Pequenas coisas que eu odeio e coisas que eu adoro!

(Este texto foi escrito e publicado neste blog, no dia 19 de fev. de 2010, mas, como gosto muito mais dele do que os posteriores, republiquei, para ficar mais visível aos novos leitores. Obrigada!)

Inspirada nas famosas e maravilhosas tirinhas do cartunista Angeli, da série: “Duas coisas que eu odeio e uma que eu adoro”, resolvi fazer comentários pessoais sobre essas pequenas coisas do cotidiano. Eu realmente sou chegada em pequeniníssimos prazeres do cotidiano. Fiquei absolutamente feliz (e identificada) quando li no explêndido livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, que seu personagem adorava enfiar o pé na terra, ou em folhas secas. Eu AMO mexer na terra e na areia da praia.

E em um de meus filmes preferidos, “O fantástico destino de Amélie Poulin” , a personagem adora pequenos prazeres, como enfiar a mão em sacos de grãos no mercado. Essas coisinhas deliciosas. Estávamos, eu e meu marido, assintindo a um SBT Repórter, sobre animais da Índia, e mostraram macacos que tem como hobbie lamber pedras. Sim, lamber pedras. E meu marido deu uma gargalhada enorme, deliciosa (que eu ADORO).

Esse pequeno incidente da gargalhada sobre o hábito de “lamber pedras” me fez pensar que os pequenos prazeres são hábitos culturais que adquirimos, muitas vezes, claro, não todas, fazendo coisas que outras pessoas gostam de fazer, ou que outros fazem. Tentamos, e, de repente, vemos que gostamos, e pronto. Ou não. Então, pronto. Por isso eu gosto de tomates e não gosto de jiló. Experimentei e decidi.

O pior é quando fazemos sem gostar! (Por isso, comi carne quase a vida toda). Só porque o automatismo de “todo o mundo faz”, nos faz fazer, ou não fazer. Na escola, TODO O MUNDO dizia que não gostava de ler. Aí, eu também dizia. Até meu irmão me incentivar e eu perceber que eu AMAVA! Por isso, também, eu amo muito meu irmão, pois ele me deu um dos meus maiores prazeres.

Por exemplo, se todos tivessem o hábito de olhar estrelas (ou lamber pedras!), em vez de ver televisão, isso iria virar prazer de muitos? De todos ou quase todos?

Acredito, firmemente, que eu e quase todos, salvo raríssimas exceções de grandes cérebros, líderes, gênios, fazem exatamente o que todos fazem e gostam de fazer, como uma grande boiada.

A moda é isso, o marketing só lida com isso (afinal de contas, sem a propaganda, quem seria capaz de acreditar que a Xuxa, milionária que é, vai usar hidratante Monange no seu rostinho, com aquele cheiro super forte e aquela textura super oleosa? Quem já usou Clarins, Lancôme e outros do gênero, tem certeza que ela não usaria nem para fazer o comercial!).

Eu, por exemplo, sempre me questionei do porquê de ir à missa se o padre era tão sem cultura, com discurso tão vazio e decoradinho, e as pessoas ouvindo sobre como Deus amava os pobres, indo à missa com a sua melhor roupa, escova, maquiagem e correntinhas de ouro, e, na hora que eu mais gostava e temia, a dos cumprimentos, hora de desejar “a paz de Cristo”, todos se olhando e se medindo da cabeça aos pés, sem pensar no que estavam desejando, mas sim prestando atenção em como seu semelhante estava vestido (mal ou bem? De acordo com as regras da comunidade, é claro). E eu olhando pra fora, aquele domingão de sol, pensando: eu não poderia estar numa piscina? Lendo gibis, descalça, sentada no chão? Andando de bicicleta? Poderia, mas, e a boiada? Por isso, depois de muitos anos, decidi ser Budista (achei no que eu realmente acreditava).

A mesma coisa digo em relação a ter filhos, ou até mesmo bichos de estimação. Tenho certeza de que muita gente não tem o menor talento (afinal, trabalhei dos 12 até os 30 anos, ajudando meu pai, em uma loja de brinquedos, e vi cada coisa!). Eu SEI que muita gente não tinha que ter filhos. Mas a boiada exige. Tem gente que tem cachorros, um dia enjoa e larga. Ou não cuida, ou bate. Por que diabos tem?

Bom, não vim aqui pra falar da minha idéia de boiada, mas falo só pra defender que deveríamos SIM cultivar prazeres de que nós gostamos, independentemente da boiada. Um casal de amigos, que mora na Serra da Cantareira como nós, estava nos falando que quando se casaram e mudaram para cá, ficaram 5 anos sem televisão. Morri de inveja. Meu avô já dizia que a TV acabou com a família, as conversas, as histórias, ouvir música junto, no rádio, até com as orações (e olha que eu nem sou chegada em orações). Morri de inveja, pois esse amigo falou que foi a melhor época da vida deles, eles conversavam, riam, tinham silêncio, dormiam cedo, leram pra caramba, namoraram muito, e provavelmente, também, viram muitas estrelas (coisa que eu adoro, e apesar de tê-las às pencas aqui em casa, só me lembro de olhá-las quando chego tarde em casa, de ensaios e concertos, ou, umas 6 vezes por ano em que eu penso: deixe-me ir lá fora para olhar as estrelas. E isso porque eu a-do-ro. A mesma coisa acontece com nuvens, que também adoro.

Outro dia reparei, no metrô: 95% das pessoas em minha volta estavam de calça jeans. Eu simplesmente ODEIO calça jeans. Se mi vir com uma, saiba: usei porque estava totalmente sem criatividade, e ela é fácil de combinar, já que todo o mundo usa com qualquer coisa. Fiquei pensando: essa merda me aperta, nunca acho uma do meu tamanho (pernas compridas, quadril pequeno e coxa grossa), desbota, me deixa com cara de mal vestida (eu acho isso, sei que muita gente realmente adora jeans, outros usam apenas pois todo o mundo usa – a boiada), é difícil de secar, se demorar fica com cheiro de cachorro molhado, enfim, odeio. Por que eu uso, então? Resolvi ficar com duas, somente, uma nova e uma velha, para os dias de falta de criatividade, mesmo. Ou os dias que vou dar aula pras criancinhas e sei que vou ter que sentar no chão com elas. Só.

Adoro tantas pequenas coisas! Cheirinho de café, cheiro de limão (eu tenho um lance forte com cheiros, pois, ao contrário do que eu precisava, ter ouvido absoluto, tenho “nariz absoluto”. Juro, sei que o arroz está sem sal ou com muito sal só pelo cheiro. Em ônibus vocês nem imaginam os cheiros que sou capaz de perceber… tinha que ter sido perfumista ou enóloga, mas agora é tarde!). Adoro sapatos de salto alto, adoro batom mega vermelho, mesmo, adoro colares de pérolas. Adoro chinelos Ipanema e roupas bem largas. Adoro a textura dos cabelos do meu marido, adoro brisa no rosto, adoro olhar o mar, adoro o acorde de Sol com sétima, adoro o “Ré-fá-lá” que inicia a Segunda Suíte de Bach para cello solo – é somente um arpejo de Ré menor, mas a-do-ro. Adoro ver a Jacqueline Du Pré tocando, adoro bater claras em neve, adoro mexer em horta, adoro fazer cafuné em cachorro, cheiro de grama cortada, cheiro da Serra depois da chuva, adoro dançar ou cantar, adoro abraçar, adoro beijo na boca, beijo “daqueles” mesmo, adoro. Tantas coisas!

Tem gente, iogues, e praticantes de meditação, por exemplo, que dizem que adquirimos pequenas percepções da nossa vida percebendo nossa respiração. Também adoro isso. Mas, por outro lado, vi num filme que a sensação de viver, realmente, está naqueles momentos em que não conseguimos respirar, de tão emocionados, ou extasiados. Também adorei isso.

Fiquei pensando muito em uma noção que ouvi uma vez, de que amamos, e vivemos com alguém para termos noção de que existimos. Somos importantes para alguém. Como se esse alguém fosse uma testemunha da nossa vida. É a pessoa mais importante da nossa vida porque nos dá importância, vive compartilhando essas pequenas coisas, boas e ruins. Talvez por isso o Orkut, a Internet e o Facebook façam tanto sucesso. De repente, muitas pessoas podem testemunhar nossa vida, nossos feitos, viagens, fotos, etc.

Mas, ontem, vi na TV (nem tudo na TV é ruim, é claro), um homem, que vive em Bristol, Inglaterra, que largou tudo que tinha, e pelo jeito era bastante, para viver sozinho e praticamente sem dinheiro. Eu amo essas pessoas: que assumem as coisas que odeiam e que adoram verdadeiramente, que fazem diferente e fazem diferença. Meu pai sempre dizia, em tom de brincadeira (mas, como toda brincadeira tem fundo de verdade…), que seu sonho era ser andante. É a mesma idéia de libertação da boiada.

É por essas e outras que eu tenho como bandeira máxima, ao dar aulas, que a pessoa TEM que ser ela mesma, tocando, tem que criar e desenvolver seu próprio som, sua maneira de interpretar, sua concepção. Vejo coisas lindas acontecerem na minha frente quando um aluno com três anos de cello faz a SUA interpretação, quando o convenço de que, se ele escuta uma gravação e não gosta (rápido demais, articulado demais, devagar demais, som estridente demais, etc), ele já tem a sua concepção. Essa é uma das coisas que mais adoro: fazer os alunos serem eles mesmos, por breves instantes. É LINDO. É libertador, para mim e para eles. Por isso amo tanto dar aulas.

Mas ODEIO quem acha que existe TALENTO, e uns tem e outros não. Rostropovich, nas nossas conversas, mostrou que qualquer um pode ser incrível. Ele não acreditava nessa merda inventada, chamada talento. Eu também não, ele me convenceu disso.

Ando em crise faz tempo, como já falei em antigo post, por isso, hoje vou falar pouco do que odeio, pois eu odeio focar no que eu odeio, eu adoro focar no que eu adoro. É claro!

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4 Respostas para “Pequenas coisas que eu odeio e coisas que eu adoro!

  1. Oi, Meryelle,

    Não foi dos menores o prazer de ver sua face no meu book (já usei essa piada antes, mas eu a-do-ro…) Quanto a lamber pedras, não sei… Vai ter que ser a pedra certa. Uma que valha a pena, sabe.
    Tenho cultivado os prazeres da casa. Agora mesmo fiz um macarrão com pimentões e uma sardinha polêmica, com alho, limão e mel. Eu gostei.
    Não resisti ao título do seu blog e deixei-me sequestrar pelo texto. Foi um prazer testemunhá-lo. [“testemunhá-lo” não é muito eufônico, né?…]
    Já marquei o quadradinho para ser avisado quando você postar de novo. Tenho certeza que vou gostar de novo.

    Saudações violonsambistas!

  2. Vc adora bater clara em neve!?! Viva as diferenças! rs
    Eu tb adorei Amelie…
    Amei ler seu texto.
    Muitos beijos.

  3. essa história de pequenos prazeres é realmente muito curiosa, tenho um amigo que adora almondega, não o prato, a palavra, a sonoridade. Lógico que ele não ficava falando almondega o dia inteiro, mas toda vez que passávamos em frente a um jardim e ele olhava para os arbustos podados em forma de pequenas “almondegas” verdes, exibia um sorriso de satisfação.

    seu blog é muito bom!! parabéns!!
    beijo

    • Querido Gabriel, muito obrigada pelo excelente comentário, adorei!
      Também gostei demais do seu blog!!! Um grande abraço e obrigada por prestigiar meus textos!

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