Carta aberta aos compositores contemporâneos “eruditos”(Carregada de preconceitos e de confissões)

 

Eu sempre me questionei sobre a razão da existência da composição contemporânea tal qual ela é feita desde o início do séc. XX, com raras exceções, como, por exemplo em Shostakovich, Messiaen ou Lutoslavski, que apesar de suas doideiras ainda faziam música muito linda e carregada de uma enorme carga emocional.

Em geral, a música contemporânea é – pelo menos pelo que eu entendi até agora, perdoe minha ignorância – música baseada em timbres, experimentação, com desejo de novidade, de atonalismos, politonalismos, dodecafonismos e uma imensa e inumerável gama de “ismos”, com intenções de se afastar como o diabo da cruz do tonalismo, do que é belo, do que é harmônico, etc.

Nem posso realmente opinar sobre esse assunto, pois, de verdade, conheço muito pouco técnicas de composição, técnicas expandidas, etc, e sei analisar nada ou quase nada – as minhas poucas tentativas de análise SEMPRE foram um fracasso absoluto.

A pergunta que faço aos compositores eruditos vivos é a seguinte: vocês ainda não se cansaram de desenvolver a MESMA idéia? A de que música tem que ser experimentação? Música tem que ser inovadora? Bizarra? Estranha? Diferente? Esquisita? Feia, deliberadamente?

A nova moda parece ser – desculpem-me os entendidos, sou apenas uma violoncelista (sambista) ignorante – a seguinte: vamos fazer a música mais difícil de se tocar o possível!

A idéia maquiavélica dos compositores seria essa: Se a música for beeeeeeeeem difícil, de preferência quase impossível, os idiotas e ignorantes músicos de orquestra, treinados à base de arroz, feijão, cerveja e muuuuuito Mozart e Beethoven (aliás, também odeio Mozart, mas isso é assunto para outro texto), se essa música for realmente difícil eles não vão poder nem criticar, pois vão ficar com vergonha, já que não conseguem nem tocar aquilo!

Filhos da %&@#! Quem realmente quer tocar e/ou ouvir essa música?!? Por quê, hoje em dia, um fulaninho, pra tocar todas aquelas idéias repetitivas e, verdadeiramente, sem inovação alguma você precisa ser o Rostropovich ou coisa parecida (já que faz mais de um século que se pensa em fazer coisas inovadoras, que experimentem coisas inéditas, acho que essa idéia já está mais do que ultrapassada!)! Mas, quando toca, muitas vezes parece ao público alguém bem ruim, brincando! (Ou seria caçoando do pobre ouvinte?)

O público leigo não é burro, ao contrário do que pensam muitos músicos profissionais e compositores eruditos (sempre odiei essa palavrota: “eruditos”, parece que já vem vestida de óculos, de gala e de mofo!). Para mim continua, em muitos casos, valendo a velha máxima de que “a voz do povo é a voz de Deus”. O público, ou seja, pessoas de carne e osso, pensantes, ouvintes e providos de sentimentos, consagram e gostam de coisas bem feitas e bonitas – quem já tocou coisas desconhecidas de compositores consagrados já deve de ter percebido que é sempre o LIXO daquele compositor.

Coisas famosas e consagradas, em geral, são lindas, ainda que esses compositores contemporâneos “eruditos” achem lixo, breguice, etc. Muitos, em geral compositores quer jamais serão consagrados exceto por suas mães e alunos, são capazes de falar mal de Brahms, faça-me o favor! E a maioria deles foi estudar música pela influência magnética causada neles por um Brahms ou coisa parecida, ou até mesmo por uma música brega, ou canzoneta italiana ou música de novela – pecado jamais possível de se revelar!

Convenhamos: exceto para aqueles loucos, verdadeiramente, e extremamente cultos, de paladar musical mega ultra maxi desenvolvido e estudado (meu ex-aluno Rodrigo, por exemplo, gênio entre apreciadores de música contemporânea), a música contemporânea, para a grande maioria é MUITO FEIA!

Eu, por exemplo, queria poder DE VERDADE voltar no tempo e assassinar o Darius Milhaud somente pelo seu estúpido “Boi no Telhado”, mas, sinceramente, ele mereceria ser assassinado pelo conjunto de sua “obra”. Aliás, qual é o barato do politonalismo, algum gênio poderia me explicar? A gente pensa: “ah, sim (com os dedinhos no queixo, um ar “complexo”, a sobrancelha franzida), são duas ou mais tonalidades ao mesmo tempo!…” E daí? Qualquer um pode fazer isso! Com programas de música atuais, nada mais simples do que fazer isso! Nada nessa música combina, mesmo! Algum gênio pode me explicar qual é a genialidade dessa idéia auditivamente MEDONHA?!?

Claro que eu realmente gosto de muitas coisas, não acho tudo feio, nem tudo sem graça, óbvio. Quando assisto concertos, confesso, eu até me divirto, juro, adorei o Ensemble Intercontemporain, por exemplo. Acho a música contemporânea muito visual, e gosto de Penderecki, por exemplo, de verdade. Nas peças que eu já toquei, admito, me diverti desvendando e descobrindo (exceto Milhaud – que ODEIO!), mas, essas peças me fazem sentir uma idiota na frente da platéia. Uma péssima cellista.

Eu nem sou tão preconceituosa quanto estou parecendo, juro, mas não estaria na hora de algum grande gênio ser inovador e fazer música que tivesse a intenção de ser LINDA? Algo seria mais inovador?

Ixe, caí de novo na idéia batida de ser inovadora!

Como sair desse complexo paradoxo?

Como fazer o público sair do teatro sem torcer o nariz? Como? Será que esses compositores realmente ficam confortáveis com essa idéia de que o público ODEIA? E, com raras exceções, NUNCA vai gostar ou de verdade ENTENDER?

Entendo que o mundo é um caos e a música é um reflexo do mundo, mas não é cansativo um século de idéias IGUAIS? Ou vamos ter que abrir escolas para treinar o ouvido do ouvinte? (Baseado em mim, até para músicos seria eficiente!)

Meu amigo Fábio adora, e sua filhinha pequena também, perdoe-me Fábio, eu respeito MUITO sua opinião, e pode ser somente ignorância minha, mas, quantos anos de técnica e quanto treinamento precisaremos ter para gostar da música de hoje?

Se a intenção era fazer o público torcer o nariz e fazer o músico se sentir idiota e amador, já deu.

EU JÁ CANSEI!

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8 Respostas para “Carta aberta aos compositores contemporâneos “eruditos”(Carregada de preconceitos e de confissões)

  1. Oi Mary,
    concordo com muita coisa que você disse!
    Um amigo numa palestra que deu sobre música contemporânea, falou para a platéia(quase toda de compositores): “Vocês não gostam de nós interpretes? Vocês acham que nós gostamos dessa música? Nós a tocamos por dinheiro! “E terminou com esta máxima:”Música de vanguarda? Esta é música vã, e se é vã, guarda!!” Adorei!! Mas apesar disto como você mesma disse, alguns compositores são magníficos, como os citados Penderecki e Messiaen, colocaria aí o Arrigo, que eu adoro!! O Milhaud tem algumas obras legais, como por exemplo a “Elegia para cello e piano”(linda), acredite… Tem dois concertos para cello, o primeiro é bem legal, o segundo… não tanto.
    Eu sinto muita falta de beleza na arte moderna, os ‘ismos’ extragaram a arte, não só a música!
    Nas artes plásticas a ladeira a baixo começou com o Dadaismo, a partir daí, o que era piada virou regra. Deu no que deu… Meu pai tem vários artigos sobre isto, acho que são bem esclarecedores, são bastante técnicos. Os ditos “artistas plásticos” da Paraíba, odeiam meu pai, lógico, o velho é duro que nem beira de sino!! Mas na minha opinião tem razão.
    Sim, sobre Mozart,…..
    esperarei o novo artigo!
    Beijão
    Raïff

  2. Esqueci,
    Ele é um pouco mais antigo…mas
    quem deveria ter usado camisinha, era o pai de Bruckner!
    Fui…
    Raïff

    • Raiff, grande e querido mestre! Adorei MUITO seus comentarios! Um grande abraco! A proposito, tenho gostado muito dos videos que Vc coloca no Facebook. Parabens! Vc e’ um de meus herois! Abraco grande!
      Mery.

  3. Mery, adorei muita coisa e discordo de algumas poucas!
    Eu tenho tocado século XX e XXI há bastante tempo, me identifico com quase tudo, mas acho que com raríssimas exceções não se faz mais nada original. O que mais acho engraçado é quando dizem “novas técnicas” … (?) … essas novas técnicas já estão muito ultrapassadas! É como ser criança durante 80 anos, pode? Não, então já não são tão novas. Poderiam ser chamadas de “técnicas usadas às vezes por alguns compositores, em obras que são apresentadas às vezes (por alguns instrumentistas bem cara de pau, ou aquarianos que só sabem questionar) devido ao grau de não aceitação por parte do grande público” … como disse o Zagallo, “aí sim”!

  4. Oi, Mary.
    Concordo com seu raciocínio, e recomendo Ennio Morricone como remédio… para te dar prazer ao ouvir e interpretar música novamente! Ele dá de 10 x 0 nos “vanguardistas”!
    Mas o caminho tomado pela música no séc. XX foi necessário, pois era preciso explorar a música em todos os seus aspectos. Enquanto não fizessem isso, sempre iria existir uma possibilidade que ainda não havia sido explorada.
    Mas no fim das contas, como diria meu pai: “música tem que agradar”.
    Beijo!

    • Meryelle Maciente

      Obrigada pelo cometario! Com certeza, ouvirei Enio Morricone! E juntando a sabedoria do seu pai (musica tem que agradar…) vou revelar a sabedoria do meu pai, que acha que arranjo bom tem que ter a melodia bem em destaque e clara (sem alterar demais do original), nao importa o que a esteja acompanhando: eu tambem concordo! Assim, o arranjo agrada tambem! Obrigada!

  5. Cirioso, li sua carta e me apercebi que vc realmente gosta de música contemporânea erudita, pois vc gosta daqueles que realmente o são e não dos mediocres que nem podemos dizer que são músicos. Sou artista plástico e também gosto de arte contemporânea, mas sei que são poucos os que realmente o são. E sei mais, sei que imuito desse mediócres infelizmente esses mediocres infelizmente ocupam posições de poder dentro do jogo político. E assim muitas vezes ofuscam aqueles que realmente são sérios. Sou artista plástico e adoro música. Me considero um artista contemporâneo, mas entretanto estou completamente marginalizado.por os poderosos de minha área. Pode conferir consultando um livro que escrevi sobre o cromatismos cezanneano. Felizmente tenho o apoio de quem realmente sabe onde tem o nariz.

    http://www.bookess.com/read/9967-o-cromatismo-cezanneano/

    Se possível voltarei aqui para continuar esse meu ponto de vista. Mas se vc quiser trocar mais idéias pode me escrever. jmdias8@gmail.com .

  6. Nossa, faz sentido em muita coisa que disse, porém, todo sentido se perdeu na confissão, “odeio Mozart”, como pode odiar Mozart? isso sim é estranho…

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