DOCE DOCENCIA

Minha relação com a docência sempre foi dúbia. Relação de amor e ódio, muitas vezes. Admiração e medo. Eu, desde meus 10 anos, jamais havia pensado em ser professora.

Na infância, no entanto, eu amava as figuras dos professores, e brincava de professora com a certeza de que era uma grande e honrada carreira (e é mesmo, com exceção dos salários baixos e do reconhecimento, que muitas vezes não existe).

Eu tinha o Playmobil de escolinha, com as criancinhas, o quadro e a professora, as carteiras e mochilinhas, e, juro, com poucos outros brinquedos eu me diverti tanto quanto com esse. Brinquei tantas vezes! E olha que meu pai era dono de uma loja de brinquedos, e, apesar de ser um pai mais para durão, posso dizer que tive muitos brinquedos, talvez mais que o suficiente, sem, contudo, jamais desprezar nenhum. E brinquei, ah, se brinquei!A escolinha era brincadeira séria e boa.

Nessa mesma época, tive uma excelente professora na escola. Ela tinha um nome bem diferente, Shaila, nunca me esqueci, e a professora do Playmobil, óbvio, se chamava Shaila. Nem sei em que série foi, mas foi uma das primeiras, pois me lembro que era a época de haver uma professora e uma assistente, apenas, para tudo. Ela era firme e doce, meiga, ela dava aulas com paixão e brilho nos olhos, decidida, bonita, calma sem ser mole.

E lembro-me que, num daqueles intervalos miseráveis (recreios, se dizia em S. José) em que eu estava BEM isolada e com vergonha da vida, de tudo e de todos, triste mesmo, ela veio conversar comigo e quis saber do porque de eu não estar conversando ou brincando com ninguém. Isso, além de ter me feito me sentir importante, me fez, pela primeira vez na vida, perceber que era eu que não estava brincando ou conversando com ninguém. Eu sempre achei que ninguém brincava comigo, que ninguém conversava comigo, que EU era humilhada e desprezada. Aí é que eu fui me dar conta que eu é que teria que ir ao encontro dos outros.

E, de lá pra cá, estou sempre brincando com os outros, na menor das ocasiões possíveis, e, se não fui capaz de fazer muitos amigos daqueles verdadeiros, em pencas (mas fiz alguns MUITO maravilhosos), ao menos isso me fez ter muitíssimos colegas e conhecidos. E de lá pra cá, nunca mais me senti tão sozinha no mundo assim. Essa professora me fez ver o mundo sob outro paradigma. Sobre essa história, inventei uma teoria (sou a mulher das teorias), ou posso dizer, percebi, que todos os tímidos tem uma certa dose de metidez, não se misturam, pois se julgam melhores que os outros, então acham que são os outros que têm de bajulá-los e paparicá-los, dizer bom dia, etc. De lá pra cá, nunca mais deixei de dizer bom dia, a quem quer que seja. Colega, lixeiro, varredor, cobrador do pedágio, vendedor, moça do café, etc.

Tive, após essa época, uma série de sensações de amor e de ódio a vários professores, imensa admiração por uns, ódio por outros, mas uma coisa nunca me saiu da cabeça: os bons professores, mesmo de matérias que eu ODIAVA, sempre AMAVAM profundamente o que faziam, e por isso, faziam ou fazem sempre o que fazem com grande entrega, brilho nos olhos, e mais que isso: confiança absoluta de que os alunos são todos, absolutamente todos, extremamente capazes de aprender.

Lembro-me de tantos nomes e de tantos rostos de mestres admirados, Chicão, Cicléa, Sandra, Rubens, Fausto, Edgard, Irmã Vera e tantos outros de que me lembro com carinho, minha cabeça louca de musicista já não consegue se lembrar bem dos nomes, mas que, com certeza, foram mestres que fizeram a diferença na minha vida, na minha formação como ser humano. Isso, somente do primário e secundário. Nas faculdades eu teria PENCAS de nomes lindos para me lembrar… ia ocupar muito do blog, viva a USP, vou deixar só para mim.

Esses mestres todos me deram bases sólidas para ter esperanças e sonhos, pois acho que, além da informação passada, o bom professor tem o DEVER de enfiar, nas cabeças ocas de seus alunos, muitos sonhos, fazê-los se multiplicarem, tomarem vida própria, dar desejos, curiosidade e ambição boa, fazer o aluno se ver no seu melhor, se imaginar e confiar que ele (ela) pode sim se tornar o seu melhor. Eu odiava, consequentemente, os professores que odiavam dar aulas, pois eles, claro, eram péssimos no que faziam, já que só cumpriam protocolos porcamente. Ainda havia aqueles que apreciavam com moderação, desprezando também o que poderiam fazer com as suas vidas e com as vidas dos alunos.

Eu sempre achei, por ter déficit de atenção e também ser meio hiperativa, que eu JAMAIS poderia ser uma boa professora, que jamais ia gostar de dar aulas. Que NUNCA ia ter paciência. Que ia querer MATAR os alunos. A necessidade de trabalho me botou pra dar aulas em Diadema, aos 20 anos. Foi uma loucura, uma surpresa, uma verdadeira viagem: o dia voava fácil, eu me virava do avesso e me desdobrava para conseguir passar o melhor possível para eles, e quando eu via era a hora do almoço, e quando eu via era a hora de jantar, e quando eu via eram 10 horas da noite e eu, cansadíssima e felicíssima, saía de Diadema, com meu Monza verde 84, cheirando a carro de 5 antigos donos (o que, provavelmente era), no silêncio feliz de um dia ganho, quase sempre me esquecia de ligar os faróis (e alguém bom me avisava), de tão absorta que eu havia estado, naquele estado de graça de passar conhecimento, sonhos, olhos brilhando, auto-estima, boa postura, disciplina, sensibilidade, fazer o aluno sair dali acreditando mais em suas capacidades reais.

Eu tenho um sonho: transformar a educação do violoncelo no Brasil (putz, me senti o Martin Luther King, agora: “ I have a dream”). Se vai ser percebido por alguém, ou por milhares, aí já não sei. Faço, ali na EMESP e nas aulas particulares, assim como já fiz nos outros lugares em que já trabalhei, a subversiva tentativa de fazer as pessoas acreditarem mais nelas e sonharem mais. A se posicionarem com mais segurança e convicção neste mundo, por meio da arte, do seu instrumento, que, por acaso é o violoncelo.

Quero ensiná-los a terem suas próprias idéias, seus próprios desejos secretos do que sonham em tocar e onde querem tocar, a terem suas interpretações, e NUNCA a quererem ser uma medíocre cópia de alguém medíocre, ou, que seja, uma medíocre cópia de alguém um pouco melhor que eles. Não. Quero que eles mesmos decidam, que tenham mais dúvidas que certezas, que aprendam a experimentar, a buscar sozinhos, que creiam em verdades absolutas com moderação, e SEMPRE, sujeitos a alterações. Que sejam mesmo sempre aquela “metamorfose ambulante”, de que brilhantemente tratou Raul Seixas, que é sempre melhor, mesmo, “do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Quero dar pérolas! Quero colorir o mundo de sonhos!

Se sou boa ou não no que faço, não é o caso. Aprendo a cada dia. Pesquiso a cada dia, se erro, tento de outras maneiras, tento de qualquer maneira. Faço com entrega total, com prazer, com amor total. Amo cada um de meus alunos como as verdadeiras mães amam a cada um de seus filhos. Olho-os com o melhor dos olhos, buscando tirar deles o seu melhor, que é absolutamente único em cada um, graças a Deus, senão ia ser uma chatice.

Meu sonho é ser essa educadora, que bota a semente, o material fértil (o estrume, a merda, o húmus, a loucura, a minhoca, o adubo, o que você preferir) na cabeça desse aluno, e botar esse aluno no sol, fazê-lo brilhar, regá-lo com minhas lágrimas de garota-manteiga, orgulhosa, com meus olhos brilhando, e aos poucos ir percebendo esse brilho se tornar o brilho dos olhos dos meus alunos, e que eles sonhem alto, que estudem alto, que queiram crescer cada vez mais alto, que busquem ideais de perfeição o tempo todo sabendo que jamais vão alcançá-lo. Mas que, sim, saibam também que quem não sonha alto não alcança nada e nós queremos (e podemos, sim) mudar o mundo começando por nós mesmos… e mais, infectando alunos e colegas de sonhos e esperanças, de puríssimos ideais de beleza e perfeição onírica, que, com sorte, deixaremos alguém mais feliz, e essa pessoa fará os que os cercam mais felizes, que farão, por efeito cascata, os que os cercam mais felizes, e isso, quem sabe, pode transformar o mundo verdadeiramente, sem ninguém perceber essas micro forças ocultas… Tudo isso, por meio do som mágico desse mais do que mágico instrumento, chamado violoncelo.

O que importa na vida é mesmo dar, se doar, oferecer, compartilhar, multiplicar. Como, acho, minha mãe dizia: um livro fechado é um livro inútil. O conhecimento só tem valor quando é usado. E eu sou um livro aberto, como meu pai cantava, “eu sou um livro aberto, sem histórias”. A minha história vai sendo construída dia a dia, em cada aula, em cada música aprendida, e a cada ensinamento que eu ensino, eu também aprendo. Piaget já dizia que não é o professor que ensina, mas sim o aluno que aprende.

Eu falo para meus alunos que eu oriento, mas eles são seus próprios professores. O músico só aprende fazendo, sozinho, experimentando, querendo, desejando, almejando, sonhando. O músico é sempre um autodidata, pesquisador da sua própria arte, de seu instrumento, de sua alma, de sua mente, de seu corpo.

A melhor educadora e mestra que já encontrei na vida, porque nasceu com essa nobre função de mudar o mundo verdadeiramente, a grandiosa Professora Ecléa Bosi, que provavelmente nem se lembra de minha carinha quieta dentro de sua sala, mas que transformou minha vida e minhas esperanças para sempre, nos aconselhou a jamais perder esse sonho de querer mudar o mundo. E ao dizer isso, ela mudou. O meu e o daqueles felizes colegas que fizeram parte de sua turma naquele ano.

Anúncios

3 Respostas para “DOCE DOCENCIA

  1. Adriana Schincariol Vercellino

    Querida Meryelle,me emocionei com o seu texto.
    Acredito,como vc no poder de transformador na nossa vida que algumas pessoas tiveram.Na minha foi meu amado professor Paulo Bosisio, que me ensinou tanto, com conhecimento de sobra e respeito profundo pelas pessoas e pela música.Como esquecer de pessoas assim?
    Nos dias de hoje,muitas vezes só se transforma transgredindo,não é?
    Obrigada.Bjs Dri

  2. Nossa! Vejo que tenho mais coisas em comum com você do que eu pensava! Também sou professora! Os meus sonhos se encontram nos seus! É com felicidade que posso compartilhar da mesma essência com você!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s