Quanto mais educado, mais sofre!

Hoje, num “tereteté” com minha linda amiga D. (não vou dizer quem é exatamente, para ser educada), ela soltou um comentário e eu, que associo as coisas em questão de milésimos de segundo, pensei: “quanto mais educada a pessoa, mais ela sofre”.

A D. é uma pessoa de educação ímpar (a família toda dela é assim, mãe, irmã, cunhado, é uma beleza, coisa que já nem se vê mais por aí, pessoas a quem você deixaria a chave da sua casa ou do seu carro na mão deles, sem problemas – sou uma pessoa de sorte de ter essa amiga; meus vizinhos também são assim, coisa muito rara – sou mesmo uma pessoa de sorte!) e, por causa dessa educação toda, acho que, apesar de não parecer, por ela ser MUITO educada, ela deve sofrer MUITO.

Eu também, vou ser agora muito metida, eu sou muito educada. Meu irmão também. Fomos rigorosamente treinados por minha mãe, e meu pai, e por meus avós e bisavós, e tataravós, a JAMAIS ofender, responder, etc.

Se você me ofender, em geral ficarei tremendamente chocada, mas não vou responder, vou ficar MESES pensando o que eu devia ter respondido na lata, mas não vou responder. E vou me arrepender. Depois não vou, depois vou, depois não vou, etc, etc.

Tive uma conversa longa outro dia com meu irmão, e, apesar de não termos falado sobre isso, especificamente, falamos apenas disso, em como as pessoas educadas sofrem.

Os mal educados são grossos e insensíveis, logo não se incomodam muito com nada. Nós é que ficamos agüentando tudo o que acontece por aí, sem gritar, xingar, nem espernear. Por exemplo, aquelas mulheres gordas com sacolas enormes, que vocês já sabem que me perseguem e passam por cima de mim e de meu discreto cello, atropelando TUDO, sem ver nada nem ninguém, e, geralmente, rindo muito.

Ah, também tem as velhas (sim, as idosas, OK, às vezes não sou tão educada assim) falando mal dos outros BEM ALTO, quando queríamos é, por exemplo, ver o pôr do sol em Campos do Jordão, no mais absoluto silêncio que aquela obra de Deus merecia. Mas a velha (ou as velhas) está lá, quase BERRANDO para a pessoa que está DO LADO DELA (!) que o Murilo é assim, e a Rose ainda ficou do lado dele! Aí eu fico infelizmente sabendo da vida INTEIRA do Murilo (quem?), que ele acorda tarde, que almoça sozinho de domingo, e fica vendo futebol, e é uma pessoa TÃO anti social, etc, etc, etc. E o sol caindo, a paisagem linda, absolutamente incrível, mas aquela senhora continua com RAIVA do marido dela, que, desculpe, ELA escolheu. Ou fui eu?!?  Escolhemos mudar de lugar, e aí sabe o que acontece? Ela sente que perdeu subitamente a platéia, e vem caminhando lentamente até ficar novamente a dois metros de nós, e continua BERRANDO sua raiva ao SEU marido, que está em OUTRA cidade, vendo seu futebol. Sem incomodar, de verdade, ninguém, muito educado.

Ponho uns pedaços de papel no meu ouvido, numa tentativa DESESPERADA de ter meu momento de contemplação do pôr do sol, mas aí chega um ônibus de senhoras odiosas que riem alto (gargalham), e posam para fotos, fotos essas que vão ficar observando em casa e das quais vão ficar falando MESES, falando mal das suas colegas, dos penteados, da gordura delas, elas que agora riem e posam juntas. Eu tenho RAIVA desse tipo de reunião de “amigas”. Mas ninguém suspeitava disso, pois sou muito educada.

Cada vez que eu estudo com metrônomo e fico muito mais educada na pulsação, mais eu sofro. Quanto mais eu sei, mais eu sofro, quanto mais estudo com afinador, mais sofro. Ou seja, quanto mais rezo, mais assombração me aparece! Quanto mais leio, mais tenho raiva dos textos que leio, dos programas de concerto, dos colegas, dos comentários dos maestros, das interpretações dos maestros. Quanto mais lemos sobre música barroca, mais vibrato os maestros pedem, quanto mais lemos sobre o estilo clássico, mais pesados e “na corda” temos que tocar os Haydns e Mozarts da vida (ok, fica tudo parecendo a “Water Music” do Haendel!  Tudo bem, fica bem “lindo”! Argh!!!!!).

Quanto mais eu amo, mais vejo falta de amor e mais raiva eu passo. Quantos mais Saramagos e gênios eu leio, mais erros eu acho por aí e mais raiva eu sinto.

Daí eu tenho CERTEZA que quando educamos nossos filhos, os deixamos mais sensíveis às brutalidades da vida (eu, por exemplo, cada vez que vejo ou ouço o Lula falando, ou as Dilmas e Serras, e etc, eu TAPO OS OUVIDOS, juro, tapo mesmo, ou deixo o rádio do carro MUDO, pois não SUPORTO, verdadeiramente tanta falta de educação e tanta brutalidade).

Vou ver um filme dos brilhantes irmãos Cohen no cinema (que me educaram para gostar e eu gostei), e o idiota atrás de mim fala alto, ou ronca, ou chuta a minha cadeira. Se eu estivesse me “entretendo” no cinema, em vez de me deleitar com a arte, eu estaria, provavelmente, chutando a cadeira da frente e comentando BEM ALTO alguma bobagem que não interessaria a absolutamente ninguém, nem àquela pessoa a quem estava sendo comentado.

Meu marido, homem sábio e sensível ao extremo, a quem admiro LOUCAMENTE, diz que 80% do que é falado nem precisava ser falado, de tão inútil, e diz que quase todas as idéias que ele vê ou lê nem são novidades, nem nada, logo, comentários, quase sempre se tornam redundâncias ou inutilidades, dessa forma, eles rompem o silencio com inutilidades! Uma grosseria!

Uma vez um colega disse uma frase excelente, que acho que era do Fernando Pessoa, que TODO COMENTÁRIO É UMA GROSSERIA. Acredito que é mesmo. Ou pode ser. Então, meu blog é uma super grosseria, e eu sou é MUITO mal educada, e não educada, como me julgo!

Bem, escrevendo, eu posso ser BEM grossa, mas acredite, sou MUITO educada. Quando voltei da Filadélfia, do encontro do Rostropovich, uma “amiga” “brincou” comigo, em frente a muitas pessoas, vendo a minha foto com o Rostropovich, que vestia uma camisa estampada de seda (um momento maravilhoso e muito feliz da minha vida, que ela, sendo amiga, devia ficar tão contente ao ver a realização daquela foto e daquele sonho…): “olha, a Mery viu o Rostropovich de pijama!” e gargalhou. Até aí, tudo bem, um gracejo leve, mas ela completou: “e aí? Ele é bom de cama? Hahahaha!” E todos os bobos em volta riram da minha cara. Eu, chocada, não respondi NADA.

Até hoje eu tenho raiva de não ter respondido algo grosseiro, mas eu sou MUITO educada, e estou a dez anos com raiva desse comentário, querendo ter respondido, mas fui rigorosamente treinada a não responder, e, sem brincadeira, não tinha interesse em saber se o Rostropovich era bom de cama, pois eu, na minha faixa dos 20, tinha atração por homens de, no máximo, a faixa dos 30, não dos 70, e, além disso, ele era um homem casado, eu, muito educada, jamais teria tido essa “fantasia” que minha amiga deve ter tido naquela ocasião. Isso sim, aguentei 10 anos e acho que nem consegui responder de uma maneira mal educada! Mas, de verdade, continuo amiga dela, e nem tenho raiva dela, só desta falta de tato brutal que ela teve naquela ocasião.

Eu sou tão bem educada que tenho dificuldade de escrever sem trema, sem hífen, etc!!!

Eu vejo que essa educação maior, que faz muita falta, é a educação vinda de casa, dos pais, a sensibilidade aos sentimentos dos outros. A sensibilidade que vem da leitura, também, e ainda acho que as pessoas do interior tem muito mais essa educação, especialmente as vindas do campo, e também, pelo que vejo dos amigos, a educação do norte e do nordeste do Brasil. Eles são muito mais cultos do que os paulistanos ou cariocas (pelo menos se eu tomar como exemplo as pessoas que eu conheço).

Fico com pena dos meus enteados, pois eu e meu marido, e também a mãe deles, estamos empenhados na tarefa diária de dar educação e cultura a eles (e todo mundo diz – êeeee!!!!!- que eles são MUITO educados). Tenho pena dos meus alunos, pois eu tenho uma batalha diária para educá-los e sensibilizá-los, mas sei que eles vão sofrer. Por isso, também, tenho tanto medo de ter filhos.

Cada vez que eles souberem que uma repetição musical tem de ser DIFERENTE da primeira vez, eles vão se IRRITAR profundamente com os maestros, por não darem nenhuma idéia musical, nem mesmo para a primeira vez, o que dirá para a repetição, que acaba saindo miseravelmente IGUAL `a primeira vez, no dia do concerto. O que sair, saiu, não é?

Cada vez que eles estudarem com metrônomo eles vão ODIAR seus colegas de orquestra, de quarteto, seus maestros. Cada vez que eles estudarem com afinador, eles vão ODIAR aos outros e a si mesmos, às sopranos solistas e também aos naipes de contraltos, e também ao seu naipe de cellos, CADA VEZ que tocarem um fá sustenido grave, na corda Dó, em QUALQUER orquestra, de QUALQUER nível, e ele soar irremediavelmente impossível de afinar…

Como é duro ser “educado”. Quanto mais educado o ouvido, mais sensível. Quanto mais educada a pessoa, mais sensível. E quanto mais sensível, mais sofre. Eu, por exemplo, se parasse para deixar meus sentimentos aflorarem, só choraria. E, juro, nem estou de TPM, se estivesse, me mataria! Mas, pensando bem, eu jamais me mataria, pois eu JAMAIS ofenderia tão profundamente meus pais, que me educaram direitinho, então, vamos aguentando!

Caladinhos!!!

(Mas sempre podemos escrever! Que parece bem mais educadinho…)

Anúncios

5 Respostas para “Quanto mais educado, mais sofre!

  1. Oi Mê,

    Hoje, ao sair do metrô, resolvi comprar dois pães de queijo na lanchonete perto do trabalho, para o café da tarde.

    Cheguei, havia um cliente já comprando o seu. São muito bons e surpreendentemente baratos. Então aguardei calado. Aí eis que chega uma mulher já batendo papo com o dono da lanchonete, dizendo que está com pressa e que queria dois, para viagem!

    Ter a educação para olhar para o lado e perceber que eu já estava aguardando, de jeito nenhum.

    Por sorte eu disse rápido: Eu também.

    O homem olhou para mim, percebendo que eu já estava lá antes de a mulher chegar. Ela me olhou um pouco espantado. As pessoas às vezes ficam com raiva dos outros quando percebem que foram mal educadas… com ou outros.

    É o homo sapiens, esse bicho tão racional.

    Saí feliz por ter sido, educadamente, incisivo. Pelo menos dessa vez.

    Um beijão!

  2. Ei, Meryelle! Mto bom ler tuas “impressões” sobre “educação”.Logo me veio à mente que quando misturamos “estar educado” que rapidamente “explode” em adestramento com “ser educado” que é um posicionamento de vida ficamos com “raiva” porque é intrinsicamente irritante nos sentirmos adestrados. É uma questão de textura! Abraço grande!

    • Meryelle Maciente

      Zelia, que surpresa te ter como leitora ( e que prazer!). Muito obrigada pelo comentario, sempre inteligente! Abraco grande!

  3. Ih, Mery, a carapuça me serviu! Não sei se a “amiga” do comentário do Rostropovich fui eu, mas parece coisa minha…então, por desencargo de consciência já peço desculpas!
    Tentando ser educadinha também, ainda que tarde… 🙂
    Parabéns pelo blog, eu leio sempre.
    Beijinhos,
    Bia.

    • Meryelle Maciente

      Nao vou dizer que sim, nem que nao, para ser “educada”!… Mas, como ja’ disse, nao guardo raiva, e de qualquer modo, sua leitura ao meu blog e’ uma honra! Um grande abraco!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s