EM BUSCA DA MINHA CRIANÇA MALUCA PERDIDA

Desde criança, sempre fui uma pessoa de grandes expectativas. Grandes, não. Enormes. Posso dizer, E-NOR-MES. Eu não sei bem o porquê, se era (ainda sou?!?) sonhadora demais e pronto, ou se teve relação a eu querer no futuro transformar completamente aquela vidinha comum de criança feia e desajeitada, sem grandes amizades, sem grandes notas, sem grandes coisas para se notar.

Também pode ter sido pelo fato de eu ser a quinta filha, e me sentir também a quinta na preferência de todos. Eu não era linda e nem falava cheia de segurança como aminha irma mais velha, eu não era meiga e carismática como minha irma do meio, eu não era divertida e maluquinha como meu irmao mais velho, nem inteligente, comportada ou excelente aluna, como o meu irmao mais novo. Também apanhei muito, regularmente, e tinha certeza que era sempre por razões completamente bestas e por pequenas coisinhas, então, achava uma grande injustiça. Talvez para me livrar dessa sensação de não ser ninguém, eu sempre almejei ser algo grande, enorme, E-NOR-ME.

Mas essa sensação não era voltada só a mim. Eu achava que meus irmãos e colegas iriam ser grandes gênios, e que meu pai, um comerciante, por cantar maravilhosamente bem, um dia ia ser descoberto, gravar um disco que ia “bombar”, e ser considerado “a voz” (porque é de verdade A VOZ), aqui no Brasil, e até no mundo todo. Meu irmão iria ser Presidente da República, no mínimo (no tempo em que ainda se achava que só um grande homem poderia ser Presidente da República), ou, pelo menos, o primeiro astronauta brasileiro na Lua ou em Marte. Ou ia ser médico e descobrir a cura do câncer, ou ser um cientista, como Einstein ou Darwin. E assim vai… minha mãe iria virar a maior pintora brasileira, minha irma iria ser Miss Universo, meu irmao mais velho o o maior gênio da informática, a irma mais nova, seria a maior bailarina, ou a maior poeta de todos os tempos, ou coisa assim. Eu sempre tive grandes expectativas para tudo e para todos.

Eu, na sacada de casa, brincando, pensava no príncipe, lindo,maravilhoso, que vinha montado em seu cavalo branco para me resgatar, e pensando ser uma princesa trancafiada injustamente, imaginava a glória e o “felizes para sempre” de todas as histórias infantis. Eu não só acreditava nisso, eu tinha a total CERTEZA de que eu iria MESMO ser feliz para sempre, amorosamente e profissionalmente. Ainda acredito totalmente no amor, pois o príncipe lindo está aqui, dentro da minha casa.

E assim, a vida ia passando, e tudo o que era grande eu almejava. Queria ser uma cantora incrível como a Elis Regina ou a Clara Nunes, queria ser a maior bailarina do mundo (Barishnikov era meu parceiro divino, em meus sonhos), queria ser aquelas moças elegantérrimas que faziam backing vocal (badá, badá, badá…) para o Tom Jobim nos concertos da Globo no final de ano, queria ser a mulher de um Tom Cruise ou coisa parecida, tinha certeza de que, mesmo sendo feia e desajeitada, quando crescesse eu me transformaria numa lindíssima mulher, magrinha,sexy e elegante, de longos cabelos lisos castanhos, de gestos delicados, de perfume que envolvesse delicadamente a todos que me circundassem…, sabe aquelas mulheres de gestos esvoaçantes dos antigos comerciais dos sabonetes Vinólia? (posso até ouvir Vivaldi e o caminhar em câme`ra lenta…as roupas, traços e cabelos tal qual a Vênus do Boticelli (quanta semelhança dessa Vênus à Gisele Bündchen, não é mesmo?) Ou seja, eu me tornaria uma mulher ideal, COM CERTEZA…

Aí, descobri o prazer da leitura, das poesias, dos grandes romances! Ah, que delícia! Não somente eu seria essa mulher ideal, mas eu seria culta, a maior escritora de todos os tempos, muitos Prêmios Jabuti, o primeiro Prêmio Nobel brasileiro de literatura, eu ia ser a mulher que ia fazer a poesia voltar a ser lida por todos e voltar a dar dinheiro para os escritores! (Alguma vez já deu dinheiro?!?) Para ver como eu sonhava alto!!! Uma Cecília Meireles que vendesse muito ou mais! Soube que Guimarães Rosa começou a escrever tarde, só quando já era muito culto e vivido, e SEMPRE achei que quando eu fosse uma grande qualquer coisa, já com meus 50 anos, iria começar a escrever “clássicos”. Achei isso lindo! Conheci Saramago, aí tive a certeza: quando eu for MUITO culta, escreverei obras primas!

Aí comecei a estudar piano, e a gostar de Beethoven, Mozart, Bach, Haydn, então, claro, eu sonhava em ser a maior compositora de Sinfonias e Sonatas para piano da história. E achava que ia ser a primeira grande compositora mulher de Sinfonias.

Depois, fiquei maluca pela Madonna. Fui fazer dança de novo, para “me preparar para o futuro”, cantava alto passando aspirador, para ninguém me ouvir, e eu estava, na minha cabeça, TREINANDO, para quando eu fosse ser o que hoje seria uma espécie de Lady Gaga (sem a pornografia, e a roupa de bifes – eca!- faz favor!) ou Beyoncé (mais branquinha e com menos curvas, porque aquelas curvas, só ela mesmo!). Aprendi inglês e dança com muito empenho e entusiasmo, pois eu apenas estava ME PREPARANDO para meu futuro de sucesso internacional!

E tudo isso, claro, junto com uma existência escolar totalmente comum e medíocre, sem muitos amigos, sem falar dessas coisas para ninguém, vivendo aquela vidinha normal de estudante do interior.

Depois chegou a fase da vida em que eu tinha que escolher verdadeiramente a profissão. Fiquei perdida. Não tinha “Sucessora da Madonna” na lista do Vestibular… não tinha a melhor cantora, a melhor compositora, a maior escritora, nada disso… caí na real de ter que escolher uma profissão real. Como era apaixonada por livros, ler e escrever, entusiasmada pela minha professora de português (Profa. Cicléa!), uma paraense adorável com o mais lindo dos sotaques brasileiros, fui fazer Letras, na esperança (certeza) de ser escritora. Mas já havia em mim aquele “viruszinho” de Orquestra Sinfônica, aquele desejo de encontrar alguém que me ensinasse a tocar violoncelo para tocar em uma Orquestra. E foi o que fiz, procurei, achei, mudei o rumo para a música.

Eu tinha os olhos brilhantes!

Depois que escolhi mudar de carreira mesmo, após quatro anos de estudo de violoncelo e um Festival de Brasília, aí então eu sonhava dia a dia em ser solista, ser Spalla do Teatro Municipal. Em descobrir uma forma mais rápida de se aprender o violoncelo do que qualquer outra e revolucionar mundialmente e definitivamente a maneira de se ensinar a tocar, ou seja, virar a maior professora de violoncelo da história, algo como um Aldo Parisot ou Willian Pleeth. Ser a pessoa que ia fazer A GRAVAÇÃO das Suítes de Bach, com um som absolutamente indescritível. Fazer a “Gravação Definitiva” do Concerto do Dvorák.

Na vida real, não é fácil continuar sonhando. Mas ainda sinto essa criança louquinha e sonhadora, às vezes, dentro de mim. Quando já tinha desistido TOTALMENTE dessa história de querer mudar o mundo, na aula da melhor professora que eu já tive na vida, a Ecléa Bosi, no  meu Mestrado, ela falou para um colega, que expôs exatamente isso,  “que antes queria mudar o mundo, e aí a vida o fez ir vendo que não dava”, ela, sabiamente, respondeu: “Eu se fosse você não desistiria disso nunca”. As aulas dela me fizeram ver, e aquela turma esplêndida de colegas que tive a sorte de ter naquele semestre, de todas as áreas, me fizeram ver que somente as pessoas que tem grandes e altos ideais é que podem fazer alguma coisa para mudar o mundo. Não fazer TUDO, mas alguma coisa.

Foi quando parei de sonhar em ser a nova Beethoven mulher, que desisti TOTALMENTE de tentar compor, que comecei a compor sambas (me senti dentro do genial conto do GRANDE Machado de Assis, “Um homem célebre”), e a conhecer melhor Noel Rosa, Cartola e outros GRANDES de verdade. Comecei a sonhar de novo. Quem sabe minhas músicas não serão um dia gravadas por alguém?

Quando estava na mais profunda tristeza por ter perdido o emprego e muitos alunos, comecei a pensar mais no tema futuro do meu Doutorado, e recebi o grande presente de estar na página de agradecimentos do Doutorado do meu mestre maior, professor de violoncelo da USP, o Bob, Doutorado que ficou ma-ra-vi-lho-so e será defendido em breve, e que muito provavelmente vai transformar a história da aprendizagem do violoncelo no Brasil, e que eu ajudei a revisar. Bob, obrigada, foi uma honra participar! Nem que tenha sido só um pouquinho!

Quando estava pensando em nunca mais escrever, conheci uma escritora, pessoa super interessante. Eu nem achava que existiam por aí pessoas que viviam disso! Aqui estou eu, brincando de escrever de novo, pelo amor de Deus, juro, hoje, sem NENHUMA pretensão.

Meus sonhos estão precisando resgatar a Meryellinha sonhadora da infância, parafraseando aquele samba do Paulinho da Viola (“Para ver as meninas”, lindo samba!), “eu nem me lembro mais quem me deixou assim”…ou aquela música do Pink Floyd (adoro) em que ele diz “I never tought that you would loose that light in your eyes”. A vida anda difícil, e cada vez que fico um pouco mais feliz ou tranquila, levo uma bordoada na cabeça.

Mas eu tenho que continuar estudando para ser uma melhor violoncelista, uma melhor professora (a melhor será difícil, pois tem por aí Ricardo Fukuda, Julio Ortiz, Robert Suetholz, Raiff Dantas Barreto, Alceu Reis, Fábio Presgrave, e, claro, outros tantos que não conheço… tenho que comer MUUUUUUUUUUITO feijão! Algumas aulas deles são tão maravilhosas, que cheguei a ter vontade de chorar de tanta emoção!)

Tenho que continuar investindo no aprendizado para escrever e aperfeiçoar meus sambas e minhas canções, quem sabe onde isso pode parar? Keep walking… Um cellista dessa listinha acima, uma vez, falou que os cellistas que estão nos melhores postos de trabalho por aí não são os melhores, mas sim aqueles que NUNCA DESISTIRAM. Tem horas que, vou ser sincera, pensei em desistir, pois cada dia tem sido mais difícil. Mas tenho que me reerguer. Buscar lá dentro essa maluca criança que estava aqui dentro de mim, e continuar sonhando em encontrar um som indescritível no violoncelo, uma maneira revolucionária de ensinar violoncelo, uma letra de samba como “As rosas não falam”, a gravação definitiva do Concerto de Dvorák, para sonhar com a Lua, e quem, sabe, chegar em Moscou, sonhar longe, para ir somente um pouco mais longe, e não necessariamente virar a nova Elis Regina ou a nova Rostropovich, ou a nova Guimarães Rosa, ou a nova Beethoven!

Ao violoncelo!

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Uma resposta para “EM BUSCA DA MINHA CRIANÇA MALUCA PERDIDA

  1. Bastante interessante o texto.

    O universo é imenso, cheio de possibilidades, é infinito. O universo é também a menor das coisas. Dos dois extremos há um ponto em comum que caracteriza sua grandeza: literalmente um ponto. Ponto por ponto. Ponto, energia, ponto, etc.
    Como humanos podemos sentir um apenas, e todos também. A beleza… dela brota o universo, as estrelas, deus… Dela e nela há a música, a senhora mais encantadora que o eterno tempo conheceu e conhecerá.
    O elixir da vida. A vida da vida.
    Não posso deixar de afirmar que o cello é um elo entre homem e deus, uma ponte, que tem uma ponte.

    Como retribuição de suas palavras, deixo aí as minhas.
    Até.

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