Madrasta, não, Boadrasta!

Nao sou muito boa para fazer amigos – conhecidos sim, amigos, nunca fui muito boa. Muitos anos de reflexão e cinco anos de terapia depois, um dia me caiu a ficha (puxa, que termo mais antiquado, né?): não tenho curiosidade pela vida alheia. NENHUMA. Numa conversa, fico quase irritada quando as pessoas me perguntam coisas sobre minha vida pessoal, mas sempre respondo, cordialmente, e quase nunca a pessoa percebe que estou irritada. Mas, de repente, percebi que chega uma hora que a pessoa para de perguntar (ufa!), enfim, e acontece aquele silêncio constrangedor e a conversa acaba. Quando percebi isso, é que pude ver que a conversa simplesmente para pois eu não fico perguntando nada sobre a vida da pessoa. Agora, muitas vezes me forço a isso, por saber que PRECISO ser simpática (isso é ser simpático mesmo?) e PRECISO parecer querer saber da vida alheia.

Não estou nem aí para a vida pessoal de famosos, por exemplo. Não ligo com que o Tom Cruise ou Leonardo di Caprio estão casados (eles estão? Não tenho nem idéia de com quem…), se Brad Pitt e Angelina Jolie brigam, não ligo. Cada um na sua. É o que eu acho.

Por essas e outras, essas perguntas amigáveis das pessoas sempre me irritaram muito, como se fossem qualquer tipo de cobrança: “E aí, tá namorando?” e depois “E aí, pra quando é o casório?” e depois, “E aí, já encomendou um pimpolho?” (Fiz essa pergunta a um amigo essa semana, agora me senti culpada). Isso é muito enfadonho, e uma amiga, que tem apenas um filho, com muitas necessidades especiais e tem um trabalho de cão com ele – e muito amor também –, me garantiu que depois do primeiro pimpolho encomendado, a cobrança social é “mas não vai arranjar um irmãozinho pra ele? Coitadinho!”

Ou seja, essa coisa nunca para (acho difícil escrever sem o acento de “pára”, do verbo parar, e também sem os hífens – maldita reforma da língua portuguesa! Odiei!).

Por isso, me irrito muito com essa cobrança que recebo sempre, milhões de vezes, e acho completamente injusta, de que, por ter dois (lindíssimos e maravilhosos) enteados, eu “PRECISO ter um filho MEU”. Meu “mesmo”. Como assim, “mesmo”?

Amor, para mim, não vem por meio do sangue, e isso eu sei bem desde pequena, pois tenho irmãos que são tão distantes para mim, e com quem não me identifico nem um pouquinho, que parecem mais aqueles primos de terceiro grau. Logo cedo SOUBE que parentes não se escolhe, e que, não necessariamente preciso amá-los. Tenho amigos muito mais irmãos (poucos, como disse), no sentido verdadeiro da palavra. Amor, também, pelo senso comum, não está na barriga – no dia dos namorados, ninguém desenha “barrigões”, por exemplo, mas sim “corações”.

Quem disse que eu não posso amar meus enteados como filhos? Aí sempre tem um chato que responde uma resposta tão sem lógica… “Mas eles têm mãe!”…

Aí eu faço AQUELA cara de impaciência de quem comeu jiló azedo e digo “Que bom que eles têm mãe!” Por que não seria bom? Ela nunca me fez mal e eles a adoram – sinal que são muito amados por ela. Ufa! Meus amores são amados pela pessoa mais importante da vida deles (que bom!).

Desde quando ter mãe e pai exclui ter o amor infinito de mais uma pessoa?

Conheci meu marido com mais de 20 anos, e ele é a pessoa mais maravilhosa e importante da minha vida, aquele que dá cor à minha vida, que me dá sentido de estar aqui e de respirar (não exatamente sentido, pois isso é muito dramático e eu SEI que conseguiria viver sem ele, só que a vida seria muito triste, só isso). Por que não posso conhecer suas crianças já nascidas, falando e andando e elas não podem também dar sentido à minha vida?

E pais adotivos, não podem amar? Aí vem sempre aquele chato: “mas eles têm mãe…” E eu: “Que bom!” Não é justo achar que eu só poderia amá-los como filhos se eles não tivessem pai ou mãe.

Que eu não seja mal compreendida, por favor: eu NÃO quero substituir ninguém, principalmente a mãe – ninguém jamais substituiria qualquer mãe, eu acho – eu quero SOMAR. Eu os amo como se fossem filhos, sim, quero o melhor para eles, sim, me dedico às coisas necessárias à eles com amor, sim, muito amor. Invisto tempo, dinheiro, coração, preocupação, carinho, ternura, oração, sim, como se fosse mãe, sem querer ser a mãe. Conheço-os desde que o mais velho tinha cinco e o mais novo tinha três aninhos, ou seja, fazem oito anos – oito anos, na vida de uma criança de onze, é praticamente sua vida toda, e eu nem sei se ele pode se lembrar direito de eu não estar presente. Dei mamadeira pra ele dormir, contei historinhas para eles dormirem, fiz tantas refeições, comprei tantas coisinhas gostosas para comer, fiz tantos cafunés, lavei tantas meias, desencardi lancheiras, reaprendi a fazer equações de matemática, lavei e estendi tantas camisetas, sequei tantos uniformes à noite, às pressas, amei tanto – sim, é a mesma coisa – eles são como filhos, sim, e meu amor quase transborda, de tão grande!

Tenho um curioso histórico de família – minha avó cuidou dos filhos da “outra” que meu avô arranjou (ê, vô safado!), minha mãe cuidou de meus três irmãos mais velhos (filhos somente de meu pai) que perderam a mãe, e eu, que nem imaginava passar por esta situação, me acho nela, muito mais vencedora – creio – do que elas, também pelas circunstâncias e sorte que eu tive – pois eu talvez tenha sido a única delas que assumiu esse amor para si mesma e para o mundo – e talvez, por isso, minha relação com eles é tão boa.

Agora, cabe a mim, é claro, e quando EU e meu marido quisermos, decidirmos SE é nossa vontade ter outro filho(a), mas, realmente, meus enteados preenchem essa necessidade de amor e de carinho de filhos (sim, é a mesma coisa de ter filhos) – claro que sempre cabe mais um, mais amores, mais filhos (minha avó teve dez e amava TODOS eles, claro), mais amigos, mais irmãos, o espaço do coração é infinito – talvez seja a única coisa divina em nós, a infinidade de nossa capacidade de amar.

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4 Respostas para “Madrasta, não, Boadrasta!

  1. Lindo!
    Adorei seu blog, querida! Vou me sentir em casa e vir sempre!
    🙂
    Beijão!

  2. Matheus Posso(ALUNO)

    Gostei da “BOADRASTA”…
    kkk’
    Só podia ser a Meryelle…
    kkk’
    Matheus.

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