Ouro sobre o Azul

Vou usar uma das tiradas do grande clarinetista Luca Raele: resolvi juntar duas coisas que absolutamente não têm nada a ver: em vez de misturar piano com clarinete, no chorinho Ouro Sobre o Azul, meu preferido, que o Sujeito a Guincho quase sempre toca, para meu deleite, resolvi juntar Ouro sobre o Azul, de um outro jeito, chorinho com significados espirituais. Eu adoro azul, com certeza minha cor preferida… aqui no Brasil, quando se diz que está “tudo azul”, é porque a vida está boa (viva o Brasil! Viva o chorinho!). Mas em inglês, estar “Blue”, é mais como estou me sentindo agora, triste, melancólica, pensativa… Blues é uma música sofrida, mas com uma certa leveza, um olhar de esperança… Mas a crise traz MUDANÇAS! Ouro sobre os Blues!

Acima das crises e das tristezas, podemos fazer nascer ouro, uma flor de lótus, uma renovação espiritual, e podemos encontrar novos caminhos, novas soluções para problemas, novas idéias e, principalmente, quebrar nossos padrões antigos de comportamento, que nos prejudicam.  E é esse o assunto desse texto: renovação das cinzas, Ouro sobre o Azul.

Sei que estou afastada do Blog há muito tempo, peço novamente perdão aos leitores fiéis, amigos, alunos, curiosos. É complicado às vezes escrever, pois demanda tempo, calma, idéias e um tema. Cheguei a pensar em muitos temas e até a desenvolvê-los mentalmente, mas em uma época sem nenhum tempo. Agora, há dois meses, tive mais tempo, mas decidi passá-los me concentrando na minha meta maior, que é apenas estudar violoncelo. Estou, felizmente, estudando como nunca, e isso realmente é um grande prazer, conseguir realizar planos dia a dia, de disciplina, de estudo, de boa alimentação, de alongamentos, ginástica, e até mesmo tomar bastante água, pois como meu mestre, o Bob, sempre fala, o músico também é atleta, e é assim que eu estou tentando me tratar.

A vida não está fácil. Estou pela primeira vez sem trabalho, pois a Orquestra está, por enquanto, em suspenso, apesar de que ainda há esforços grandes do maestro e dos músicos, para fazê-la retornar. Não é fácil ficar em casa, sem dinheiro, sem fazer uma das coisas de que mais gosto (vide texto anterior!). Estou passando diariamente por altos e baixos. Felizmente, quando me exercito e estudo, os “baixos” ficam menos fortes e menos freqüentes, então, estou usando isso para me manter ativa e produtiva, mesmo com os pensamentos negativos que inevitavelmente passam pela cabeça.

Na filosofia budista, existem as “Oito Verdades”, que nós temos, como praticantes, de buscar para nos aperfeiçoar. Uma dessas “verdades”, é, imagino, uma das maiores metas que o ser humano pode pretender: o Pensamento Correto. Isso significa manter ao máximo possível o pensamento positivo, independentemente das condições. Ser como a flor de lótus, que nasce e resplandece mesmo nas áreas mais poluídas e mais impróprias. Ser como a água, que a tudo se adapta, mudando sua forma, independente do recipiente. Ser como a flor da ameixeira, que é a primeira a nascer, maravilhosa, assim que a neve de um inverno japonês rigorosíssimo começa a derreter, no início da primavera. Ou seja, mesmo nas condições mais adversas. É isso que estou tentando manter, apesar dos pesares.

Como se não bastasse o período “sabático”, sem trabalho (logo, sem $$$), ainda andava triste, com a moral lá em baixo, e com a autoestima, como meu pai brinca, “mais por baixo que barriga de cobra”. E ainda tem uns dois ou três concorrentes (não colegas, concorrentes mesmo) que acham, sei lá porque, que eu “me acho”… não dá para entender… Se tem uma pessoa que nem sabe quem é, ainda, nesse mundo, sou eu. O que dirá “se achar”!!! Tenho certeza que isso JAMAIS vai acontecer! Até alguns meses atrás eu estava completamente perdida – tirando as minhas aulas, que faço com o maior empenho e carinho de que sou capaz. 102%. O resto, estava TUDO em crise, vocês viram, tanto que tentei o fracassado empenho para parar de reclamar (a “verdade” budista da “Palavra Correta”, ou seja, só dizer o bem), como vocês leram. Pretendo retomar esse treinamento, pois, além de ter sido muito útil para eu saber o QUANTO eu reclamava, criticava, me fez perceber que eu estava MUITO chata para todos os meus queridos.

A gente vai aprendendo, e, infelizmente, às vezes já não é mais possível reparar os erros, como o que já rolou comigo no passado. Briguei com uma colega que eu amava, na Orquestra de Santos, e ela nunca mais foi a mesma comigo, de tanto que eu abria minha boca para reclamar. Ela me chamou a atenção para isso, aprendi, melhorei, mas a amizade ficou abalada, e depois, saí de lá, e não pude reparar isso, em longo prazo. Mas, tenho certeza que sou melhor colega (ou era), na Orquestra de São José, por isso os colegas são mais felizes comigo, logo, eu recebo a amizade deles com satisfação e prazer.

Tudo o que eu tenho feito é querer melhorar como pessoa, superar defeitos, resolver meus medos, minhas inibições, minhas dificuldades técnicas como musicista, mas não é fácil… normalmente, para resolver defeitos, você tem que vê-los, encará-los bem encaradinhos, e isso não é gostoso, nem simples, nem muito menos fácil. Superar os próprios defeitos exige mudanças, é TÃO difícil mudar padrões de atitudes. O pensamento é até bonito, todo mundo sabe o que é certo (a maioria das pessoas, claro), sabe o que devia fazer, inclusive eu, mas mudar, fazer o que é certo, é TÃO difícil…

Cada vez tenho visto mais pessoas ensimesmadas, que só pensam em si mesmas, que andam no supermercado dando cotoveladas nos outros, crianças mimadas que não respeitam qualquer hierarquia ou os colegas, pessoas que não tem medo de ofender e nem de xingar, todo mundo querendo tirar vantagem, ganhar, passar por cima dos outros… isso é tão triste! Eu nunca quis passar por cima de ninguém, nem quero, nem vou querer, mas, às vezes, tratamos os nossos problemas como únicos, e não damos atenção aos nossos queridos, ao marido, aos pais, aos filhos (no meu caso enteados), colegas… quero ser mais agradável, menos mal humorada, mais positiva. E é difícil quando a gente percebe um tipo de atitude ruim em nós mesmos, aí sim é duro!

Por isso, esse texto será muito curto, mas demonstra uma firme decisão (que tem sido levada muito a sério também nas minhas ações, há pelo menos um mês e meio): mudar para melhor. Não responder, não ofender, respeitar, e tentar fazer o que eu sei que devo fazer para ser alguém melhor. Todo mundo admira grandes pessoas, mas como é difícil ser uma grande pessoa! Sabemos o que teríamos que fazer, mas não fazemos.

Parar de pensar em coisas negativas, parar de olhar os defeitos dos outros e olhar para os meus mesmo, não de um ponto de vista da “Hiena Risonha” (ó céus, ó vida, ó azar, lembram-se?), que costumava tomar sempre, mas tentando quebrar padrões de comportamento, pensar positivo, lutar para me aperfeiçoar, tentar manter a sanidade mental, a paz e a objetividade a todo custo, e tentar praticar o que a minha mestra Monja Coen falava em suas palestras: Seja o bem que você quer ver no mundo!

Para isso, voltei a fazer Yoga, Tai Chi, Sahaja Yoga (um tipo de meditação), Zazen, e estou tentando praticar a maior meditação de todas: estar no momento presente. Não no passado, nem no futuro. Cada minuto tem que ser uma preparação totalmente presente para o futuro. Cada minuto um investimento. Se estiver ouvindo música, ouvir a música. Se estiver andando, andar. Se estiver lavando louça, lavar a louça. Sem sofrer. Se estiver amando, amar. Se estiver tocando, tocar de corpo e alma. Viver o momento presente, que é onde verdadeiramente estamos.

Estudando, amando, respeitando, e ralando para ser uma pessoa melhor a cada dia, para “pensar mais feliz”, para ser mais “Ouro sobre o Azul”!

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