TUDO MUITO!

Eu sou uma pessoa meio maluca, eu sei. Mas em um nível não perigoso para sociedade, apenas para mim, mesmo, felizmente.

Meus amigos e parentes realmente próximos sabem que sou meio doidinha, mas mesmo assim não chega a ser Transtorno Bipolar ou alguma anomalia à qual se dê ao trabalho de atribuir algum nome chique (espero!).

A minha patologia é que eu não gosto de nada “um pouquinho”. Eu gosto de tudo “MUITO”! Eu quero tudo MUITO, eu acho tudo MUITO, eu desejo tudo MUITO, eu sofro tudo MUITO, eu amo tudo MUITO, se é que dá para me entender.

Uns diriam que uma pessoa assim é insaciável, outros que é megalomaníaca, outras diriam “intensa”, outras “carente”, e poderíamos ficar me rotulando aqui até amanhã, mas eu, como o Salvador Dalí, não gosto de rótulos (apesar de botar etiquetas com nominhos em tudo, ixe!). Não me esqueço de uma obra do Dalí, na exposição do MASP, era um enorme móvel (mesmo, MUITO!) com inúmeras gavetinhas, todas com rótulo, criticando o fato de o ser humano ter mania de rotular e nomear tudo, dividir em categorias, etc. Bem, pelo menos foi como eu entendi a obra dele naquela ocasião.

Meu marido, homem brilhante, me deu (e depois nos deu) essa definição (rótulo?) enigmática e genial: eu sou “tudo muito”. Caríssimo amor, nós somos. Ainda bem, já pensou se eu fosse “tudo muito”e ele “tudo pouco”? Nunca iríamos combinar!

Por isso eu gosto de tudo MUITO! De dançar muito, de cantar muito, de ler muito, de dormir muito, de tocar muito, de ouvir música muito, chorar muito, rir muito, etc.

Por isso, aqueles salgadinhos e docinhos pequenos e em grandes quantidades são uma perdição para mim: pipocas, biscoitos de polvilho (aqui, na simplicidade bonitinha do “interior”, os chamados “totós”), suspirinhos, confeitos, os “podritos” de supermercado, batatinhas e, quando eu era criança, aquelas balinhas coloridas, me exerciam um facínio incrível – por sorte minha mãe não me deixava comprar, ou já estaria sem dentes. Bombons eram um pecado mortal, pois eu só podia comer dois, estourando três, e eu queria TUDO MUITO, a caixa toda!

Por isso eu brinco que nasci para ser obesa. Não sou, porque me seguro. MUITO. Li uma vez que “quanto maior o freio, maior é a potência do motor”. Por isso sou MUITO reprimidinha…

Sempre adorei também coisinhas pequenas tipo botão, pedrinhas, lantejoulas, strass, grãos em geral (feijão, etc), pois dá para manusear em grande quantidade. Minha mãe me colocava para escolher arroz ou feijão, e eu adorava aquela quantidade enorme de coisas. Adoro estrelas, pois jamais daria para contar. Adoro o mar, pois é infinito em movimentos e variações. Adoro areia. É incrível algo ser impossível de contar. Ah, e sabe aquele desenho que tem o mesmo desenho dentro, e tem o mesmo desenho dentro, que tem o mesmo desenho dentro, ad infinitum (não sei como se chama isso)… adoro! TUDO MUITO! Caleidoscópio também é muito legal para mim, pois é uma brincadeira sem fim.

Basta ver que minha dissertação de Mestrado teve 220 páginas. Não sei falar pouco. Falo MUITO (meus aluninhos sabem MUITO bem).

É…acho que talvez eu seja mesmo meio insaciável, mas, vamos levando.

Eu não consigo estudar uma escalinha, por exemplo, se começo, vai uma hora, uma hora e meia de técnica, repetições, trinados, arpegios, escalas menores relativas, etc. É super difícil para mim dar uma horinha miserável de aula para cada aluno, eu já quero ensinar TUDO o que sei, eles sabem que é dificil sair da minha sala (ou entrar) exatamente na hora… mas eu tento, estou conseguindo cada vez mais, mas acho uma mixaria!

Dar abraços e beijinhos (e carinhos sem ter fim…) também: não pode ser um só, tem que ser MUITOS (eu não fico regulando mixaria, também não gosto que fiquem comigo).

Isso pode ter a ver com a natureza da minha descendência européia, camponesa e pósguerra, que, depois de ter passado por muito perrengue financeiro, acabou querendo dar a maior fartura possível de comida aos filhos, e daí minha mãe herdou os “pedacinhos” gigantescos de bolos e tortas, que são um almoço, e ela também compra maçãs e ovos tão grandes que não dá para acreditar… juro que fico com MUITA pena das pobres galinhas!

Pode ter vindo de eu ter trabalhado em loja de brinquedos, onde havia fartura de bugingangas, zilhões de caixinhas e pacotinhos para embrulhar, etc… será?

Eu não consigo também beber uma tacinha de vinho, por isso, nem vou me dar ao luxo de fumar, pois tenho um grande problema de atração por qualquer coisa que vicie, eu gosto de tudo muuuuuito! Então, bebida é um problema, pois vinho é bom pra caramba, caipirinha, etc, então, sempre que eu tomo, tenho que ficar me podando, senão viraria uma alcoólatra “das brabas”, certamente. Os outros vicios, evito a todo custo.

Já vi muitas pessoas falarem que são facilmente viciáveis, acho até que é um problema generalizado, pois, se não fosse assim, a mídia não estaria nos empurrando o tempo todo para querer ter tudo, comprar tudo, beber tudo, comer tudo, emagrecer tudo, tudo , tudo, tudo MUITO! É um verdadeiro complô, e funciona assim:

Primeiro você tem que comprar muito, comer, fumar e beber muito, gastar muito para trocar todo o quarda roupa, gastar muito na academia para perder tudo, gastar tudo em remédios depois, para emagrecer, para ficar menos ansioso, para dormir, para sair da depressão, etc. O brasileiro adora MUITO comprar remédios, dessa eu me livrei, eu não tenho essa mania (essa loucura, eu diria). Entro na farmácia para ver um xampu novo, só para ler o rótulo, já tem algum funcionário me olhando e me oferecendo uma cestinha, pois eu tenho que “fazer compras” na farmácia. Isso sim é que é loucura. Outro dia comento mais sobre isso, mas a síndrome do “coitadinho” brasileiro, essa mentalidade generalizada, o faz precisar MUITO de remédios. Dessa eu me livrei, ufa, essa loucura não tenho. Basta saber que o Brasil é o país que mais tem farmácias por habitante no mundo, e, pelo que eu constato por aí, deve ser o que tem menos livrarias por habitante também. Mas, me coloque numa livraria ou loja de CDs (sim, ainda sou do tempo do CD, ainda compro, eu sei, sou MUITO ultrapassada também), pra ver. Aí sim eu deveria ser seguida por um funcionário que me oferecesse uma cestinha. Da argentina eu trouxe, de verdade, uma pilha de livros (já li três) e alguns Cds, não trouxe mais porque ia gastar uma fortuna, e meus familiares iam achar ridículo. Não comprei nenhuma pecinha de roupa ou sapato, para vocês verem o quanto AMO livros e cds. MUITO. Apesar de que sapatos… também adoro, mas infelizmente os bons são caros. E eu sou uma reles musicista.

Brincadeiras à parte, acho MUITO importante para o artista viver. Há muito tempo, ouvi uma história de um violinista do Municipal (aquelas histórias que não sabemos se é verdade), de muito tempo atrás, que ficou louco de tanto estudar, e o professor que me contou isso falou: “Artista tem também que viver, amar, rir, chorar, ficar com raiva, pra ter o que transmitir em sua música, senão fica louco”. Essa história me convenceu, mas talvez tenha convencido DEMAIS. MUITO. Mas acho que, realmente, os solistas e artistas bons mesmo tem alma boa, bondade de verdade, além de serem pessoas que vivem intensamente e que apreciam MUITO a vida, inclusive os sofrimentos. Apreciar sofrimentos? Você vai se perguntar… acho sim que devemos também dar valor aos sofrimentos e vivê-los, para a alegria vir depois com maior convicção.

Essa loucura de querer TUDO MUITO tem suas vantagens, claro. Estudar técnica, por exemplo. Viver, tudo MUITO. Se apaixonar MUITO. Amar alguém, por exemplo, nunca é demais – se não chegar a sufocar a pessoa, obviamente. Gostar de música também, nunca é demais. Fazer exercícios também, se não chegar no DEMAIS, está bom.

É,… talvez a solução para o meu (o seu também?) problema seja não deixar nunca o MUITO chegar no DEMAIS.

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3 Respostas para “TUDO MUITO!

  1. Mery
    que graça tem se não for MUITO?!

  2. Meryelle
    Adorei MUITO ler o seu blog.
    Acho que sou meio assim MUITO como você.
    Bjs.

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