Coisas marcantes da minha vida (que não entendo)…

Toda vez que “faço aninhos” tenho essas crises (dessa vez não foi exatamente crise, nem mesmo inferno astral), esses devaneios filosóficos e existenciais…

Sempre pensei que as coisas mais marcantes da vida fossem apenas as coisas boas. Claro que são, sim, com certeza. Mas as ruins também são. As coisas que moldam nossa maneira de ser, nossas vozes interiores, nossa auto-estima.

Uma coisa que definitivamente me marcou muito, e continua me marcando cada vez que acontece, é andar de avião e observar nossa pequenez. A sensação de pequenez. Isso não é lá uma coisa muito boa. Eu sempre me sinto absolutamente insignificante ao andar de avião e olhar pra baixo, de lá de cima. Sim, cada metro, cada pouquinho que o avião levanta, eu vou vendo como não sou absolutamente ninguém.  Daquela altura toda, os carros e as casas são apenas casinhas e micro carrinhos que depois se tornam quase nada. As pessoinhas que estão dentro daqueles carros e daquelas casinhas e daquelas piscininhas estão tão entretidas, como eu, com as suas vidinhas, e seus problemões, a troco de quê?

Bem, paradoxalmente, eu tenho sempre a certeza de que qualquer pessoa, fazendo o bem, acaba interferindo em todo o meio à sua volta, de pessoas a bichos, de coisas a plantas, e, dessa forma, aquela pequenez vai se somando e vira uma grandeza sem tamanho. É algo maluco, coisas que me marcam e que eu não entendo. Seria eu grande ou minúscula? O que eu faço de bom (reciclagem, incentivo aos alunos, empenho ao tocar, honestidade, ser boadrasta, ser educada com as pessoas, de maestros a faxineiras, de funcionários de pedágio a alunos de outros instrumentos na escola de música), essa pequenez, faria diferença? O meu querido budismo, que por sorte também descobri, diz que sim, e eu, que fui casada por sorte pela Monja Cohen, coisa que também me marcou demais, tenho mais é que acreditar que a bondade, mesmo minúscula, só faz multiplicar em milhões de coisas boas.

Contudo, algumas coisas (boas) que nem vi, também foram muito marcantes: a história que meu pai contou a respeito de eu ter sorrido para ele a primeira vez que o vi. Foi amor à primeira vista sim, mesmo que eu, de verdade, do berçário, nem tenha o visto de verdade. Até hoje continuo sorrindo o tempo todo para ele, mesmo longe, mesmo em outra cidade.

A história poética contada por minha mãe, a de que eu era um bebê absolutamente feliz e tranqüilo. O que os espantou muito, pois meu irmão mais velho era muuuuuuito chorão. Ainda busco essa antiga essência, onde será que ela está?!? Eu era assim, quando era um sábio bebê…

Outro acontecimento que de fato transformou minha vida foi a loucura e o êxtase de desfilar na Gaviões da Fiel, e passar na frente da Bateria estupenda, sempre nota 10. Para sempre, virei uma violonsambista. Isso me torna, com certeza, uma candidata ideal à Orquestra Jazz Sinfônica (é piada, mas é verdade mesmo, amo musica popular, desde os Orlandos Silva de meu pai até 90% do meu MP3; desde a emoção incrível que me causa sempre a Elis Regina, desde a época em que eu, criança, sonhava em cantar “badabadabada” junto com as backing vocals do lindo Tom Jobim, nos especiais de fim de ano da TV; e também minha musa mor, a Ella Fitzgerald – quem poderia sucedê-la em ternura e qualidade?).

Cheiros, em geral, também me marcam muito, e o de meu marido é o cheiro de que mais gosto no planeta. E olha que sou a “maníaca do Free Shopping”, sempre fungando todas as novidades para conhecê-las, lembrem-se vocês de que tenho “nariz absoluto”.

Tenho sido marcada por acontecimentos tristes e maravilhosos, supreendentes e outros nem tanto: o acidente na Dutra, a desistência da vida de meu colega Marcos, a desistência de tocar violino de dois de meus melhores amigos, ao longo desses anos, um há muito tempo, outro agora mesmo – duas belíssimas “cagadas”.

As eternas tristezas por não ter conseguido até hoje tocar tranquilamente em um teste, sempre com uma óbvia queda de qualidade, na última vez, então, foi de cerca de 30% de queda de desempenho. Por sorte me levanto hoje em dia muitíssimo mais rápido de tristezas. Por sorte agora tenho muita ligação com o samba e MPB, então, coloco uns Ataulfos e Cartolas pra tocar no carro e a vida se recupera muito mais facilmente. Mas nem sempre foi assim.

Os encontros com o Rostropovich: coisa absolutamente inacreditável, tão linda e tão cheia de histórias (uma hora contarei com calma), ouvir “Lady Macbeth” do Shotakovich três noites seguidas no Colón, uma semana de Orquestra da Philadelphia, esses presentes que a vida me deu não tem absolutamente preço.

Ter também a amizade de meus pais aos 34 anos de idade (coisa que demorou muito, vocês vêem, a principio por diferenças de idade, depois de ideologias, agora, pela primeira vez na vida, embora ainda possam haver, de vez em quando, divergências com minha mãe, pela primeira vez na vida eu SEI que sou AMIGA deles, e isso é um prêmio incalculável. Posso não concordar com nada do que eles disserem uma hora ou outra, mas isso já não importa mais. Sou amiga deles e pronto.

O violoncelo que meu pai fez, não teve preço. Nem explicação.

O meu marido, ele tocando, ele falando, ele rindo, ele feliz, ele: não tem preço. Oito anos apaixonada. Ontem tivemos um dia incrível comemorando meus 34 anos, e ao vê-lo tocando no MASP eu, pela zilhésima vez me peguei pensando: “Ah, que homem é esse! Que som é esse!”- completamente a-pai-xo-na-da.

Eu, que dou aula há 12 anos, sempre sonhei em ter uma turma de alunos que quisessem e sonhassem em ser cellistas, e agora, aqui estou: pela primeira vez isso acontece de verdade!

Eu sou uma pessoa feliz, apesar das marcas ruins da vida. Tanto sofrer por amor nessa vida e agora, felizmente, muitos anos sem sofrer.

Ainda tenho imensos sonhos, imensos planos, imensas dificuldades para superar, e estou apenas passando da primeira para a segunda parte da minha vida de três partes (vamos chutar longos 112 anos… rsrsrs… até parece!). Mas essas marcas é que fazem quem eu sou, que me constroem, que me fazer ser alguém que sonha, sonha e sonha, acima de tudo, acima daquelas imagens vistas do avião, acima das nuvens, da mesma forma que aquela menina banguela, que não largava seu coelho branco, de joelhos grossos de tanto ficar agachada brincando de playmobill, sonhava, e sonhava e sonhava, ouvindo canções italianas que falavam de “amore” e de “il mondo”…

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