As coisas e eu

Sempre tive um grande problema com coisas.

Sempre tive imensa dificuldade de organizar coisas. Eu era uma criança extremamente desorganizada. Mas sentia, já, estranho prazer em organizar, limpar, faxinar, retirar tudo, arejar, reorganizar.

Todas as vezes que me desfaço de coisas eu sinto um estranho prazer muito além da gratificação normal que alguém sente por ver tudo limpo e organizado: eu gosto, além disso, adoro essa possível idéia de não ter nada, de repente, de me libertar dessa escravidão das coisas.

A necessidade dessa liberdade vem da constatação de que, se eu fizer TUDO o que tenho que fazer, se eu trabalhar ao máximo, se me esforçar muitíssimo para não ser bagunceira, ainda assim vai haver algum pozinho em algum móvel ou em algum canto, ainda assim pode ser que haja um mofo atrás da gaveta do meu armário do quarto (sempre há, infelizmente, essa é uma das contraindicações de se viver ao lado de uma floresta).

Ou seja, aquela culpa monstruosa que minha mãe instaurou dentro de mim, quando me levava arrastada ao quarto de meu irmão para ver como era arrumado o armário dele, ao contrário do meu, (“e ele é homem!”- ela dizia), a culpa de meus cadernos “garranchudos” e cheios de orelha, essa culpinha maledeta passou os limites do tempo e do normal da vida, uniu-se aos meus ossos, virou parte de mim, infelizmente.

Confesso que gosto muitíssimo de ver tudo limpo e organizado, e que, a despeito das críticas comuns que são feitas a umas parentes, de que “elas limpam rodapé com cotonete”, eu também sou uma dessas, que é capaz de passar um período do dia limpando uma geladeira aparentemente limpa, ou um armário, com os mínimos detalhes e requintes, dignos do Castelo de Windsor.

Eu sou o tipo que pega escovinha e fica esfregando frestinhas encardidas de coisas, que faz questão (ainda, sim, eu sou esse tipo) de ver lençóis passados, com aquele cheirinho delicioso de ferro, sabão, sol e amaciante (eu já disse que tenho um lance forte com cheiros, e isso é um prazer MEU). E, depois de tudo, sentir profundo alívio e sensação de realização.

Sim, eu sou dessas. Bem Amélia mesmo, confesso.

Pelo simples prazer de ver tudo maravilhoso, organizado (mas NUNCA está, de verdade), para me livrar dessa inevitável culpa.

Sou Amélia mesmo.

Por isso, também tenho um imenso prazer em me livrar de coisas, fiz até uma espécie de intenção de fim de ano (há alguns anos), e promessa a minha ex-terapeuta (a quem ainda recorro em momentos mais difíceis, pessoa muito maravilhosa e importante em minha vida, obrigada Tereza!), de ir, aos poucos, sem stress (como se isso me fosse possível!), me livrando de tudo o que não gosto, não uso ou não quero mais. Tenho feito isso sim, aliás, talvez desde que me casei, mas muito mais no último ano. Regularmente limpo gavetas e armários com a intenção também de me livrar de coisas. As coisas me aprisionam nessa neura de ficar limpando e organizando.

Algo que decidi: nunca mais pego xampuzinhos de hotel e trago para casa. A não ser que sejam uma feliz exceção à regra de maus xampus com cheiro de erva doce. Não compro mais, também, de jeito nenhum, bibelôs. A não ser que eu vá para a Rússia e veja Babouskas (elas são irresistíveis!). Aliás, para quê servem bibelôs mesmo?

Minha amiga contrabaixista me falou que tem uma técnica que eu achei maravilhosa e gostaria de usar: cada vez que ela compra uma peça de roupa, uma blusinha, por exemplo, ela dá uma velha. Assim, ela permanece com um número pequeno e estável de peças. Ainda chego nesse grau de desenvolvimento humano.

Não porque eu tenha dificuldade de dar coisas, até que não. Quando levaram meu Uno Mille, de que eu gostava bastante, tive a exata noção de que, de verdade, não temos NADA. É só uma ilusão. Vide esses tristes terremotos e alagamentos. De verdade, a única coisa que temos é o que aprendemos, nosso estudo, nossa educação, mais NADA (minha mãe sempre me disse isso, e sempre esteve certíssima).

Contudo, o que pretendo e tenho pretendido nesses últimos tempos é trocar a quantidade pela qualidade. Conforme contei daquela brincadeira de meu pai, que dizia que seu sonho era ser andante, eu também gostaria muito, e sonho regularmente com isso, de morar num pequeno sítio, com um pomar, uns animais, umas galinhas, uma imensa horta, umas vaquinhas (como meu tio Zezinho – tio Zezinho, um grande abraço pra você, aí no céu!!!), umas videiras e roseiras, um telefone, um computador e poucas coisas de qualidade. Uma casa hiper simples, contudo bem confortável. Térrea. Prática, que uma pessoa desse conta de arrumar e limpar, como as casas européias: sem a necessidade de empregados. Odeio essa coisa servil de ter empregados. Tenho uma faxineira, pela necessidade, pois trabalho fora a semana toda e a casa é grande. Mas é necessidade. Não tenho talento pra patroa, sou uma Amélia, por mim eu faria tudo sozinha, super bem feito e com gosto!

Esse lugar paradisíaco e idílico se assemelha ao lugar do livro “Sob o Sol da Toscana”, que é lindo, dá de 10 no filme (que também é lindo) – livro que recomendo a todos e tem uma edição de bolso em bancas, que é super baratinha! O melhor custo-benefício que já tive. Vale mesmo a pena. Aquela é a vida que eu queria. Só com um detalhe: eu não queria um lugar tão grande, nem empregados.

Gosto de silêncio, gosto de tranqüilidade. Meu marido, com essa casa afastada e seus hábitos de silêncio e calma, tem me induzido a ser cada vez mais “bicho do mato”, e, cada vez que ele ou alguém me convidam para sair de casa, eu fico realmente irritada. Quero sossego. Eu já zanzo pra lá e pra cá demais, fico fora tempo demais para trabalhar, e acredito que falta paz.

E coisas, em vez de dar conforto e status, para mim, dão stress. Coisas me escravizam. Mais uma peça de roupa para ter que passar e pendurar e combinar, mais um móvel para limpar e organizar: minha meta é ter poucas e boas coisas, coisas de que eu realmente goste e de que precise, coisas que me facilitem a vida. Por isso tento, dia a dia, me livrar dessa montoeira de tranqueiras que vamos juntando ao longo da vida. E não é fácil. É um sonho maior e quase tão difícil quanto um prêmio de loteria.

E será, com certeza, um grande ganho: trocar a quantidade pela qualidade.

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