Amor pra cachorro

Amigos, faz tempo que não escrevo, me desculpem, estou muito ocupada. Concursos, concertos… uma cachorrinha… Hoje vou narrar meu amor por cachorros, meu amor grande pra cachorro e um amor de cachorrinha. Minha historia com cachorros é antiga: eu SEMPRE achei qualquer cachorro lindo (bem, agora existem uns buldogues ingleses, de raça, que eu, sinceramente acho horríveis), mas, para mim, qualquer vira-latas, bem mendigão mesmo, sujo, bem xexelento, é LINDO, ou, no mínimo, foooooffffo! E eu sempre fui uma pessoa que ama pra cachorro! Amo muito, quero muito, choro muito, etc, etc, e se meu marido me quiser por perto quase que é só estalar os dedos ou assoviar, que eu vou para perto dele, toda contente, só não balanço o rabinho, pois não tenho. Pois eu o amo pra cachorro.

Na infância, qualquer cachorro da vizinhança era meu amigo, que eu visitava e fazia carinho todos os dias na volta da escola. Exceto por um pastor vizinho 2 casas acima, que parecia muito bravo, TODOS eram meus amigos. Para alimentar esse meu desejo de ter um cachorro, eu vivia vendo a Susie, a vira-latas de meus vizinhos, dando crias MUUUUUITO FOFAS (sempre), e eles nos ofereciam, e, lógico, eu sempre queria. Era um desejo que era maior do que o de ter qualquer brinquedo. Até porque eu fui uma criança sem traumas (sempre digo isso, acho o máximo, como se eu fosse a “dona da bola”), pois meu pai tinha uma loja de brinquedos.

Isso, claro, não é pra todo mundo, ter um pai dono de uma loja de brinquedos, e eu SABIA que isso era um privilégio. Não que eu pudesse ter qualquer coisa, meu pai nunca foi bobo, e sabia como nos educar para segurar uma possível filha pidona. E eu era bem educada, apesar de ser uma espoleta. Mas é claro que era um privilégio. Mas, claro, eu queria um cachorro.

Minha mãe passou anos e anos a fio aturando essa filha pidona, mas ela não cedeu. Hoje eu sei que ela não é mesmo chegada em cachorro em casa, e é alguém bem firme em seus propósitos. Ela nunca cedeu. Tive canário, jaboti, coelho, pintinhos, peixe, periquito, mas cachorro nunca. Ela não gostava era, acho, dessa interação física, e possivelmente malcheirosa e cheia de bactérias que podia ser um cachorro com uma menina doida por cachorros. Então, quando desisti (perto do vestibular), decidi: quando me casar, terei um cachorro. Matei um pouco o gostinho de ter um cachorro com a Catarina, a cachorra de meu ex-namorado, que foi uma grande amiga, e incrivelmente ainda está viva, pelo que soube recentemente, com 16 anos.

 Mas sabia, quando me casasse eu ia ter um cachorro. O meu marido, quando era só namorado, adotou duas vira-latas (ÊEEEEEE!!!!) lindas, a Nega e a Fulô, que são verdadeiramente minhas grandes amigas. Depois, ganhamos um golden retriever, o Nino, que não só era meu sonho dourado de cachorro, como é o amor da minha vida, e nós dois SABEMOS disso (ele é a coisa mais doce do mundo e eu tenho uma alma melada como a de um golden retriever).

Aí, já casados (não eu e o Nino, mas eu e meu marido, claro), fazia uns três anos e meio, apareceu aqui na frente de casa uma vira-latinhas puro sangue, quase igual às queridas Nega e Fulô, e, como já era mais ou menos o vigésimo cachorro abandonado que rondava meu portão e meu marido NUNCA deixava entrar, eu então resolvi nem pedir, e meu marido disse: “Põe ela pra dentro”. E eu, confusa: “O quê?”, e ele respondeu, “Põe ela pra dentro antes que eu desista”. E a Jujuba ganhou a vida de volta, pois estava machucada e raquítica, as perninhas de trás bambas de tanta fraqueza. Ganhou um lar e dois donos-amigos a-pai-xo-na-dos por ela.

Tudo correu super bem, os cachorros um pouco ciumentos com ela, mas aceitando numa boa, aí, um dia, quando não estávamos em casa, uma briga horrível entre as fêmeas quase pôs fim à vida da Jujuba. Não sei o que foi que ela disse pras outras, de tão ofensivo… perguntei, mas elas foram discretas, não quiseram contar nada, lavar roupa suja, nada. Nem uma palavra. A Jujuba amargou um mês e meio se recuperando de feridas, cicatrizes e pontos nas costas, de “abajour” na cabeça, coitada, mal podendo se sentar de tanta dor, as perninhas mastigadas.

 Depois, tudo voltou ao normal, e, aparentemente, a Nega, que está ficando meio velha, foi delegando a liderança para a Jujuba, e a paz voltou a reinar. Contudo, cada vez que saio de casa tenho medo de algo ruim voltar a acontecer. Mas Deus está cuidando disso pra mim, eu pedi com carinho, acredito que ele não vai querer vê-las sofrer mais.

Catarina (o nome foi dado por mim) foi largada aqui na Serra, no dia 02 de janeiro, na rua abaixo da minha casa, onde tenho que passar todos os dias – rua deserta, praticamente. Ela e seus filhotinhos recém nascidos, em um cestinho, com um cobertorzinho. Os filhotes pareciam ratinhos, de tão pequenos. Ao me ver, Catarina rosnava e arreganhava os dentes, para proteger sua cria. Mas eu sabia que se eu não a alimentasse, ela e os filhotes iam morrer, pois ela não se afastava deles, para protegê-los. Umas poucas vezes o vizinho e um anônimo deram comida para ela. Naqueles dias choveu a cântaros, e eles estavam descobertos.

A Catarina, tão inteligente, fez uma caverninha em um barranco, levou seus filhos lá, para que não tomassem chuva, e ficou ali, guardando as crias bravamente, recebendo de bom grado a comida e a água levada a ela todos os dias, mas sempre rosnando, ou, no mínimo, arreganhando os dentes. Mas, pouco menos de um mês depois, já arreganhava os dentes, mas abanava o rabinho, e ficava sempre feliz em me ver. Foi assim, até os filhotes crescerem a ponto de botarem a cabeça para fora do barranco. Como era lugar alto e seus filhos podiam cair, ela os levou para o outro lado da rua, fez uma toca em baixo de uma rocha, bem protegidos da chuva.

Meses de chuvas pesadas de verão, e eu sempre preocupada se eles estavam bem à noite, naquela chuva toda, e levando comida e água todos os dias. Quando ficava em São José, meu marido levava aquela tralha toda para mim, cuidando dela, me ajudando. Realmente ela era muito esperta. E eu perdendo o sono, pensando o que ia ser desses cachorros. Quando os filhotes cresceram mais e desmamaram, começaram a dar suas voltinhas por ali, e me recebiam com festa. A Catarina já não me arreganhava os dentes, e começou a me deixar fazer carinho nela e nos filhotes.

A essa altura três meses haviam passado, e começamos a buscar pessoas para adotá-los. Não foi fácil, mas um deles com certeza vai ter vida de rei e tratamento maravilhoso. Conseguimos dar os três lindos e fofíssimos filhotes, mas e a Catarina? Cartazes na Emesp, no mercadinho, no veterinário, em lojas de animais, contatos feitos, pesquisas por ONGs na internet, e ninguém a quis. Tão meiga e inteligente, tão linda, ninguém a quis.

Agora você me pergunta: mas e você, por quê não a pega? Bem, ela teve bicheira, gastamos os tubos para cuidar dela, levamos ela pra lá e pra cá, pois não a queríamos dentro de casa, para evitar brigas, e porque QUATRO cachorros, definitivamente, é nosso limite. É o limite da loucura, quase. Juro. E os gastos também.

Percebemos que ela é muito esperta, gulosa e forte, ela não vai se submeter a outra cachorra dorminhoca como a Nega. Temos certeza. Ela está aqui, gordinha, tratada, vermifugada, castrada, se recuperando da castração (com sua cicatriz e o cone na cabeça), super esperta, uma cachorrinha legal pra cachorro. Amorosa pra cachorro. E eu com essa encrenca que algum filha da puta (perdão do palavrão, mas é isso mesmo) largou aqui na Serra.

Uma pessoa que faz isso com um bicho (vários, no caso), e os deixa morrer ao acaso, como consegue dormir? Esses cachorros tiveram muita sorte, pois não é fácil encontrar pessoas que alimentem e cuidem de viras-latas largados por quatro meses. Muitos que vemos largados por aqui (e são MUITOS, acreditem) morrem lentamente com bicheiras (doença inevitável para cachorros soltos no mato, que se machucam, a mosca pousa e bota ovinhos, as larvas crescem e vão comendo o cachorro lentamente, muita dor, multiplicação rapidíssima dos vermes, até matá-los). É uma crueldade largar bichos assim, fora a dor emocional que eles sentem de se ver, de repente, abandonados.

Esse é um texto que quer conscientizar alguém a NUNCA largar animais. Ache um outro dono, pelo amor de Deus, doe, mande para o Centro de Zoonoses, sei lá, qualquer coisa, menos achar uma simpática ruinha deserta num lugar longínquo para largar os bichos, e entregá-los à pura sorte. Tenho esperanças de encontrar alguém legal pra cuidar da Catarina. Ela é doce, sorri para mim quando me vê (é verdade, eu achava isso, e o Elton, um cara muito legal da loja de animais, que nos ajudou bastante com ela, também notou e me falou: ela sorri!). Nao posso esquecer de falar tambem que nossos vizinhos e a Ana (obrigada) tambem tem ajudado muito.

Catarina e’ forte, sapeca, não é novinha do tipo que vai roer suas coisas, tem pelo curto, não vai sujar sua casa nem ser difícil de tratar, não vai ter mais crias, pois está castrada. Ela está aqui há vários dias, não late por besteira, é quietinha, já dá a patinha e deita de barriga para um carinho. Ela NUNCA fez necessidades no ladrilho, vai para o meio da grama e faz. Não sei se ela já sabia isso antes de ser largada.

De qualquer maneira, ela é um doce de cachorro, e tenho mesmo muita pena de não poder ficar com ela, pois se eu já não tivesse uma matilha às vezes desequilibrada no que diz respeito ao poder de quem manda, ela era da família. Quero uma pessoa que vá cuidar MUITO bem dela, pois ela merece, e já sofreu o suficiente.

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4 Respostas para “Amor pra cachorro

  1. Texto delicioso. Vou espalhar entre os dogófilos.

  2. Muito bom o texto!!
    Confesso que fiquei emocionada, pois sou exatamente assim!! Pra mim, cachorro é tudo na vida!!
    Vou ficar aqui torcendo pela Catarina!
    beijos
    Milena

    • Meryelle Maciente

      Querida Milena, a Catarina ainda esta’ aguardando um dono permanente, enquanto isso, engorda na minha casa! Hahaha! Mas PRECISO arranjar um dono, ou ela vai sofrer ao se mudar de novo!

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