Acidente na Via Dutra: uma aventura “off-road”…

Ontem passei por maus bocados que não seria capaz de desejar a um inimigo, se bem que eu não tenho de verdade inimigos (não da minha parte), somente implicâncias ou pessoas que eu quero bem, mas beeeeem longe de mim, de preferência, mas isso poderia (ou não) ser assunto para outro post. Não, não será assunto.

Sofri um acidente na Via Dutra, a mesma que me trouxe por tantos anos os estudos na USP, pelo menos 13 anos, entre as duas faculdades, as aulas na Extensão e o Mestrado. O pouco que tenho e que sou teve grande influência da USP, que eu sinto como um outro lar. E a Dutra era o caminho penoso para tudo isso, sempre foi. Quantos anos nessa via sacra São José – São Paulo, de ônibus, carregando o violoncelo para lá e para cá, todo fim de semana. Depois que comecei a dirigir em estrada logo percebi: dirigir não é para mim. Odeio. Sério. Odeio. Tenho déficit de atenção, então, guiar e ainda por cima sozinha, é um ato de extremo desconforto e obrigação, uma concentração quase acima das minhas capacidades. Duas horas e meia para ir e duas para voltar para meu trabalho. Isso compensa? Esse risco de morrer, de ficar aleijado, compensa? Para quem?

Acho chato, sacal, perigoso e tedioso, ontem pude ver o quanto pode ser realmente perigoso. Também tive a noção exata da verdadeira importância do cinto de segurança. Como nunca dirijo sem, as coisas não foram piores.

Meu corpo inteiro dói muito, pescoço, lombar pulso esquerdo e pés, principalmente, mas para mim, fisicamente, parece que não passou disso, ainda bem. Graças a Deus ou a algo muito grande que zela por esses “algos” muito pequenos, que somos nós.

Mas estou deprimida, de verdade. Eu já tive depressão há alguns anos, e hoje em dia, quando fico mal mesmo, ela volta, eu a conheço bem, e desta vez ela voltou em segundos. Segundos de profundo desespero.

Chovia muito, a pista estava encharcada e o carro patinou numa curva não muito acentuada (Km 188, sentido Rio), em que pisei de leve nos freios, e, de repente, perdi COMPLETAMENTE o controle. Não adiantava fazer absolutamente NADA. Virei a direção em falso como doida, ia pro meio da pista, quando lembrei que me disseram que tinha que tirar o pé do freio para a roda não travar. Tirei. O carro foi direto para o acostamento na esquerda, deu um tranco com as rodas da frente na guia e, de verdade, saiu voando.

Caiu no gramado da beira da estrada, escorregando feito sabonete, por alguns metros, e eu tentando jogar de novo o carro para a esquerda. Em vão. Totalmente em vão, quando, para meu desespero total, ele começou a descer em um barranco, e descia, e descia, no meio de um mato bem alto, e aí, quando eu já tinha gritado o meu décimo “Ai meu Deus!”, o carro tombou e parou.

Não conseguia abrir a porta, não sabia o que fazer, pendurada de lado pelo cinto, ouvindo meu coração mais alto do que aquele timpanista“lutador de boxe” que tocou a 4ª. do Tchaikovsky outro dia, beeem na minha orelha. Eu estava chorando sem conseguir nem respirar, desesperada. O rádio ligado, o limpador do pára brisa funcionando, lanterna acesa (eram por volta de 17:40), começando a escurecer.

Depois de alguns minutos de desespero, procurando minha bolsa, meu celular (sem sinal, é claro), um guarda chuva, e vendo se o cello e o violão tinham sobrevivido, olhando por cima mesmo, fiquei desesperada para sair dali. A porta estava travada e não abria. Tive que escolher sair pela janela e, infelizmente, deixá-la aberta. O cello e o violão, que meu pai fez, lá dentro. Não achei que teria o trabalho que houve para tirar o carro de lá. Nem muito menos os instrumentos.

Subi o barranco, escalando pelo mato alto, enfiando o pé até a canela, com minhas sandálias bonitinhas enfiando em terra e em água e mato, sem saber o que poderia haver lá, bicho, cobra, o que fosse. Me dei conta que o guarda chuva tinha sido deixado. Paciência. Naquela altura das coisas eu já estava suja e ensopada. Quase caí do meio do barranco, quando um mato quebrou na minha mão. Ao sair do buraco e voltar a ver a pista, fiquei me sentindo como uma renascida das trevas, pensando se alguém ia me ver ali. Cenas de filme. Só faltou vazar aquela gasolininha e ter algo pegando fogo e o carro explodir, comigo pulando. Faltou isso para completar a cena de novela.

Avistei o telefone da Nova Dutra e ele me pareceu muito perto, “graças a Deus”! E olha que sou budista! Hoje é que pude ver que estava até bem longe. Liguei. Depois de uns 15 minutos de chuva torrencial, escondida debaixo de umas folhagens e chorando compulsivamente eles vieram: os anjos. Anjos em forma de funcionários da Nova Dutra. Eu estava desesperada, falei coisas desesperadas, contei detalhes da queda totalmente insignificantes para eles, que só queriam saber se EU estava bem e se haveria mais alguém comigo. Havia: Orlando (o violão do meu pai) e Vasconcelos (o violoncelo de meu pai), o Vasconcelos sendo a coisa mais valiosa que alguém pode ter, valor afetivo, a coisa mais carinhosa e mais linda que alguém fez por mim nessa vida! Valor absolutamente inestimável.

Vou encurtar a história, senão vira livro: quando eles me disseram que seria impossível pegar os instrumentos eu disse, desesperada: deixa que eu vou, não está tão difícil assim, eles entenderam a importância, falei que era meu instrumento de trabalho, desceram lá e “resgataram” meus dois instrumentos e a mochila, com MUITO esforço e boa vontade. Muito obrigada!!!

Eu, dentro da ambulância, secando o cello e violão com gaze e papéis, junto com outras pessoas muito bondosas que realmente ENTENDERAM o valor que alguém pode dar a um instrumento.

Me levaram ao posto da Nova Dutra, onde troquei a roupa absolutamente ensopada por uma úmida da mochila. Me trataram tão bem que alguma coisa de humanidade me foi resgatada do desespero: eles só estavam preocupados com meu bem estar. Altruísmo absoluto. Todos eles. Me trataram tão bem que não dá mais para viver do mesmo jeito: existem MUITAS pessoas realmente boas, que se arriscam, que sofrem para ver alguém aliviado e feliz.

Depois que meu marido chegou, outro anjo, esse o meu anjo da guarda mesmo, as coisas foram se resolvendo aos pouquinhos, mas com muuuuuitos percalços e idas e vindas pela Dutra, devido ao carro ter sido mandado para São José. E nós tínhamos dormido em um hotel em Guarulhos. Resumindo de novo: chegamos em casa 14hs da tarde de hoje. Meu anjo comigo, resolvendo tudo. Amor da minha vida! Obrigada!!!

Estou deprimida, revivendo micro cenas de cada coisa que aconteceu e pensando: ainda tenho mãos, meio doídas, sim, mas em perfeito estado. Ainda tenho um cérebro funcionando, preparado para viver a vida, ainda que sobre um pescoço que não pára de doer, e parece até estar piorando.

Chegando em casa fiquei com a minha família um pouco, renascida. As crianças me dão muita alegria e me fazem juntar meus caquinhos para parecer mais controlada e equilibrada. E isso tem um tremendo efeito terapêutico.

Todas as perdas, para mim, são assim: ACORDO DE UMA DORMÊNCIA. Percebi que a vida está correndo e PRECISO parar de sofrer tanto, de reclamar tanto, de querer dinheiro mais do que o que é realmente necessário em troca deste desconforto e desse PERIGO que é ver a vida passando de dentro do carro, pra lá e para cá, à espera desse dia cruel que pode me levar, e que de verdade poderia ter sido ontem.

Eu quero estudar sem pressão, quero dormir, amar, ter tempo para o descanso, cozinhar com calma, fazer ioga, tocar com minha amiga Olga (outra bênção na minha vida), quero cuidar da minha horta, e não competir com ninguém por NADA. Acordei desta dormência. Renasci. 29 de junho, meu aniversário. 29 de março, meu segundo aniversário.

Anúncios

3 Respostas para “Acidente na Via Dutra: uma aventura “off-road”…

  1. Meryele,
    A cada texto que leio seu eu me emociono e me torno cadavez mais seu fã. É muito bom saber que existe no mundo pessoas como vc, alias, o mundo precisa de gente como vc!!!
    Espero que as dores fisicas desse incidente passem logo e que as marcas na sua lembrança não passe nunca porque elas vão te fazer bem. Te fazer mais forte, mais agradecida, enfim… mais humana!!!
    Fica com Deus!!!
    E tudo de ótimo pra vc e pra todos os seus anjos!!!
    Mário

    • Meryelle Maciente

      Mario, estou melhor, fui no medico, nao aconteceu nada serio, somente as dores e perdas materiais. Muito obrigada por essas palavras doces que tambem me emocionaram. O mundo COM CERTEZA tambem precisa muito de gente verdadeiramente BOA e esforcada como voce! Eu te considero no coracao, mesmo, como um grande amigo (sabe aqueles, que so’ se pode contar nos dedos?). Um super beijo! Obrigada!

  2. Mery!!!
    Nao sabia do que tinha acontecido! Gracas a Deus voce esta bem!! A recuperacao total ainda vai levar um tempo, mas logo voce estara novinha em folha!!
    E como eh bom saber que nesse mundo caotico ainda existem pessoas boas, anjos mesmo, que estao nesse mundo pra cuidar de nos!! Sempre que ficar triste lembre-se do amor incondicional dessas pessoas! Isso conforta demais o coracao!
    Tenho certeza de que voce vai superar esse trauma e vai entender uma porcao de coisas na sua vida! E tambem, vai discernir melhor o que eh bom pra voce e o que nao eh!
    Um beijo enorme!!
    Denise

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s