Por um mundo mais cor de rosa

Como respeitar todos os seres e todas as coisas?

Como diminuir sua marca destruidora no mundo?

Nessa vida, isso é MUUUUUUITO difícil.

Falo sempre para meus enteados e para meus alunos: se você não for útil, se não fizer algo bom, se não fizer o bem, voce é apenas um fazedor de lixo e de cocô. Um destruidor e poluidor.

Desde as fraldas até as embalagens de produtos, desde o gás carbônico até  a energia dispendida para ficar olhando a telinha do computador…, você (e eu) somos grandes destruidores (isso sem falar em desafinações… abafa o caso!).

De tanto eu ser bombardeada com mensagens ecológicas e politicamente corretas, de tanto lutar comigo mesma com essa minha neurose budista de que “Eu e todos os seres e coisas somos um”, muitas vezes me pego num dilema: e os pexinhos que eu AMO comer na comida japonesa? E as formigas em que piso sem ver e as borboletas que eu atropelo quando dirijo (já matei um passarinho atropelado na Rod. D. Pedro, chorei muito…). E o sapo que uma vez esmaguei no portão, de noite, e só vi no dia seguinte? E aquelas zilhares de aranhas tenebrosas que matei em casa, tendo que escolher entre matar ou conviver com elas, passeando e procriando dentro de casa?

Há uns três anos (depois desisti, depois retomei a idéia, então, há uns dois anos e meio)…resolvi parar de comer carne vermelha, já que não gostava tanto, parar de comer frango, já que não gostava NADA, e parar de comer porco, já que acho porcos muito bonitinhos e espertos, como cachorros. Desde a minha última estadia em um Hotel Fazenda, decidi que porcos estavam fora. Muita gente fica até irritada quando digo isso, achando que eu quero catequizar alguém: eu NÃO quero fazer ninguém parar de comer carne, EU quis parar. Será que tenho o direito de decidir o que EU vou por pra dentro de mim?

Sei que isso é irritante, especialmente em reuniões familiares  (para mães e sogras, especialmente) e churrascos, você de repente vira aquele CHATO que não come carne – ah, e sempre as pessoas tem que anunciar isso a todos em alto e bom som, que não sabia o que cozinhar para você, porque você NÃO COME CARNE!!! (Gritam!) Não dá para se passar desapercebido, nem que você tenha levado o vinagrete, o pão e o queijinho coalho, e queira ficar curtindo a cervejinha, discretamente, não dá. De repente você é aquela figura incômoda que não come carne!

De qualquer forma, meu colesterol agora é baixíssimo (não que ele fosse alto), e minha digestão nunca mais foi estranha nem difícil. E salvei a vida de alguns frangos e pelo menos uns dois boizinhos. Já está bom para mim. Você? Coma o que quiser!

A minha idéia era, aos poucos, também parar de comer peixe, pois, pobrezinhos, estes tem a vida igualmente valiosa à de um porquinho, qual a diferença? Para eu ir me acostumando à restrição de cardápio, decidi que peixe ainda estava incluído. Mas aí, conheci comida japonesa. Chego a ficar desejando durante a semana, e cada vez mais “conhecedores” (quem vê pensa!), eu e meu marido temos sucumbido às tentações da “carne branca”, onde estão incluídos atuns e salmões, entre outros, degustando e experimentando restaurantes e pratos… HUM! Só de falar, me dá agua na boca.

Sei que muita gente nunca experientou nem vai experimentar, e só de pensar tem nojo, mas nós a-do-ra-mos. Pena que é tão caro. Pena que os peixinhos não devam adorar tanto essa idéia… Budista de meia tigela que sou! Não me acho uma pessoa lá muito boa, ao verdadeiramente desejar um bom sushi e um bom sashimi, mas… viciei. Não estou vendo mais essa chance de parar com comida japonesa. Eu disse que eu não era grande coisa! Parafraseando a Amy Winehouse (que a-do-ro mais que comida japonesa): “I told you that I was trouble, you know that I am no good!”…

Mas nessa onda de respeitar o máximo possível o planeta, fiquei neurótica. Por exemplo, para um ensaio absolutamente inútil como o de hoje, fico pensando no combustível que gastei, na poluição que causei.

A cada embalagenzinha de banco oferecendo cartão de crédito fico pensando (uma por semana, pelo menos), a cada comida que compro na rua que vem em uma embalagem descartável, embrulhada em outro um saquinho descartável, a cada refrigerante ou vinho, etc, etc, etc, até mesmo garrafinha de água que compro, não consigo mais não pensar em minha pegada poluidora.

Por isso separo lixo reciclável, mas sempre pensando que gastei água e detergente para lavá-los (seria isso ecológico?) e que vai ser gasto energia, combustível, etc, tanto para transportar esse lixo como para reciclá-lo. Além da energia e poluição para levar cada trabalhador para esse centro de reciclagem…  Se a gente for pensar bem, não faz mais nada.

Mas, mesmo assim, sou de uma geração que se preocupa. A geração de meus pais não se preocupava, a de meus avós muito menos (mas eles não poluíram nem um terço do que nos poluímos!). Será que essa preocupação é suficiente para reverter isso tudo? Esse esgoto que viraram os nossos rios e represas?

Ainda vejo muuuuuita gente todos os dias pensando como a geração de nossos avós. Jogando lixo a torto e a direito na rua, no metrô, da janela do carro, do ônibus, etc. Ainda é uma vergonha a falta de educação geral das pessoas.

As pessoas, no geral, ainda são poluidoras e desrespeitadoras em muitos aspectos. Elas falam berrando ao telefone, e elas ainda andam fedidas, pelo amor de Deus! Elas gritam, não falam. Elas se acotovelam no metrô, nos ônibus, nas catracas, dando risada, achando isso tudo, essa bagunça, muuuuito divertida. Regularmente mulheres gordas com grandes sacolas me atropelam e nem percebem (eu tenho um histórico de ser perseguida e atropelada regularmente por mulheres gordas com grandes sacolas, há muitos anos), mesmo eu estando com meu discretíssimo violoncelo. Regularmente crianças pisam na minha unhazinha que quer encravar e nem percebem (outro histórico de anos!). Sou aquela com a cadeira regularmente chutada no cinema, aquela que SEMPRE senta do lado de pessoas que conversam (ou gritam) no cinema.

Somos poluidores de vidas. Somos desumanos, mal educados.

Eu, fazendo um MEA CULPA, poluo a vida de meus colegas e de meus maestros, REGULARMENTE, reclamando sem parar (sem parar mesmo, se estou quieta, estou reclamando dentro de mim) que está tudo desafinado e desencontrado, mesmo sabendo que sou desafinada e é difícil tocar junto com os outros (para isso estudo regularmente com metrônomo e afinador, faço música de câmara, ouço bons solistas e boas orquestras, numa tentativa desesperada de melhorar). Mas, sou poluidora, de vidas, de ensaios (com minhas reclamações constantes), de planeta, da água dos rios com meu esgotinho, do ar com meu carrinho (quero deixar constar, novamente, que ODEIO dirigir, e só faço isso porque sou obrigada a garantir meu sustento, senão NUNCA mais saía de casa).

Mas o lixo e os peixinhos realmente me incomodam… Será que não dava mesmo para ter embalagens menos poluentes, menos volumosas, únicas e não mais duplas, triplas? Recebi uma carta enorme do Banco Real só para dizer que agora vai se chamar Santander. Plástico colocado na carta para não tomar chuva, carta, papel bom, grosso, reciclado, mas enorme, lindo, tinta…só  para dizer isso. Um segundo pra ler, lixo. Tudo é assim. Um segundo usufruído, lixo? Comprei uma água, um minuto pra detonar a sede e lixo?

É duro ter consciência ecológica. Não consigo mais fazer nada sem pensar no lixo que estamos deixando pros nossos filhos. E netos e bisnetos. Nem dá vontade de ter filhos. Ano passado fui tocar em São João de Meriti: nas ruas, nunca vi tanto lixo, nem tanta gente sem educação. Eu, ali, dois minutos depois já estaria varrendo e juntando tudo em sacos. Mas as pessoas ficam esperando a iniciativa do governo (qual iniciativa? que governo?).

Regularmente tenho rejeitado receber saquinhos, sacolinhas, de farmácia, da locadora, de padaria, de banca de revista, etc. Regularmente. Acho que já rejeitei mais de 80. As pessoas sempre ficam perplexas, às vezes contrariadas. E ponho tudo nas minhas enormes bolsas de mulher, ou em sacolas de pano, quando me lembro, ou vou carregando na mão mesmo. Quero tentar reduzir minha marca no mundo. Nos peixinhos, ainda não sei.

Nos ensaios, posso dizer que anda cada vez mais difícil de não estar contrariada. Em qualquer orquestra, não só na minha. Eu sou muito cheia de idéias e é duro ver que as coisas podiam ser infinitas vezes melhores. Sei que eu mesma não estou lá essas coisas, mas gostaria de ver tudo mais bem feito, mais caprichado, o tempo também muitíssimo menos desperdiçado.

Sei que EU só posso mudar a mim mesma, mas eu não vejo mais músico nenhum feliz nas orquestras. Em nenhuma. Será que ninguém notou isso? Não vejo mais NINGUÉM satisfeito em orquestra nenhuma. Os caras estão ali nos olhando – maestros, organizadores, contratantes – (o público também), e não vêem?

Bem, meus desafios, agora, a curto prazo são: reclamar menos NOS ensaios, para deixar a vida de meus colegas mais leve (estou falando isso pois HOJE extrapolei, pobres colegas cellistas e violistas!), estudar mais as partes de orquestra e quarteto para ser menos poluidora sonora, continuar reciclando lixo, continuar sem comer carne vermelha, porco e frango, continuar recusando saquinhos o máximo possível, comprar produtos que venham em embalagens maiores (não menores, como as empresas tem feito, cada vez menores – e mais caras), e levar mais coisas de casa para comer no trabalho – frutas, chá, água de casa, por exemplo – a fim de reduzir minha marca poluidora.

Não vejo a hora de voltar a usar meu carro à álcool, pois o carro à gasolina do meu pai me dá muita culpa! Haja culpa! E continuar dando aulas o melhor possível, para fazer algo útil e não ser somente uma poluidora e fazedora de cocô! ECA! Minha mãe nunca podia ter imaginado isso ao sonhar em ter uma linda menininha vestida de cor de rosa!

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2 Respostas para “Por um mundo mais cor de rosa

  1. Rafael Gandolfo Scherk

    Olá Meryelle.

    Adorei o seu post. Sou uma pessoa que divide da mesma “neura” poluidora que produzimos, seja ela em relação à embalagens, sacos plásticos ou à poluição sonora no mundo. Preso (do verbo presar) pelo cultivo do silêncio, no qual as pessoas acabam não dando tanto valor… (mesmo sendo um amante da música e viver por ela, necessito de silêncio… rs)

    Tentei contato contigo há alguns meses, mas não sei se o e-mail que tenho ainda é válido. Se possivel, me contate pelo rgscherk@gmail.com

    Estou me reorganizando para o segundo semestre e gostaria de fazer algumas aulas de cello contigo, mesmo que seja uma a cada mês ou até mais espaçado, dependendo do tempo que vc tiver disponível.

    Aguardo um contato.

    Atenciosamente…
    Rafael.

    • Meryelle Maciente

      Oi, Rafael, tudo bem? Obrigada pelo comentario, espero que o cello esteja fazendo diferenca na sua vida! Fiquei feliz de voce compartilhar de minha NEURA POLUIDORA! rsrsrs! Assim me sinto menos louca! Um abraco grande!

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