Votos de não-reclamação (a “palavra correta”)

Estou lendo um livro que recomendo a todos os neuróticos de plantão, como eu “era”, até semana passada. O livro, pela cara e pelo jeito, somente parecia mais um dos livros de autoajuda que já me ajudaram um pouco, várias vezes na vida, nem que fosse para mudar para melhor apenas uma mísera atitude em relação a alguma coisa da vida.

Eu estava em crise profunda no fim de semana retrasado. Na terça-feira decidi (e estou cumprindo) que ia procurar TODO tipo de ajuda, inclusive voltar à terapia, a fazer yoga, a praticar Sahaja Yoga novamente (um tipo de meditação), que ia procurar de novo um fitoterápico que já tomei algum tempo para TPM e que funcionou (mas que parei de comprar porque era caro), que ia voltar a fazer exercício pelo menos três vezes por semana, evitar novamente beber ou comer em excesso, tentar dormir mais e mais cedo, enfim, fazer o que eu devia estar fazendo há muito tempo para estabelecer novamente a autoestima, a saúde e deixar os que estão à minha volta mais felizes, e não doidos porque eu estou doida.

Bem, entrei num posto de gasolina antes de pegar a dutra, porque estava morrendo de sede e PRECISAVA de água, e vi, na prateleira de livros, esse livrinho: “Pare de reclamar e concentre-se nas coisas boas – Encare o desafio de passar 21 dias sem se queixar e sem falar mal dos outros”, de Will Bowen.

Peguei o livro, li a orelha, vi o preço, R$ 19,90, nem hesitei, minha água acabou custando 21,40. Mas parecia exatamente o que estava precisando. Meu marido andou reclamando que eu reclamo muito, e ele, como sempre, tem razão. Eu só não sabia QUANTA RAZÃO ele tinha!!!

Entrei no meu blog (este que vocês estão lendo) para reler coisas, e vi como andei reclamando, de tudo!!!

Fiquei envergonhada. Estou na metade do livro, mas em treinamento há exatamente uma semana agora, eu estou fazendo um treinamento para parar de ficar reclamando de tudo.

Uma coisa é reclamar (pedir) para alguém mudar alguma coisa, objetivamente. Tudo tem a ver com o teor da emoção envolvida na reclamação. Se o metrô atrasar e eu constatar “O metrô atrasou”, calmamente, sem peso na alma, no coração, nos poros, sem sofrer, sem achar que vou morrer ou que isso é só um detalhe do complô mundial e divino para me ferir e me fazer ficar louca de chateação, se eu só constatar, não constitui uma reclamação. Se eu sofrer, ou seja, me LAMURIAR, é uma reclamação.

Então, funciona assim: você precisa prestar atenção no que diz (primeiro, um dia chegaremos no que pensamos também, mas a fala também cria estados de espírito e cria sensações, logo, pensamentos. Primeiro alterar a fala, um dia, o pensar, espero).

Só prestar atenção não é suficiente. Você precisa ter um objeto, que vira uma “ferramenta de monitoramento”, para tornar o ato de perceber sua fala reclamona mais objetivo, mais óbvio e até mais ridículo (“Oh céus, oh vida, oh azar”… – eu descobri que eu SOU a Hiena risonha dos desenhos!!!). Pode ser uma pulseira que vai mudar de braço a cada vez que percebermos que reclamamos, ou uma pedrinha no bolso, ou uma moeda, ou um anel que vai trocar de dedo ou mão, etc.

Escolhi usar uma das pulseirinhas que já costumo usar, mas somente com essa finalidade. Cada vez que eu reclamar, tenho que mudar de braço. Bem, no primeiro dia que comecei o processo de treinamento, fiquei a manhã toda SOZINHA em casa, sem falar com ninguém, e mudei a pulseira de braço cerca de 45 vezes até o fim do dia. Percebi que 98% do que eu estava falando era SÓ reclamação. Do tipo sofrida, mesmo, lamúria.

Segundo dia, acho que também mudei a pulseira o mesmo tanto de vezes, CHOCADA com minha natureza resmungona! Chocada! No terceiro dia, arrebentei a pulseira, arranjei outra, mudei menos vezes. Ontem, não cheguei a mudar 25 vezes. Estou diminuindo.

O incrível é que tenho me sentido mais feliz de encarar os problemas sem me queixar, de aceitar mais a vida como ela é. A idéia do livro é simples e genial, como tudo que é genial. Aceitar as coisas que não posso mudar, e tentar mudar o que posso mudar (mamãe já falava, vovó já falava, o Dalai Lama já falava, Jesus já falava, a Monja Coen já falava, etc, etc… só que eu não quis ouvir DE VERDADE!).

Hoje são quase 11hs da manhã, mudei três vezes. Estou melhorando. O desafio é ficar 21 dias seguidos sem reclamar.  Diz-se que qualquer hábito novo precisa de pelo menos 21 dias seguidos para fazer as mudanças químicas cerebrais para se estabelecer definitivamente.

Falar mal dos outros é reclamar, mas não é um vício que tenho, o Quarteto Nobilis já me ajudou a parar com essa nojeira que é falar mal dos outros, pois lá criamos uma idéia semelhante, o “porquinho”. Cada vez que alguém falasse mal dos outros tinha que por uma moeda, como  multa. Acabamos com esse mal de falar mal lá, e abolimos até o porquinho, que virou só uma idéia.

Se não dá para mudar algo, então não preciso sofrer, se dá, o que posso fazer? Existem maneiras realmente pobres de espírito de viver a vida, e uma delas é RECLAMAR.

O livro, apesar de ser de autoajuda, é muito bom. Além disso, o autor tem um capítulo que trata dos benefícios que achamos que recebemos ao reclamarmos, esse capítulo eu achei mais interessante ainda.

Essa idéia do autor virou um movimento mundial por um mundo sem reclamações, tem até site (www.acomplaintfreeworld.org), e eles vendem livros, e as pulseiras de monitoramento a preços bem módicos, só simbolicamente, mesmo, US$ 10,00, vem com dez pulseiras. Americano é assim, ganha dinheiro com tudo, mas até que é barato. Já houve 6 milhões de pedidos de pulseiras de mais de 100 países, e a idéia do movimento existe desde 2006. Será que daria MESMO para mudar o mundo assim?

O que importa é que a idéia do livro tem me feito muito bem. Vou conseguir ficar os 21 dias sem reclamar de NADA, eu sei que vou, mas parece que vai demorar. O importante é ser mais feliz, e persistente, só isso.

E já estou sentindo mudanças no meu estado normal de espírito, mais do que se eu me afundasse em chocolate, chorasse até derreter, ou se gastasse dinheiro em roupas, ou se eu enchesse a cara: efeitos de vergonha pelas minhas fraquezas e uma força interior que eu já tenho despontando, aparecendo. Concentrar-me no que quero, e não no que não quero. Uma das frases do livro, de que mais gostei foi: “Se estudar a vida de pessoas bem-sucedidas, descobrirá que frequentemente o sucesso delas aconteceu por causa dos obstáculos que enfrentaram e não apesar deles. Eles aceitaram os problemas e usaram  essas experiências para crescer”.

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3 Respostas para “Votos de não-reclamação (a “palavra correta”)

  1. é isso aí Meryelle!!!
    este foi o primeiro post seu que eu li e…
    uau!
    não sei o que se passava antes e isto não importa. Importa é essa mudança que parece tomar força agora, importante são as constatações que estás fazendo, tão palpáveis e instrinsecamente realizadoras!

    clap! clap! clap!

    a vida é curta e vivê-la lendo estas tuas últimas palavras é uma delícia!

    energia pua!

    e isso vira música!!!

    muito amor,
    safi

    • Ei, Camila!!! Obrigada!!! E essa história de se chamar de Safi? E’ pra eu te chamar assim tambem? E Natal? Aproveitando? Obrigada por ler e por comentar!!!

  2. RECLAME…era antigamente o nome que tinha a propaganda…
    e, uma coisinha, que um homem sábio e “jovem como o Peter Pan porque faz tai-chi-chuan”, o Jorge Mautner um dia falou, “todo livro é de auto-ajuda.” Então, se mais ajuda for, não pensar em ser de auto-ajuda, como Machado de Assis, Friederich Niezstche, Manuel Bandeira, A Bíblia Sagrada, Nelson Rodrigues, Stefan Zweig, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Jorge de Lima, Antony Burguess, D H. Lawrence, Charles Dickens, Oswald de Andrade, Samuel Beckett, Ésquilo… Há um sentimento de humildade quando olhamos de frente para um grande autor de que gostamos. E então, se lembramos que cada qual também nasceu
    – pelado, sem dente e careca???
    Outra coisinha: e o muro das lamentações? Meryelle, só para ficar nos opostos, pensei, e se pudéssemos criar um muro das lamentações para colocar tudo ali, como é que ele seria?

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