Ja’ temos TUDO

Como vocês já devem ter reparado, sumi do blog. Minha vida está uma agitação só, uma loucura e é claro que também acho bem difícil escrever sem reclamar, e como vocês viram no texto anterior, estou tentando parar de reclamar, ou, pelo menos, diminuir bastante.

Bem, não é fácil não reclamar, com certeza. Eu venho de uma família de críticos, reclamões profissionais, mal humorados profissionais (talvez até por isso eu seja boa professora – eu acredito nisso pelos resultados que vejo, não é metidez –  um professor de instrumento tem que achar o que está ruim, ou o que está pior, e tentar resolver).

Meu pai reclama e critica qualquer coisa na TV desde tempos remotos, e com certeza não é culpa dele, pois minha avó era bem mal humorada, meu avô era nervosinho e reclamão também, ele, como eu, só herdou essa “sina”. Minha mãe, com certeza também deve ter herdado de sua família o seu lado cri-cri e carregado de sofrimento e reclamação. Já disse antes que acredito ser uma característica do brasileiro essa coisa de ser sempre o mais coitado. Quase que qualquer conversa é uma disputa para saber quem sofre ou sofreu mais. Que o brasileiro sofre tanto, que é o campeão mundial de farmácias per capita! Heranças judias, católicas, dos imigrantes fugidos da miséria e da guerra… o que seja…

Veja qualquer música brasileira: 90% de reclamação!!! “Chora, disfarça e chora…”; “A tristeza é senhora…”; “Tristeza não tem fim, felicidade sim…”; “A Rita levou meu sorriso…”, “Vai, minha tristeza…” nossa! É até difícil de cantar sem reclamar! E o Cartola completa: “Todo mundo tem o direito de viver cantando, o meu único defeito é viver pensando em que não realizei e que é difícil de realizar…”

O Tom Jobim, amor da minha vida (depois do meu marido, meu cachorro e do Brahms), dizia que era quase um pecado ser bem sucedido no Brasil, e eu sempre achei muito estranho e curioso que nossa cultura de perdedores multiplica preguiçosos, e que a cultura japonesa ou americana, por exemplo, faz multiplicar trabalhadores, empreendedores e vencedores.

Felizmente, eu tenho no sangue e na mente da minha família a idéia camponesa italiana de economizar, trabalhar e fazer coisas por mim (minha avó paterna, por exemplo, cozinhava massas incríveis para 12 pessoas, quase sem dinheiro, meus avós plantavam hortas, meu avô paterno fez a própria casa e era carroceiro, minha avó materna trabalhava fora e usava calças numa época em que as mulheres só ficavam em casa. Com certeza esse lado cultural familiar me fez sempre achar que eu sou a pessoa que vai pegar pelas rédeas o meu destino financeiro e educacional, e que nunca vai querer morrer encostado feito o símbolo mor dos brasileiros, que é o Jeca Tatu…

Mas reclamar ainda é uma parte arraigada de mim. É duro eliminar isso (sei que estou reclamando…), mas tenho que tentar. É realmente um hábito MUITO feio. Vergonhoso. Mal agradecido. Aquela frase famosa de caminhão (essa é para você, querida Alice!): “ Nasci careca, pelado e sem dentes, o que vier é lucro!”, com certeza é uma frase muito sábia! Eu não tinha nada mesmo! Eu nunca fui dessas crianças desesperadas para ter coisas. Eu era uma criança mais para humilde do que para bem de vida, então, acho, de certa forma, que essa falta (da qual, sinceramente nem senti muita falta), é que me fez valorizar mais as coisas boas da vida, do que aconteceria se eu fosse riquinha e mimada.

Essa exigência de comer de tudo, mesmo não gostando muito, que minha mãe fazia, era, na época, algo sofrido, mas me ensinou uma lição muito importante, que não consegui ensinar a meus enteados, pois hoje não se exige mais nada de criança alguma, que foi essa capacidade de enfrentar pequenos desafios, mesmo não gostando tanto deles. Isso que a gente tem que fazer todo dia no trabalho, na vida, no instrumento, na convivência social. Outra lição importantíssima foi essa habilidade de experimentar coisas novas sem grandes preconceitos, e não querer e até exigir TUDO perfeito, tudo do meu gostinho, do meu jeitinho, como eu gosto mais. Eu sou uma pessoa que sabe comer de tudo, e que, mesmo não gostando de jiló, se eu for à sua casa e só tiver isso, vou comer e dizer que está muito gostoso. Não morrerei jamais de fome, isso eu sei, nem por preguiça de trabalhar, nem por enjoadez de não comer o que não se gosta.

No Budismo, cada alimento é considerado uma grande bênção, e é agradecido profundamente antes de ser comido. Além de se agradecer aos inumeráveis trabalhadores que fizeram o alimento chegar até mim. Depois de ter plantado alfaces, eu JAMAIS vou comer uma folhinha sequer sem SABER que ela demorou tanto para brotar, crescer e ficar linda, e está dando sua vida para fazer minha vida melhor. É uma lição que TODAS as crianças deviam mesmo fazer, plantar alguma coisa de comer, esperar crescer. Isso foi uma lição que tive na infância, dada pela escola, plantei um rabanete, íamos lá na hortinha regar, ver crescer, tirar matinho, demorou tanto para eu ter um raquítico rabanetinho na mão, comi com imensa reverência, e, mesmo não tendo gostado nada daquele sabor, não tive coragem de menosprezá-lo e simplesmente descartar.

Hoje em dia, tudo tem que ser prazer total e imediato. Estudantes não estudam, pois é “chato”. Intelectuais não lêem mais como antigamente, pois dá muito trabalho. O povo prefere políticas paternalistas a empregos. Pessoas preferem ganhar a vida passando por cima dos outros, fazendo falcatruas. Todo mundo só quer ganhar!

Nas aulas, fico boba com a total incapacidade de um aluno de fazer coisas propostas que ele não está com vontade, os alunos tem que escolher TUDO: o que vão tocar, o que vão estudar, qual a atividade que vão fazer, não aceitam em ABSOLUTO qualquer não. É claro para mim que algumas crianças com quem convivo JAMAIS recebem qualquer não como resposta. Eles são líderes. São reis. São deuses. Os pais e professores são escravos ou empregados. Não há qualquer respeito (claro que não são todos, mas a quantidade é assustadora).

Essas crianças vão reclamar ainda mais do que eu, na vida adulta, creio. Essas crianças não vão saber nem querer trabalhar, e acho que em vinte anos vai ser facílimo achar emprego, pois qualquer um que saiba que o mundo não é só prazer imediato vai ter capacidade extra para conseguir qualquer coisa.

É o avesso da geração dos meus pais e sogros, que foi criada para achar que só tinha que trabalhar e sofrer, e que ter prazer era coisa de puta, de vadio, de esnobe, era pecado, coisa proibida e muito feia! Eu gostaria de sido criada com mais equilíbrio e ter a capacidade de ajudar a criar uma geração de pessoas mais equilibradas, que suportem esperar, se esforçar, experimentar e trabalhar sem sofrer, mas, acredito mesmo que isso está muito difícil.

Nesse tempo evitando reclamar, vi que o problema não é reclamar. O problema é estar sempre sofrendo. Sempre evitando, sempre querendo a auto indulgência, sempre querendo ser vítima, até para mim mesma. Todos têm, talvez, aqui no Brasil, um pouco desse lado Jeca Tatu, Macunaíma, eu sempre achei isso uma vergonha! Meu lado Macunaíma me faz sofrer e é para mim uma vergonha! Percebi, para ser sincera, que reclamar é mostrar preguiça, na maior parte das vezes, e minha mãe dizia que ter preguiça era vergonhoso (e ela estava certa!).

Ter preguiça numa manhã de sábado ou de domingo em que não se tem NENHUM compromisso pode ser algo lindo e louvável, mas, acredite, quase toda reclamação interna que temos é uma pequena incapacidade de resolver algo, de receber um não, de não aceitar os outros, a vida como ela é, ou uma preguiça gratuita, mesmo, que só nos faz sofrer.

Poucas reclamações são verdadeiramente úteis para que se tente mudar algo, acho eu. Quero buscar esse equilíbrio de não ter mais preguiças pequenas de coisas pequenas, ser mais aberta a fazer e experimentar, a valorizar coisas diferentes.

Também algumas religiões falam que o desejo é que causa o sofrimento. Pensamos na nossa interpretação do que é o passado e nas nossas projeções do futuro (que jamais acontecem como foram imaginadas), então acabamos perdendo o foco do momento presente. Se estivermos no momento presente, verdadeiramente, é difícil sofrer tanto. Quase nunca, no dia a dia, temos problemas verdadeiramente impossíveis de se resolver, como doenças ou mortes. Somos muito exigentes, como crianças birrentas e mimadinhas. Mesmo eu não tendo sido mimadinha, sofro com meu lado mimadinho, e é isso que estou trabalhando para mudar.

Dar passagem no trânsito quando alguém pede, sem nem sonhar em bufar, dar um sorriso para alguma criancinha desconhecida, ser alegre e sorridente com colegas de trabalho de TODOS os tipos, desde os caras do pedágio, faxineiros, porteiros, colegas, a moça do café, etc, etc, etc, sempre foi para mim questão de honra. Mas agora estou focada em despoluir o mundo das minhas reclamações vazias, em melhorar o humor do mundo mudando somente o meu humor, em me dispor mais para as coisas, em ser menos preguiçosa e ter mais prazer em fazer, em dar, em vez de querer somente receber. “É dando que se recebe” é uma frase das mais sábias já pronunciadas, mas a idéia é não ficar esperando receber coisa alguma. Já temos TUDO, acredite.

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2 Respostas para “Ja’ temos TUDO

  1. Clodoaldo Leite Junior

    Pois é, Mery, você diz coisas muito pertinentes. Domingo passado vi o Café Filosófico com o psicólogo Ives de la Taille. Ele bem disse que vivemos na geração da informação, que nada mais é do que pedaços espalhados que só o conhecimento pode dar sentido. Ele disse uma coisa interessante também sobre a escola, que ela oferece as respostas mas não mais as perguntas… Vou citar seu blog no meu trabalho da faculdade, espero que não se importe. Um grande abraço

  2. Realmente, temos tudo. Só não possuímos aquilo que nos possui.
    E quando temos algo de que estimamos demais, criamos também o pavor desepero da perda, mesmo que simplesmente imaginada.
    Veja o meu caso, por exemplo: temos conversado tanto sobre música, educação, violoncelo, mas bastou chegarem as férias escolares e você, merecidamente dar uma sumidinha, e eu já estou com saudade. Encaminho a propósito, um vídeo do meu amigo Cláudio Carneiro, gênio, numa performance impagável no cirque du soleil, interpretando “Ne me qui te pas”. Pode? http://www.youtube.com/watch?v=uSgViEzhieU

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