen, coisa que também me marcou demais, tenho mais é que acreditar que a bondade, mesmo minúscula, só faz multiplicar em milhões de coisas boas.

Contudo, algumas coisas (boas) que nem vi, também foram muito marcantes: a história que meu pai contou a respeito de eu ter sorrido para ele a primeira vez que o vi. Foi amor à primeira vista sim, mesmo que eu, de verdade, do berçário, nem tenha o visto de verdade. Até hoje continuo sorrindo o tempo todo para ele, mesmo longe, mesmo em outra cidade.

A história poética contada por minha mãe, a de que eu era um bebê absolutamente feliz e tranqüilo. O que os espantou muito, pois meu irmão mais velho era muuuuuuito chorão. Ainda busco essa antiga essência, onde será que ela está?!? Eu era assim, quando era um sábio bebê…

Outro acontecimento que de fato transformou minha vida foi a loucura e o êxtase de desfilar na Gaviões da Fiel, e passar na frente da Bateria estupenda, sempre nota 10. Para sempre, virei uma violonsambista. Isso me torna, com certeza, uma candidata ideal à Orquestra Jazz Sinfônica (é piada, mas é verdade mesmo, amo musica popular, desde os Orlandos Silva de meu pai até 90% do meu MP3; desde a emoção incrível que me causa sempre a Elis Regina, desde a época em que eu, criança, sonhava em cantar “badabadabada” junto com as backing vocals do lindo Tom Jobim, nos especiais de fim de ano da TV; e também minha musa mor, a Ella Fitzgerald – quem poderia sucedê-la em ternura e qualidade?).

Cheiros, em geral, também me marcam muito, e o de meu marido é o cheiro de que mais gosto no planeta. E olha que sou a “maníaca do Free Shopping”, sempre fungando todas as novidades para conhecê-las, lembrem-se vocês de que tenho “nariz absoluto”.

Tenho sido marcada por acontecimentos tristes e maravilhosos, supreendentes e outros nem tanto: o acidente na Dutra, a desistência da vida de meu colega Marcos, a desistência de tocar violino de dois de meus melhores amigos, ao longo desses anos, um há muito tempo, outro agora mesmo – duas belíssimas “cagadas”.

As eternas tristezas por não ter conseguido até hoje tocar tranquilamente em um teste, sempre com uma óbvia queda de qualidade, na última vez, então, foi de cerca de 30% de queda de desempenho. Por sorte me levanto hoje em dia muitíssimo mais rápido de tristezas. Por sorte agora tenho muita ligação com o samba e MPB, então, coloco uns Ataulfos e Cartolas pra tocar no carro e a vida se recupera muito mais facilmente. Mas nem sempre foi assim.

Os encontros com o Rostropovich: coisa absolutamente inacreditável, tão linda e tão cheia de histórias (uma hora contarei com calma), ouvir “Lady Macbeth” do Shotakovich três noites seguidas no Colón, uma semana de Orquestra da Philadelphia, esses presentes que a vida me deu não tem absolutamente preço.

Ter também a amizade de meus pais aos 34 anos de idade (coisa que demorou muito, vocês vêem, a principio por diferenças de idade, depois de ideologias, agora, pela primeira vez na vida, embora ainda possam haver, de vez em quando, divergências com minha mãe, pela primeira vez na vida eu SEI que sou AMIGA deles, e isso é um prêmio incalculável. Posso não concordar com nada do que eles disserem uma hora ou outra, mas isso já não importa mais. Sou amiga deles e pronto.

O violoncelo que meu pai fez, não teve preço. Nem explicação.

O meu marido, ele tocando, ele falando, ele rindo, ele feliz, ele: não tem preço. Oito anos apaixonada. Ontem tivemos um dia incrível comemorando meus 34 anos, e ao vê-lo tocando no MASP eu, pela zilhésima vez me peguei pensando: “Ah, que homem é esse! Que som é esse!”- completamente a-pai-xo-na-da.

Eu, que dou aula há 12 anos, sempre sonhei em ter uma turma de alunos que quisessem e sonhassem em ser cellistas, e agora, aqui estou: pela primeira vez isso acontece de verdade!

Eu sou uma pessoa feliz, apesar das marcas ruins da vida. Tanto sofrer por amor nessa vida e agora, felizmente, muitos anos sem sofrer.

Ainda tenho imensos sonhos, imensos planos, imensas dificuldades para superar, e estou apenas passando da primeira para a segunda parte da minha vida de três partes (vamos chutar longos 112 anos… rsrsrs… até parece!). Mas essas marcas é que fazem quem eu sou, que me constroem, que me fazer ser alguém que sonha, sonha e sonha, acima de tudo, acima daquelas imagens vistas do avião, acima das nuvens, da mesma forma que aquela menina banguela, que não largava seu coelho branco, de joelhos grossos de tanto ficar agachada brincando de playmobill, sonhava, e sonhava e sonhava, ouvindo canções italianas que falavam de “amore” e de “il mondo”…

Por um mundo mais cor de rosa

Como respeitar todos os seres e todas as coisas?

Como diminuir sua marca destruidora no mundo?

Nessa vida, isso é MUUUUUUITO difícil.

Falo sempre para meus enteados e para meus alunos: se você não for útil, se não fizer algo bom, se não fizer o bem, voce é apenas um fazedor de lixo e de cocô. Um destruidor e poluidor.

Desde as fraldas até as embalagens de produtos, desde o gás carbônico até  a energia dispendida para ficar olhando a telinha do computador…, você (e eu) somos grandes destruidores (isso sem falar em desafinações… abafa o caso!).

De tanto eu ser bombardeada com mensagens ecológicas e politicamente corretas, de tanto lutar comigo mesma com essa minha neurose budista de que “Eu e todos os seres e coisas somos um”, muitas vezes me pego num dilema: e os pexinhos que eu AMO comer na comida japonesa? E as formigas em que piso sem ver e as borboletas que eu atropelo quando dirijo (já matei um passarinho atropelado na Rod. D. Pedro, chorei muito…). E o sapo que uma vez esmaguei no portão, de noite, e só vi no dia seguinte? E aquelas zilhares de aranhas tenebrosas que matei em casa, tendo que escolher entre matar ou conviver com elas, passeando e procriando dentro de casa?

Há uns três anos (depois desisti, depois retomei a idéia, então, há uns dois anos e meio)…resolvi parar de comer carne vermelha, já que não gostava tanto, parar de comer frango, já que não gostava NADA, e parar de comer porco, já que acho porcos muito bonitinhos e espertos, como cachorros. Desde a minha última estadia em um Hotel Fazenda, decidi que porcos estavam fora. Muita gente fica até irritada quando digo isso, achando que eu quero catequizar alguém: eu NÃO quero fazer ninguém parar de comer carne, EU quis parar. Será que tenho o direito de decidir o que EU vou por pra dentro de mim?

Sei que isso é irritante, especialmente em reuniões familiares  (para mães e sogras, especialmente) e churrascos, você de repente vira aquele CHATO que não come carne – ah, e sempre as pessoas tem que anunciar isso a todos em alto e bom som, que não sabia o que cozinhar para você, porque você NÃO COME CARNE!!! (Gritam!) Não dá para se passar desapercebido, nem que você tenha levado o vinagrete, o pão e o queijinho coalho, e queira ficar curtindo a cervejinha, discretamente, não dá. De repente você é aquela figura incômoda que não come carne!

De qualquer forma, meu colesterol agora é baixíssimo (não que ele fosse alto), e minha digestão nunca mais foi estranha nem difícil. E salvei a vida de alguns frangos e pelo menos uns dois boizinhos. Já está bom para mim. Você? Coma o que quiser!

A minha idéia era, aos poucos, também parar de comer peixe, pois, pobrezinhos, estes tem a vida igualmente valiosa à de um porquinho, qual a diferença? Para eu ir me acostumando à restrição de cardápio, decidi que peixe ainda estava incluído. Mas aí, conheci comida japonesa. Chego a ficar desejando durante a semana, e cada vez mais “conhecedores” (quem vê pensa!), eu e meu marido temos sucumbido às tentações da “carne branca”, onde estão incluídos atuns e salmões, entre outros, degustando e experimentando restaurantes e pratos… HUM! Só de falar, me dá agua na boca.

Sei que muita gente nunca experientou nem vai experimentar, e só de pensar tem nojo, mas nós a-do-ra-mos. Pena que é tão caro. Pena que os peixinhos não devam adorar tanto essa idéia… Budista de meia tigela que sou! Não me acho uma pessoa lá muito boa, ao verdadeiramente desejar um bom sushi e um bom sashimi, mas… viciei. Não estou vendo mais essa chance de parar com comida japonesa. Eu disse que eu não era grande coisa! Parafraseando a Amy Winehouse (que a-do-ro mais que comida japonesa): “I told you that I was trouble, you know that I am no good!”…

Mas nessa onda de respeitar o máximo possível o planeta, fiquei neurótica. Por exemplo, para um ensaio absolutamente inútil como o de hoje, fico pensando no combustível que gastei, na poluição que causei.

A cada embalagenzinha de banco oferecendo cartão de crédito fico pensando (uma por semana, pelo menos), a cada comida que compro na rua que vem em uma embalagem descartável, embrulhada em outro um saquinho descartável, a cada refrigerante ou vinho, etc, etc, etc, até mesmo garrafinha de água que compro, não consigo mais não pensar em minha pegada poluidora.

Por isso separo lixo reciclável, mas sempre pensando que gastei água e detergente para lavá-los (seria isso ecológico?) e que vai ser gasto energia, combustível, etc, tanto para transportar esse lixo como para reciclá-lo. Além da energia e poluição para levar cada trabalhador para esse centro de reciclagem…  Se a gente for pensar bem, não faz mais nada.

Mas, mesmo assim, sou de uma geração que se preocupa. A geração de meus pais não se preocupava, a de meus avós muito menos (mas eles não poluíram nem um terço do que nos poluímos!). Será que essa preocupação é suficiente para reverter isso tudo? Esse esgoto que viraram os nossos rios e represas?

Ainda vejo muuuuuita gente todos os dias pensando como a geração de nossos avós. Jogando lixo a torto e a direito na rua, no metrô, da janela do carro, do ônibus, etc. Ainda é uma vergonha a falta de educação geral das pessoas.

As pessoas, no geral, ainda são poluidoras e desrespeitadoras em muitos aspectos. Elas falam berrando ao telefone, e elas ainda andam fedidas, pelo amor de Deus! Elas gritam, não falam. Elas se acotovelam no metrô, nos ônibus, nas catracas, dando risada, achando isso tudo, essa bagunça, muuuuito divertida. Regularmente mulheres gordas com grandes sacolas me atropelam e nem percebem (eu tenho um histórico de ser perseguida e atropelada regularmente por mulheres gordas com grandes sacolas, há muitos anos), mesmo eu estando com meu discretíssimo violoncelo. Regularmente crianças pisam na minha unhazinha que quer encravar e nem percebem (outro histórico de anos!). Sou aquela com a cadeira regularmente chutada no cinema, aquela que SEMPRE senta do lado de pessoas que conversam (ou gritam) no cinema.

Somos poluidores de vidas. Somos desumanos, mal educados.

Eu, fazendo um MEA CULPA, poluo a vida de meus colegas e de meus maestros, REGULARMENTE, reclamando sem parar (sem parar mesmo, se estou quieta, estou reclamando dentro de mim) que está tudo desafinado e desencontrado, mesmo sabendo que sou desafinada e é difícil tocar junto com os outros (para isso estudo regularmente com metrônomo e afinador, faço música de câmara, ouço bons solistas e boas orquestras, numa tentativa desesperada de melhorar). Mas, sou poluidora, de vidas, de ensaios (com minhas reclamações constantes), de planeta, da água dos rios com meu esgotinho, do ar com meu carrinho (quero deixar constar, novamente, que ODEIO dirigir, e só faço isso porque sou obrigada a garantir meu sustento, senão NUNCA mais saía de casa).

Mas o lixo e os peixinhos realmente me incomodam… Será que não dava mesmo para ter embalagens menos poluentes, menos volumosas, únicas e não mais duplas, triplas? Recebi uma carta enorme do Banco Real só para dizer que agora vai se chamar Santander. Plástico colocado na carta para não tomar chuva, carta, papel bom, grosso, reciclado, mas enorme, lindo, tinta…só  para dizer isso. Um segundo pra ler, lixo. Tudo é assim. Um segundo usufruído, lixo? Comprei uma água, um minuto pra detonar a sede e lixo?

É duro ter consciência ecológica. Não consigo mais fazer nada sem pensar no lixo que estamos deixando pros nossos filhos. E netos e bisnetos. Nem dá vontade de ter filhos. Ano passado fui tocar em São João de Meriti: nas ruas, nunca vi tanto lixo, nem tanta gente sem educação. Eu, ali, dois minutos depois já estaria varrendo e juntando tudo em sacos. Mas as pessoas ficam esperando a iniciativa do governo (qual iniciativa? que governo?).

Regularmente tenho rejeitado receber saquinhos, sacolinhas, de farmácia, da locadora, de padaria, de banca de revista, etc. Regularmente. Acho que já rejeitei mais de 80. As pessoas sempre ficam perplexas, às vezes contrariadas. E ponho tudo nas minhas enormes bolsas de mulher, ou em sacolas de pano, quando me lembro, ou vou carregando na mão mesmo. Quero tentar reduzir minha marca no mundo. Nos peixinhos, ainda não sei.

Nos ensaios, posso dizer que anda cada vez mais difícil de não estar contrariada. Em qualquer orquestra, não só na minha. Eu sou muito cheia de idéias e é duro ver que as coisas podiam ser infinitas vezes melhores. Sei que eu mesma não estou lá essas coisas, mas gostaria de ver tudo mais bem feito, mais caprichado, o tempo também muitíssimo menos desperdiçado.

Sei que EU só posso mudar a mim mesma, mas eu não vejo mais músico nenhum feliz nas orquestras. Em nenhuma. Será que ninguém notou isso? Não vejo mais NINGUÉM satisfeito em orquestra nenhuma. Os caras estão ali nos olhando – maestros, organizadores, contratantes – (o público também), e não vêem?

Bem, meus desafios, agora, a curto prazo são: reclamar menos NOS ensaios, para deixar a vida de meus colegas mais leve (estou falando isso pois HOJE extrapolei, pobres colegas cellistas e violistas!), estudar mais as partes de orquestra e quarteto para ser menos poluidora sonora, continuar reciclando lixo, continuar sem comer carne vermelha, porco e frango, continuar recusando saquinhos o máximo possível, comprar produtos que venham em embalagens maiores (não menores, como as empresas tem feito, cada vez menores – e mais caras), e levar mais coisas de casa para comer no trabalho – frutas, chá, água de casa, por exemplo – a fim de reduzir minha marca poluidora.

Não vejo a hora de voltar a usar meu carro à álcool, pois o carro à gasolina do meu pai me dá muita culpa! Haja culpa! E continuar dando aulas o melhor possível, para fazer algo útil e não ser somente uma poluidora e fazedora de cocô! ECA! Minha mãe nunca podia ter imaginado isso ao sonhar em ter uma linda menininha vestida de cor de rosa!

Amor pra cachorro

Amigos, faz tempo que não escrevo, me desculpem, estou muito ocupada. Concursos, concertos… uma cachorrinha… Hoje vou narrar meu amor por cachorros, meu amor grande pra cachorro e um amor de cachorrinha. Minha historia com cachorros é antiga: eu SEMPRE achei qualquer cachorro lindo (bem, agora existem uns buldogues ingleses, de raça, que eu, sinceramente acho horríveis), mas, para mim, qualquer vira-latas, bem mendigão mesmo, sujo, bem xexelento, é LINDO, ou, no mínimo, foooooffffo! E eu sempre fui uma pessoa que ama pra cachorro! Amo muito, quero muito, choro muito, etc, etc, e se meu marido me quiser por perto quase que é só estalar os dedos ou assoviar, que eu vou para perto dele, toda contente, só não balanço o rabinho, pois não tenho. Pois eu o amo pra cachorro.

Na infância, qualquer cachorro da vizinhança era meu amigo, que eu visitava e fazia carinho todos os dias na volta da escola. Exceto por um pastor vizinho 2 casas acima, que parecia muito bravo, TODOS eram meus amigos. Para alimentar esse meu desejo de ter um cachorro, eu vivia vendo a Susie, a vira-latas de meus vizinhos, dando crias MUUUUUITO FOFAS (sempre), e eles nos ofereciam, e, lógico, eu sempre queria. Era um desejo que era maior do que o de ter qualquer brinquedo. Até porque eu fui uma criança sem traumas (sempre digo isso, acho o máximo, como se eu fosse a “dona da bola”), pois meu pai tinha uma loja de brinquedos.

Isso, claro, não é pra todo mundo, ter um pai dono de uma loja de brinquedos, e eu SABIA que isso era um privilégio. Não que eu pudesse ter qualquer coisa, meu pai nunca foi bobo, e sabia como nos educar para segurar uma possível filha pidona. E eu era bem educada, apesar de ser uma espoleta. Mas é claro que era um privilégio. Mas, claro, eu queria um cachorro.

Minha mãe passou anos e anos a fio aturando essa filha pidona, mas ela não cedeu. Hoje eu sei que ela não é mesmo chegada em cachorro em casa, e é alguém bem firme em seus propósitos. Ela nunca cedeu. Tive canário, jaboti, coelho, pintinhos, peixe, periquito, mas cachorro nunca. Ela não gostava era, acho, dessa interação física, e possivelmente malcheirosa e cheia de bactérias que podia ser um cachorro com uma menina doida por cachorros. Então, quando desisti (perto do vestibular), decidi: quando me casar, terei um cachorro. Matei um pouco o gostinho de ter um cachorro com a Catarina, a cachorra de meu ex-namorado, que foi uma grande amiga, e incrivelmente ainda está viva, pelo que soube recentemente, com 16 anos.

 Mas sabia, quando me casasse eu ia ter um cachorro. O meu marido, quando era só namorado, adotou duas vira-latas (ÊEEEEEE!!!!) lindas, a Nega e a Fulô, que são verdadeiramente minhas grandes amigas. Depois, ganhamos um golden retriever, o Nino, que não só era meu sonho dourado de cachorro, como é o amor da minha vida, e nós dois SABEMOS disso (ele é a coisa mais doce do mundo e eu tenho uma alma melada como a de um golden retriever).

Aí, já casados (não eu e o Nino, mas eu e meu marido, claro), fazia uns três anos e meio, apareceu aqui na frente de casa uma vira-latinhas puro sangue, quase igual às queridas Nega e Fulô, e, como já era mais ou menos o vigésimo cachorro abandonado que rondava meu portão e meu marido NUNCA deixava entrar, eu então resolvi nem pedir, e meu marido disse: “Põe ela pra dentro”. E eu, confusa: “O quê?”, e ele respondeu, “Põe ela pra dentro antes que eu desista”. E a Jujuba ganhou a vida de volta, pois estava machucada e raquítica, as perninhas de trás bambas de tanta fraqueza. Ganhou um lar e dois donos-amigos a-pai-xo-na-dos por ela.

Tudo correu super bem, os cachorros um pouco ciumentos com ela, mas aceitando numa boa, aí, um dia, quando não estávamos em casa, uma briga horrível entre as fêmeas quase pôs fim à vida da Jujuba. Não sei o que foi que ela disse pras outras, de tão ofensivo… perguntei, mas elas foram discretas, não quiseram contar nada, lavar roupa suja, nada. Nem uma palavra. A Jujuba amargou um mês e meio se recuperando de feridas, cicatrizes e pontos nas costas, de “abajour” na cabeça, coitada, mal podendo se sentar de tanta dor, as perninhas mastigadas.

 Depois, tudo voltou ao normal, e, aparentemente, a Nega, que está ficando meio velha, foi delegando a liderança para a Jujuba, e a paz voltou a reinar. Contudo, cada vez que saio de casa tenho medo de algo ruim voltar a acontecer. Mas Deus está cuidando disso pra mim, eu pedi com carinho, acredito que ele não vai querer vê-las sofrer mais.

Catarina (o nome foi dado por mim) foi largada aqui na Serra, no dia 02 de janeiro, na rua abaixo da minha casa, onde tenho que passar todos os dias – rua deserta, praticamente. Ela e seus filhotinhos recém nascidos, em um cestinho, com um cobertorzinho. Os filhotes pareciam ratinhos, de tão pequenos. Ao me ver, Catarina rosnava e arreganhava os dentes, para proteger sua cria. Mas eu sabia que se eu não a alimentasse, ela e os filhotes iam morrer, pois ela não se afastava deles, para protegê-los. Umas poucas vezes o vizinho e um anônimo deram comida para ela. Naqueles dias choveu a cântaros, e eles estavam descobertos.

A Catarina, tão inteligente, fez uma caverninha em um barranco, levou seus filhos lá, para que não tomassem chuva, e ficou ali, guardando as crias bravamente, recebendo de bom grado a comida e a água levada a ela todos os dias, mas sempre rosnando, ou, no mínimo, arreganhando os dentes. Mas, pouco menos de um mês depois, já arreganhava os dentes, mas abanava o rabinho, e ficava sempre feliz em me ver. Foi assim, até os filhotes crescerem a ponto de botarem a cabeça para fora do barranco. Como era lugar alto e seus filhos podiam cair, ela os levou para o outro lado da rua, fez uma toca em baixo de uma rocha, bem protegidos da chuva.

Meses de chuvas pesadas de verão, e eu sempre preocupada se eles estavam bem à noite, naquela chuva toda, e levando comida e água todos os dias. Quando ficava em São José, meu marido levava aquela tralha toda para mim, cuidando dela, me ajudando. Realmente ela era muito esperta. E eu perdendo o sono, pensando o que ia ser desses cachorros. Quando os filhotes cresceram mais e desmamaram, começaram a dar suas voltinhas por ali, e me recebiam com festa. A Catarina já não me arreganhava os dentes, e começou a me deixar fazer carinho nela e nos filhotes.

A essa altura três meses haviam passado, e começamos a buscar pessoas para adotá-los. Não foi fácil, mas um deles com certeza vai ter vida de rei e tratamento maravilhoso. Conseguimos dar os três lindos e fofíssimos filhotes, mas e a Catarina? Cartazes na Emesp, no mercadinho, no veterinário, em lojas de animais, contatos feitos, pesquisas por ONGs na internet, e ninguém a quis. Tão meiga e inteligente, tão linda, ninguém a quis.

Agora você me pergunta: mas e você, por quê não a pega? Bem, ela teve bicheira, gastamos os tubos para cuidar dela, levamos ela pra lá e pra cá, pois não a queríamos dentro de casa, para evitar brigas, e porque QUATRO cachorros, definitivamente, é nosso limite. É o limite da loucura, quase. Juro. E os gastos também.

Percebemos que ela é muito esperta, gulosa e forte, ela não vai se submeter a outra cachorra dorminhoca como a Nega. Temos certeza. Ela está aqui, gordinha, tratada, vermifugada, castrada, se recuperando da castração (com sua cicatriz e o cone na cabeça), super esperta, uma cachorrinha legal pra cachorro. Amorosa pra cachorro. E eu com essa encrenca que algum filha da puta (perdão do palavrão, mas é isso mesmo) largou aqui na Serra.

Uma pessoa que faz isso com um bicho (vários, no caso), e os deixa morrer ao acaso, como consegue dormir? Esses cachorros tiveram muita sorte, pois não é fácil encontrar pessoas que alimentem e cuidem de viras-latas largados por quatro meses. Muitos que vemos largados por aqui (e são MUITOS, acreditem) morrem lentamente com bicheiras (doença inevitável para cachorros soltos no mato, que se machucam, a mosca pousa e bota ovinhos, as larvas crescem e vão comendo o cachorro lentamente, muita dor, multiplicação rapidíssima dos vermes, até matá-los). É uma crueldade largar bichos assim, fora a dor emocional que eles sentem de se ver, de repente, abandonados.

Esse é um texto que quer conscientizar alguém a NUNCA largar animais. Ache um outro dono, pelo amor de Deus, doe, mande para o Centro de Zoonoses, sei lá, qualquer coisa, menos achar uma simpática ruinha deserta num lugar longínquo para largar os bichos, e entregá-los à pura sorte. Tenho esperanças de encontrar alguém legal pra cuidar da Catarina. Ela é doce, sorri para mim quando me vê (é verdade, eu achava isso, e o Elton, um cara muito legal da loja de animais, que nos ajudou bastante com ela, também notou e me falou: ela sorri!). Nao posso esquecer de falar tambem que nossos vizinhos e a Ana (obrigada) tambem tem ajudado muito.

Catarina e’ forte, sapeca, não é novinha do tipo que vai roer suas coisas, tem pelo curto, não vai sujar sua casa nem ser difícil de tratar, não vai ter mais crias, pois está castrada. Ela está aqui há vários dias, não late por besteira, é quietinha, já dá a patinha e deita de barriga para um carinho. Ela NUNCA fez necessidades no ladrilho, vai para o meio da grama e faz. Não sei se ela já sabia isso antes de ser largada.

De qualquer maneira, ela é um doce de cachorro, e tenho mesmo muita pena de não poder ficar com ela, pois se eu já não tivesse uma matilha às vezes desequilibrada no que diz respeito ao poder de quem manda, ela era da família. Quero uma pessoa que vá cuidar MUITO bem dela, pois ela merece, e já sofreu o suficiente.