DOCE DOCENCIA

Minha relação com a docência sempre foi dúbia. Relação de amor e ódio, muitas vezes. Admiração e medo. Eu, desde meus 10 anos, jamais havia pensado em ser professora.

Na infância, no entanto, eu amava as figuras dos professores, e brincava de professora com a certeza de que era uma grande e honrada carreira (e é mesmo, com exceção dos salários baixos e do reconhecimento, que muitas vezes não existe).

Eu tinha o Playmobil de escolinha, com as criancinhas, o quadro e a professora, as carteiras e mochilinhas, e, juro, com poucos outros brinquedos eu me diverti tanto quanto com esse. Brinquei tantas vezes! E olha que meu pai era dono de uma loja de brinquedos, e, apesar de ser um pai mais para durão, posso dizer que tive muitos brinquedos, talvez mais que o suficiente, sem, contudo, jamais desprezar nenhum. E brinquei, ah, se brinquei!A escolinha era brincadeira séria e boa.

Nessa mesma época, tive uma excelente professora na escola. Ela tinha um nome bem diferente, Shaila, nunca me esqueci, e a professora do Playmobil, óbvio, se chamava Shaila. Nem sei em que série foi, mas foi uma das primeiras, pois me lembro que era a época de haver uma professora e uma assistente, apenas, para tudo. Ela era firme e doce, meiga, ela dava aulas com paixão e brilho nos olhos, decidida, bonita, calma sem ser mole.

E lembro-me que, num daqueles intervalos miseráveis (recreios, se dizia em S. José) em que eu estava BEM isolada e com vergonha da vida, de tudo e de todos, triste mesmo, ela veio conversar comigo e quis saber do porque de eu não estar conversando ou brincando com ninguém. Isso, além de ter me feito me sentir importante, me fez, pela primeira vez na vida, perceber que era eu que não estava brincando ou conversando com ninguém. Eu sempre achei que ninguém brincava comigo, que ninguém conversava comigo, que EU era humilhada e desprezada. Aí é que eu fui me dar conta que eu é que teria que ir ao encontro dos outros.

E, de lá pra cá, estou sempre brincando com os outros, na menor das ocasiões possíveis, e, se não fui capaz de fazer muitos amigos daqueles verdadeiros, em pencas (mas fiz alguns MUITO maravilhosos), ao menos isso me fez ter muitíssimos colegas e conhecidos. E de lá pra cá, nunca mais me senti tão sozinha no mundo assim. Essa professora me fez ver o mundo sob outro paradigma. Sobre essa história, inventei uma teoria (sou a mulher das teorias), ou posso dizer, percebi, que todos os tímidos tem uma certa dose de metidez, não se misturam, pois se julgam melhores que os outros, então acham que são os outros que têm de bajulá-los e paparicá-los, dizer bom dia, etc. De lá pra cá, nunca mais deixei de dizer bom dia, a quem quer que seja. Colega, lixeiro, varredor, cobrador do pedágio, vendedor, moça do café, etc.

Tive, após essa época, uma série de sensações de amor e de ódio a vários professores, imensa admiração por uns, ódio por outros, mas uma coisa nunca me saiu da cabeça: os bons professores, mesmo de matérias que eu ODIAVA, sempre AMAVAM profundamente o que faziam, e por isso, faziam ou fazem sempre o que fazem com grande entrega, brilho nos olhos, e mais que isso: confiança absoluta de que os alunos são todos, absolutamente todos, extremamente capazes de aprender.

Lembro-me de tantos nomes e de tantos rostos de mestres admirados, Chicão, Cicléa, Sandra, Rubens, Fausto, Edgard, Irmã Vera e tantos outros de que me lembro com carinho, minha cabeça louca de musicista já não consegue se lembrar bem dos nomes, mas que, com certeza, foram mestres que fizeram a diferença na minha vida, na minha formação como ser humano. Isso, somente do primário e secundário. Nas faculdades eu teria PENCAS de nomes lindos para me lembrar… ia ocupar muito do blog, viva a USP, vou deixar só para mim.

Esses mestres todos me deram bases sólidas para ter esperanças e sonhos, pois acho que, além da informação passada, o bom professor tem o DEVER de enfiar, nas cabeças ocas de seus alunos, muitos sonhos, fazê-los se multiplicarem, tomarem vida própria, dar desejos, curiosidade e ambição boa, fazer o aluno se ver no seu melhor, se imaginar e confiar que ele (ela) pode sim se tornar o seu melhor. Eu odiava, consequentemente, os professores que odiavam dar aulas, pois eles, claro, eram péssimos no que faziam, já que só cumpriam protocolos porcamente. Ainda havia aqueles que apreciavam com moderação, desprezando também o que poderiam fazer com as suas vidas e com as vidas dos alunos.

Eu sempre achei, por ter déficit de atenção e também ser meio hiperativa, que eu JAMAIS poderia ser uma boa professora, que jamais ia gostar de dar aulas. Que NUNCA ia ter paciência. Que ia querer MATAR os alunos. A necessidade de trabalho me botou pra dar aulas em Diadema, aos 20 anos. Foi uma loucura, uma surpresa, uma verdadeira viagem: o dia voava fácil, eu me virava do avesso e me desdobrava para conseguir passar o melhor possível para eles, e quando eu via era a hora do almoço, e quando eu via era a hora de jantar, e quando eu via eram 10 horas da noite e eu, cansadíssima e felicíssima, saía de Diadema, com meu Monza verde 84, cheirando a carro de 5 antigos donos (o que, provavelmente era), no silêncio feliz de um dia ganho, quase sempre me esquecia de ligar os faróis (e alguém bom me avisava), de tão absorta que eu havia estado, naquele estado de graça de passar conhecimento, sonhos, olhos brilhando, auto-estima, boa postura, disciplina, sensibilidade, fazer o aluno sair dali acreditando mais em suas capacidades reais.

Eu tenho um sonho: transformar a educação do violoncelo no Brasil (putz, me senti o Martin Luther King, agora: “ I have a dream”). Se vai ser percebido por alguém, ou por milhares, aí já não sei. Faço, ali na EMESP e nas aulas particulares, assim como já fiz nos outros lugares em que já trabalhei, a subversiva tentativa de fazer as pessoas acreditarem mais nelas e sonharem mais. A se posicionarem com mais segurança e convicção neste mundo, por meio da arte, do seu instrumento, que, por acaso é o violoncelo.

Quero ensiná-los a terem suas próprias idéias, seus próprios desejos secretos do que sonham em tocar e onde querem tocar, a terem suas interpretações, e NUNCA a quererem ser uma medíocre cópia de alguém medíocre, ou, que seja, uma medíocre cópia de alguém um pouco melhor que eles. Não. Quero que eles mesmos decidam, que tenham mais dúvidas que certezas, que aprendam a experimentar, a buscar sozinhos, que creiam em verdades absolutas com moderação, e SEMPRE, sujeitos a alterações. Que sejam mesmo sempre aquela “metamorfose ambulante”, de que brilhantemente tratou Raul Seixas, que é sempre melhor, mesmo, “do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Quero dar pérolas! Quero colorir o mundo de sonhos!

Se sou boa ou não no que faço, não é o caso. Aprendo a cada dia. Pesquiso a cada dia, se erro, tento de outras maneiras, tento de qualquer maneira. Faço com entrega total, com prazer, com amor total. Amo cada um de meus alunos como as verdadeiras mães amam a cada um de seus filhos. Olho-os com o melhor dos olhos, buscando tirar deles o seu melhor, que é absolutamente único em cada um, graças a Deus, senão ia ser uma chatice.

Meu sonho é ser essa educadora, que bota a semente, o material fértil (o estrume, a merda, o húmus, a loucura, a minhoca, o adubo, o que você preferir) na cabeça desse aluno, e botar esse aluno no sol, fazê-lo brilhar, regá-lo com minhas lágrimas de garota-manteiga, orgulhosa, com meus olhos brilhando, e aos poucos ir percebendo esse brilho se tornar o brilho dos olhos dos meus alunos, e que eles sonhem alto, que estudem alto, que queiram crescer cada vez mais alto, que busquem ideais de perfeição o tempo todo sabendo que jamais vão alcançá-lo. Mas que, sim, saibam também que quem não sonha alto não alcança nada e nós queremos (e podemos, sim) mudar o mundo começando por nós mesmos… e mais, infectando alunos e colegas de sonhos e esperanças, de puríssimos ideais de beleza e perfeição onírica, que, com sorte, deixaremos alguém mais feliz, e essa pessoa fará os que os cercam mais felizes, que farão, por efeito cascata, os que os cercam mais felizes, e isso, quem sabe, pode transformar o mundo verdadeiramente, sem ninguém perceber essas micro forças ocultas… Tudo isso, por meio do som mágico desse mais do que mágico instrumento, chamado violoncelo.

O que importa na vida é mesmo dar, se doar, oferecer, compartilhar, multiplicar. Como, acho, minha mãe dizia: um livro fechado é um livro inútil. O conhecimento só tem valor quando é usado. E eu sou um livro aberto, como meu pai cantava, “eu sou um livro aberto, sem histórias”. A minha história vai sendo construída dia a dia, em cada aula, em cada música aprendida, e a cada ensinamento que eu ensino, eu também aprendo. Piaget já dizia que não é o professor que ensina, mas sim o aluno que aprende.

Eu falo para meus alunos que eu oriento, mas eles são seus próprios professores. O músico só aprende fazendo, sozinho, experimentando, querendo, desejando, almejando, sonhando. O músico é sempre um autodidata, pesquisador da sua própria arte, de seu instrumento, de sua alma, de sua mente, de seu corpo.

A melhor educadora e mestra que já encontrei na vida, porque nasceu com essa nobre função de mudar o mundo verdadeiramente, a grandiosa Professora Ecléa Bosi, que provavelmente nem se lembra de minha carinha quieta dentro de sua sala, mas que transformou minha vida e minhas esperanças para sempre, nos aconselhou a jamais perder esse sonho de querer mudar o mundo. E ao dizer isso, ela mudou. O meu e o daqueles felizes colegas que fizeram parte de sua turma naquele ano.

EM BUSCA DA MINHA CRIANÇA MALUCA PERDIDA

Desde criança, sempre fui uma pessoa de grandes expectativas. Grandes, não. Enormes. Posso dizer, E-NOR-MES. Eu não sei bem o porquê, se era (ainda sou?!?) sonhadora demais e pronto, ou se teve relação a eu querer no futuro transformar completamente aquela vidinha comum de criança feia e desajeitada, sem grandes amizades, sem grandes notas, sem grandes coisas para se notar.

Também pode ter sido pelo fato de eu ser a quinta filha, e me sentir também a quinta na preferência de todos. Eu não era linda e nem falava cheia de segurança como aminha irma mais velha, eu não era meiga e carismática como minha irma do meio, eu não era divertida e maluquinha como meu irmao mais velho, nem inteligente, comportada ou excelente aluna, como o meu irmao mais novo. Também apanhei muito, regularmente, e tinha certeza que era sempre por razões completamente bestas e por pequenas coisinhas, então, achava uma grande injustiça. Talvez para me livrar dessa sensação de não ser ninguém, eu sempre almejei ser algo grande, enorme, E-NOR-ME.

Mas essa sensação não era voltada só a mim. Eu achava que meus irmãos e colegas iriam ser grandes gênios, e que meu pai, um comerciante, por cantar maravilhosamente bem, um dia ia ser descoberto, gravar um disco que ia “bombar”, e ser considerado “a voz” (porque é de verdade A VOZ), aqui no Brasil, e até no mundo todo. Meu irmão iria ser Presidente da República, no mínimo (no tempo em que ainda se achava que só um grande homem poderia ser Presidente da República), ou, pelo menos, o primeiro astronauta brasileiro na Lua ou em Marte. Ou ia ser médico e descobrir a cura do câncer, ou ser um cientista, como Einstein ou Darwin. E assim vai… minha mãe iria virar a maior pintora brasileira, minha irma iria ser Miss Universo, meu irmao mais velho o o maior gênio da informática, a irma mais nova, seria a maior bailarina, ou a maior poeta de todos os tempos, ou coisa assim. Eu sempre tive grandes expectativas para tudo e para todos.

Eu, na sacada de casa, brincando, pensava no príncipe, lindo,maravilhoso, que vinha montado em seu cavalo branco para me resgatar, e pensando ser uma princesa trancafiada injustamente, imaginava a glória e o “felizes para sempre” de todas as histórias infantis. Eu não só acreditava nisso, eu tinha a total CERTEZA de que eu iria MESMO ser feliz para sempre, amorosamente e profissionalmente. Ainda acredito totalmente no amor, pois o príncipe lindo está aqui, dentro da minha casa.

E assim, a vida ia passando, e tudo o que era grande eu almejava. Queria ser uma cantora incrível como a Elis Regina ou a Clara Nunes, queria ser a maior bailarina do mundo (Barishnikov era meu parceiro divino, em meus sonhos), queria ser aquelas moças elegantérrimas que faziam backing vocal (badá, badá, badá…) para o Tom Jobim nos concertos da Globo no final de ano, queria ser a mulher de um Tom Cruise ou coisa parecida, tinha certeza de que, mesmo sendo feia e desajeitada, quando crescesse eu me transformaria numa lindíssima mulher, magrinha,sexy e elegante, de longos cabelos lisos castanhos, de gestos delicados, de perfume que envolvesse delicadamente a todos que me circundassem…, sabe aquelas mulheres de gestos esvoaçantes dos antigos comerciais dos sabonetes Vinólia? (posso até ouvir Vivaldi e o caminhar em câme`ra lenta…as roupas, traços e cabelos tal qual a Vênus do Boticelli (quanta semelhança dessa Vênus à Gisele Bündchen, não é mesmo?) Ou seja, eu me tornaria uma mulher ideal, COM CERTEZA…

Aí, descobri o prazer da leitura, das poesias, dos grandes romances! Ah, que delícia! Não somente eu seria essa mulher ideal, mas eu seria culta, a maior escritora de todos os tempos, muitos Prêmios Jabuti, o primeiro Prêmio Nobel brasileiro de literatura, eu ia ser a mulher que ia fazer a poesia voltar a ser lida por todos e voltar a dar dinheiro para os escritores! (Alguma vez já deu dinheiro?!?) Para ver como eu sonhava alto!!! Uma Cecília Meireles que vendesse muito ou mais! Soube que Guimarães Rosa começou a escrever tarde, só quando já era muito culto e vivido, e SEMPRE achei que quando eu fosse uma grande qualquer coisa, já com meus 50 anos, iria começar a escrever “clássicos”. Achei isso lindo! Conheci Saramago, aí tive a certeza: quando eu for MUITO culta, escreverei obras primas!

Aí comecei a estudar piano, e a gostar de Beethoven, Mozart, Bach, Haydn, então, claro, eu sonhava em ser a maior compositora de Sinfonias e Sonatas para piano da história. E achava que ia ser a primeira grande compositora mulher de Sinfonias.

Depois, fiquei maluca pela Madonna. Fui fazer dança de novo, para “me preparar para o futuro”, cantava alto passando aspirador, para ninguém me ouvir, e eu estava, na minha cabeça, TREINANDO, para quando eu fosse ser o que hoje seria uma espécie de Lady Gaga (sem a pornografia, e a roupa de bifes – eca!- faz favor!) ou Beyoncé (mais branquinha e com menos curvas, porque aquelas curvas, só ela mesmo!). Aprendi inglês e dança com muito empenho e entusiasmo, pois eu apenas estava ME PREPARANDO para meu futuro de sucesso internacional!

E tudo isso, claro, junto com uma existência escolar totalmente comum e medíocre, sem muitos amigos, sem falar dessas coisas para ninguém, vivendo aquela vidinha normal de estudante do interior.

Depois chegou a fase da vida em que eu tinha que escolher verdadeiramente a profissão. Fiquei perdida. Não tinha “Sucessora da Madonna” na lista do Vestibular… não tinha a melhor cantora, a melhor compositora, a maior escritora, nada disso… caí na real de ter que escolher uma profissão real. Como era apaixonada por livros, ler e escrever, entusiasmada pela minha professora de português (Profa. Cicléa!), uma paraense adorável com o mais lindo dos sotaques brasileiros, fui fazer Letras, na esperança (certeza) de ser escritora. Mas já havia em mim aquele “viruszinho” de Orquestra Sinfônica, aquele desejo de encontrar alguém que me ensinasse a tocar violoncelo para tocar em uma Orquestra. E foi o que fiz, procurei, achei, mudei o rumo para a música.

Eu tinha os olhos brilhantes!

Depois que escolhi mudar de carreira mesmo, após quatro anos de estudo de violoncelo e um Festival de Brasília, aí então eu sonhava dia a dia em ser solista, ser Spalla do Teatro Municipal. Em descobrir uma forma mais rápida de se aprender o violoncelo do que qualquer outra e revolucionar mundialmente e definitivamente a maneira de se ensinar a tocar, ou seja, virar a maior professora de violoncelo da história, algo como um Aldo Parisot ou Willian Pleeth. Ser a pessoa que ia fazer A GRAVAÇÃO das Suítes de Bach, com um som absolutamente indescritível. Fazer a “Gravação Definitiva” do Concerto do Dvorák.

Na vida real, não é fácil continuar sonhando. Mas ainda sinto essa criança louquinha e sonhadora, às vezes, dentro de mim. Quando já tinha desistido TOTALMENTE dessa história de querer mudar o mundo, na aula da melhor professora que eu já tive na vida, a Ecléa Bosi, no  meu Mestrado, ela falou para um colega, que expôs exatamente isso,  “que antes queria mudar o mundo, e aí a vida o fez ir vendo que não dava”, ela, sabiamente, respondeu: “Eu se fosse você não desistiria disso nunca”. As aulas dela me fizeram ver, e aquela turma esplêndida de colegas que tive a sorte de ter naquele semestre, de todas as áreas, me fizeram ver que somente as pessoas que tem grandes e altos ideais é que podem fazer alguma coisa para mudar o mundo. Não fazer TUDO, mas alguma coisa.

Foi quando parei de sonhar em ser a nova Beethoven mulher, que desisti TOTALMENTE de tentar compor, que comecei a compor sambas (me senti dentro do genial conto do GRANDE Machado de Assis, “Um homem célebre”), e a conhecer melhor Noel Rosa, Cartola e outros GRANDES de verdade. Comecei a sonhar de novo. Quem sabe minhas músicas não serão um dia gravadas por alguém?

Quando estava na mais profunda tristeza por ter perdido o emprego e muitos alunos, comecei a pensar mais no tema futuro do meu Doutorado, e recebi o grande presente de estar na página de agradecimentos do Doutorado do meu mestre maior, professor de violoncelo da USP, o Bob, Doutorado que ficou ma-ra-vi-lho-so e será defendido em breve, e que muito provavelmente vai transformar a história da aprendizagem do violoncelo no Brasil, e que eu ajudei a revisar. Bob, obrigada, foi uma honra participar! Nem que tenha sido só um pouquinho!

Quando estava pensando em nunca mais escrever, conheci uma escritora, pessoa super interessante. Eu nem achava que existiam por aí pessoas que viviam disso! Aqui estou eu, brincando de escrever de novo, pelo amor de Deus, juro, hoje, sem NENHUMA pretensão.

Meus sonhos estão precisando resgatar a Meryellinha sonhadora da infância, parafraseando aquele samba do Paulinho da Viola (“Para ver as meninas”, lindo samba!), “eu nem me lembro mais quem me deixou assim”…ou aquela música do Pink Floyd (adoro) em que ele diz “I never tought that you would loose that light in your eyes”. A vida anda difícil, e cada vez que fico um pouco mais feliz ou tranquila, levo uma bordoada na cabeça.

Mas eu tenho que continuar estudando para ser uma melhor violoncelista, uma melhor professora (a melhor será difícil, pois tem por aí Ricardo Fukuda, Julio Ortiz, Robert Suetholz, Raiff Dantas Barreto, Alceu Reis, Fábio Presgrave, e, claro, outros tantos que não conheço… tenho que comer MUUUUUUUUUUITO feijão! Algumas aulas deles são tão maravilhosas, que cheguei a ter vontade de chorar de tanta emoção!)

Tenho que continuar investindo no aprendizado para escrever e aperfeiçoar meus sambas e minhas canções, quem sabe onde isso pode parar? Keep walking… Um cellista dessa listinha acima, uma vez, falou que os cellistas que estão nos melhores postos de trabalho por aí não são os melhores, mas sim aqueles que NUNCA DESISTIRAM. Tem horas que, vou ser sincera, pensei em desistir, pois cada dia tem sido mais difícil. Mas tenho que me reerguer. Buscar lá dentro essa maluca criança que estava aqui dentro de mim, e continuar sonhando em encontrar um som indescritível no violoncelo, uma maneira revolucionária de ensinar violoncelo, uma letra de samba como “As rosas não falam”, a gravação definitiva do Concerto de Dvorák, para sonhar com a Lua, e quem, sabe, chegar em Moscou, sonhar longe, para ir somente um pouco mais longe, e não necessariamente virar a nova Elis Regina ou a nova Rostropovich, ou a nova Guimarães Rosa, ou a nova Beethoven!

Ao violoncelo!

A incrível arte de ser Músico de Orquestra

Amo orquestras. Amo assistir orquestras. Amo tocar em orquestras (apesar de meu lado cada vez maior de sambista, que me diverte e me encanta, me dá leveza).

Todo mundo que convive comigo nas orquestras SABE que estou SEMPRE reclamando, mas de verdade, confesso, eu AMO tocar em Orquestras. Eu queria que as condições fossem melhores, que as coisas fossem mais bem feitas, que houvesse ensaios mais exigentes, mais ensaios para cada concerto, mais respeito à grandiosa obra já escrita para orquestra, pelos maiores gênios da humanidade… por isso reclamo…

A “Orquestra Ideal”, como uma Orquestra da Philadelphia, uma Filarmônica de Berlim, uma Filarmônica de NY, está sempre soando na minha cabeça, nas minhas concepções, por isso, é óbvio que estou sempre reclamando ao tocar nas nossas queridas orquestras brasileiras, porque infelizmente, para quem já teve o privilégio nessa vida de ouvir uma dessas MEGA orquestras maravilhosas, SABE que não há a menor possibilidade de comparação, ainda, infelizmente, quem sabe um dia. Para isso trabalhamos, em busca dessa perfeição que sabemos que nunca vamos atingir: somos idealistas.

Eu tenho que confessar o que, estranhamente, parece inconfessável: eu sou musicista de orquestra mesmo. Não nasci para solista, não gosto de me impor, de mandar, nem de aparecer, e, apesar de solar ser muito divertido e um imenso desafio que nos faz crescer imensamente, é um grande sofrimento e uma grande pressão, é brutal, talvez seja meio masoquista, mais do que consigo ser, pelo menos na maior parte do tempo.

Para camerista sim! Nasci também para camerista, adoro. Pois Música de Câmara é Champagne com caviar, é para poucos, pessoas que querem tocar mesmo que isso implique ficar mais pobre, não receber, receber pouquíssimo. Não ter um enorme público. É uma arte que consegue ser ainda mais delicada, é sutil, gostoso, lindo, prazeroso, feliz e divertido… é “La creme de La creme”. É andar de 1ª. Classe, de Iate, coisa assim. Felizmente tenho tido esse privilégio com meu quarteto e meu duo (Quarteto Nobilis e duo com a pianista Olga Lazareva – maravilhosos amigos e maravilhosos artistas!).

Mas… confesso que NASCI para ser musicista de Orquestra. E digo mais: fila. E digo mais, músico de fosso, escondidinho, que faz ballet e ópera, entra e sai quase sem ser visto.

Não nasci para spalla. Me explico: tenho déficit de atenção, e o spalla, além de ter de liderar (coisa que não me deixa nada à vontade), tem que estar MUITO atento. Ele tem de dar entradas, decidir arcos interessantes, ser pessoa legal com os demais, mas ainda assim ser líder, decidir sempre, ouvir sem deixar os outros tomarem conta, ser sério, ser calmo (coisas que não sou, sou uma brincalhona ansiosa!), ser delicado, mas, principalmente, ele tem que ter uma capacidade de prever coisas, se antecipar, e MUITA atenção, coisa que confesso que realmente não tenho. Esse déficit de atenção só foi detectado por mim depois de 15 anos de carreira, ao ler um livro sobre o assunto, logo, não havia mais jeito, e, apesar de isso me atrapalhar MUITO, dá para ir levando. Por exemplo, se você for me contar um fato e no meio da frase disser: “ …eh…” e continuar a sua narração, no meio desse “ …eh…” (uma simples pausa para um respiro, ou para se lembrar de algo), eu já pensei pelo menos 3 coisas diferentes, de outros assuntos. Acredito que concentração absoluta é característica de um bom spalla. Então… sou fila mesmo.

Nasci, vou confessar o absolutamente inconfessável, nasci para ser daquelas estantes do meio. Gosto de servir, sempre prefiro virar página para meu colega, não fico muito à vontade com alguém virando para mim, com essa “superioridade hierárquica”. Eu era aquela criança que, numa disputa, pegava o último lugar, a menor quantidade de balas, o pior instrumento da bandinha, eu não nasci para essa competição ferrenha, para me engalfinhar com um monte de gente para pegar o que eu queria mais, em detrimento de deixar outro infeliz. Mas… o mundo também PRECISA desse tipo de gente. As pessoas que servem também são MUITO necessárias. A sociedade nos faz achar que só tem valor o que manda, o que faz sucesso, o líder. Mas isso não é, em absoluto, verdade.  O Mundo também tem necessidade de “formiguinhas”. Ser formiguinha é uma arte. Me explico ainda mais a seguir.

Uma vez um colega definiu um dos maiores violoncelistas de orquestra do Brasil, elogiando-o, como “formiguinha”. Ele disse: “Fulano é formiguinha, sabe, é o cara que faz o trabalho que tem que ser feito, que leva as partes pra casa e estuda tudo, tudo mesmo, até afinação, aquele que, quando ninguém está tocando aquela parte, só dando uma enrolada, fulano é o cara que está tocando tudo, todas as notas, porque alguém tem que estar tocando mesmo! Eu não tenho tempo pra ficar estudando partes”… Bem, essa pessoa, apesar de ter dito isso, é um músico maravilhoso, e desde então eu sonho e trabalho para ser essa formiguinha. Além de ser algo extremamente necessário e digno, eu acho o trabalho de formiguinha, do simples músico de orquestra, algo lindo, sutil, delicado, especial.

Considero esse trabalho como, simbolicamente, uma parábola da vida de um ser humano. Se você faz seu trabalho de formiguinha BEM feito, a SUA parte, a Orquestra melhora, o mundo melhora. É como na frase de Guimarães Rosa: A colheita é comum, mas o semear é sozinho”.

Acho a arte de se tocar em orquestra uma das mais elaboradas, complexas, difíceis e incríveis: o trabalho para se aperfeiçoar é infinito. Você precisa tocar bem, você precisa ter sua parte bem feita (só esse item é trabalho para a vida toda), ser pontual, não faltar, ser prestativo, ser bom companheiro, não pode ser mal humorado (como eu, ai, ainda tenho MUITO que evoluir), você precisa trabalhar bem em equipe (isso, acredite, pode ser extremamente difícil, dependendo da situação). Você precisa respeitar hierarquias, precisa amar o que faz para poder fazer bem feito, precisa SEMPRE dar o seu melhor.

Tem um cellista que admiro muito, que toca o tempo todo como se fosse concerto. Cheio de garra, de vontade, de entusiasmo e de capricho. Para ele, jogo é jogo, mas treino também é jogo. Entrega total. Por isso o admiro tanto. Ah, e a cada ensaio ele vem tocando melhor. Isso é ser bom músico de orquestra.

Um bom músico de orquestra, também, precisa conhecer música de orquestra, de ópera, de ballet, concertos de outros instrumentos, CONHECER mesmo, saber até as letras das óperas, se possível, pelo menos das árias famosas, e isso leva tempo, estudo e MUITOS anos de experiência. Precisa ter hábito de ouvir muita música, de muitos compositores, de muitos estilos, se possível conhecer as partituras da música toda (a parte do maestro), ter hábito de ouvir acompanhando a partitura. Conhecer. Isso poupa muitos erros nos ensaios.

Precisa respeitar hierarquias, jamais peitar os spallas, mesmo se eles forem piores tecnicamente (sim, isso muitas vezes pode acontecer). Precisa agir assim: aprender com quem sabe mais, e, também, com quem sabe menos, e fingir que sabe menos do que quem acha que sabe mais, para haver respeito e bom clima. Nunca comprar briga (eu já fiz isso umas vezes, no passado, e me arrependi pra sempre), nunca levantar a voz, e quando lidar com um colega doente mental, no mau sentido da palavra (sim, incrivelmente, isso pode acontecer), com aquele EGO maior do que o universo e a capacidade de criar encrenca com o mais calmo dos colegas, achar um jeito de não provocar esse maluco, e de pôr todos os panos quentes possíveis na possível encrenca. É claro que, às vezes, nem isso funciona.

O músico precisa, além de tudo, ser tão bom artista, a ponto de fazer idéias musicais maravilhosas, de dinâmicas e de fraseados (já que, na maior parte das vezes, os maestros não têm essas idéias, ou nem tem tempo de ficar trabalhando a música frase por frase – peraí: isso não é o que eles deviam fazer?!?! Bem, eles não fazem isso muito, então cabe a nós). Essas idéias musicais têm de ser tão lindas a ponto de levar o naipe inteiro junto, a ponto de levar o outro naipe do lado, a ponto de “infectar” de bom gosto e de graça a orquestra toda, o público todo, a música toda, a vida toda. 

Além desses “pequenos detalhes”, o músico precisa ter boa leitura (tenho trabalhado arduamente para melhorar isso em mim, pois é um dos meus grandes problemas, e acho que é o de quase todo mundo que escuta e decora logo, a pessoa para de ler, e então acaba não treinando tanto isso). Precisa tocar COM os outros. Afinar COM os colegas, timbrar com o colega do lado, com o naipe do lado, às vezes COM os DOIS naipes do lado, mais ainda com o outro naipe lá longe, que está fazendo a nota grave, ou tocando a mesma melodia que você, ou um contracanto da sua voz.  O músico de naipe, quando sola o seu naipe, tem de solar em naipe mesmo, ou seja, o som dos seus instrumentos tem de ser algo único, e não 10 cellos, ou 40 violinos, um tentando aparecer mais do que o outro.

O músico de orquestra tem de aprender a aceitar idéias alheias, tocar com arcadas, articulações, idéias, tempos, concepções, regiões de arco, gostos alheios, seja de seu chefe (spalla, maestro, etc) ou colega, ou seja, também aprender a dançar conforme a música, ainda que seja o avesso da sua idéia pessoal (e normalmente, sempre é o avesso).

Ah, e o músico de orquestra deve SEMPRE tratar seu maestro com respeito, ainda que possa internamente, discretamente ou não, odiá-lo, achá-lo incompetente, achar seu gosto medonho, tem de haver respeito, mas SEM SE DEIXAR manipular, jamais. Isso é tão complexo quanto as idéias de Einstein. É algo quase impossível. Isso é um trabalho de titãs, realmente, quase impossível. Eu, da minha parte, quase sempre estou contra os maestros, mas muitas vezes (talvez a maior parte delas) eles não têm a menor idéia disso, porque estou sempre sorrindo, apesar do meu MEGA mal humor. Em Santos eles sabiam, a orquestra era pequena, e eu era muito bocuda, hoje em dia aprendi a ser menos bocuda, mas, ainda assim, me acho muito “cheia de idéias”, e isso, para os maestros, sempre parece altamente “subversivo”. Então, tenho ficado mais quieta (só um pouco), mas… confesso que às vezes é difícil, e fico ali, resmungando, muitas vezes mais alto do que seria prudente. Na TPM principalmente.

Não é fácil ser mulher em orquestra! As mulheres de orquestra são extremamente compromissadas com seus trabalhos (a maioria, claro), mas os homens ainda passam muito mais nos concursos, talvez saibam melhor se impor, ou talvez os maestros, secretamente, ainda achem os homens mais eficientes, mais inteligentes, sei lá. Se for isso, temos mesmo que manter nossos ódios aos maestros (não aos homens, é claro).

Bem, um bom músico de orquestra ainda tem que saber solar quando precisa, tem que ter a parte solo do spalla estudada (ou do 1º. Instrumentista dos sopros), para substituí-lo em caso de problema sério e necessária troca.

Ah, e o músico tem que saber acompanhar! Quando for acompanhamento, acompanhar. Sim, parece tão simples! Mas não é. Isso implica OUVIR. Ouvir implica se achar MENOS importante do que os outros, fazer aquilo que nossas mães e avós falavam: “quando um burro fala, o outro abaixa a orelha”. Tem que ser uma pessoa que ajuda, que gosta de amparar, tem que ser feita, no acompanhamento, a frase do solo, afinação e pulsação caminhando JUNTO com o solo, e não se impor jamais. Implica ser educado e deixar o outro aparecer. Aquela coisa de dar lugar para alguém passar. Implica ser gentil. Coisa rara na sociedade moderna. Sumir, embora estando ali, presente. Ser firme na pulsação e na afinação, e ainda assim deixar o outro liderar. Difícil!

Uma vez, um maluco professor da faculdade me chamou de canto e me disse: “sabe, eu assisti ao ensaio do coro, e reparei que você está sempre ligada em tudo, ouvindo todas as vozes, reparando em todas as coisas, você não devia ser musicista de orquestra! Você devia ser maestrina, ou solista…você tem bom ouvido demais para ser músico de orquestra!”… Desde então, esse professor despencou no meu conceito, foi a pessoa que mais menosprezou o músico de orquestra que encontrei na vida até hoje! E o cara é músico!!! Fiquei TÃO indignada, injuriada, até hoje me ofendo com ESSE comentário! Desde então, decidi para sempre: SOU MUSICISTA DE ORQUESTRA, que PRECISA de ter bom ouvido, para a orquestra ser boa, ora bolas!

Ah, sem falar que músico de orquestra TEM que estudar SEMPRE com afinador e com metrônomo, para aprender a ouvir, a ter humildade, são verdadeiros “pais dos burros”, e se TODOS estudassem com essas ferramentas tecnológicas maravilhosas, metade do trabalho dos maestros seria poupado.

Tudo isso, e mais milhares de minúsculas nuances fazem parte do dia a dia complexo e desafiador de um músico de orquestra. Acho minha profissão linda. Quando vejo uma orquestra fico sempre pensando quanto valem todos aqueles instrumentos juntos (não em valor financeiro, mas quanto esforço cada músico, cada família, fez para adquirir aquele instrumento, que é o melhor que cada um que está ali tocando foi capaz de comprar, a custa de MUITO sacrifício, na absoluta maior parte das vezes). Quantas horas cada um gastou com a bunda na cadeira estudando, quantos anos cada um estudou, quantas horas de abdicação daquele lindo sol lá fora, de ócio, de descanso, de sono, da saída com os amigos, do fim de semana com a família, de praia, de tanta coisa. Ofício MUITO nobre e MUITO complexo. Esses dias foi o dia do músico. Um aluno me falou, eu de verdade nem sei que dia é, mas eu tenho sim, muito orgulho de ser musicista de orquestra, porque o que seria da vida (da minha, com certeza), sem orquestas? O que seria de um filme maravilhoso, de um casamento, de um grande evento, de um musical, sem a música? O que seria de “E o vento levou” sem aquela trilha, por exemplo? E dos filmes do Spielberg?

Eu SOU musicista que CHORA em tuttis de orquestra românticos, em finais de óperas, que se emociona com a delicadeza e a complexidade dos barrocos, que é desafiada pela leveza dos clássicos, que se envolve pela garra dos modernos, que é afrontada e obrigada a aprender na marra pela dificuldade dos contemporâneos, que se arrepia inteira nos trechos ápices das músicas, que tenta fazer o melhor pelo benefício de um solista, que é iluminada pelo brilho dos outros.

Quando vi pela primeira vez uma orquestra, quando criança, foi amor à primeira vista. Aquela sensação de predestinação, de atração para o abismo. Eu SOUBE que era isso que eu ia querer fazer para sempre. E SOUBE que teria que abrir mão de MUITA coisa para isso. E chorei de emoção.

Ouro sobre o Azul

Vou usar uma das tiradas do grande clarinetista Luca Raele: resolvi juntar duas coisas que absolutamente não têm nada a ver: em vez de misturar piano com clarinete, no chorinho Ouro Sobre o Azul, meu preferido, que o Sujeito a Guincho quase sempre toca, para meu deleite, resolvi juntar Ouro sobre o Azul, de um outro jeito, chorinho com significados espirituais. Eu adoro azul, com certeza minha cor preferida… aqui no Brasil, quando se diz que está “tudo azul”, é porque a vida está boa (viva o Brasil! Viva o chorinho!). Mas em inglês, estar “Blue”, é mais como estou me sentindo agora, triste, melancólica, pensativa… Blues é uma música sofrida, mas com uma certa leveza, um olhar de esperança… Mas a crise traz MUDANÇAS! Ouro sobre os Blues!

Acima das crises e das tristezas, podemos fazer nascer ouro, uma flor de lótus, uma renovação espiritual, e podemos encontrar novos caminhos, novas soluções para problemas, novas idéias e, principalmente, quebrar nossos padrões antigos de comportamento, que nos prejudicam.  E é esse o assunto desse texto: renovação das cinzas, Ouro sobre o Azul.

Sei que estou afastada do Blog há muito tempo, peço novamente perdão aos leitores fiéis, amigos, alunos, curiosos. É complicado às vezes escrever, pois demanda tempo, calma, idéias e um tema. Cheguei a pensar em muitos temas e até a desenvolvê-los mentalmente, mas em uma época sem nenhum tempo. Agora, há dois meses, tive mais tempo, mas decidi passá-los me concentrando na minha meta maior, que é apenas estudar violoncelo. Estou, felizmente, estudando como nunca, e isso realmente é um grande prazer, conseguir realizar planos dia a dia, de disciplina, de estudo, de boa alimentação, de alongamentos, ginástica, e até mesmo tomar bastante água, pois como meu mestre, o Bob, sempre fala, o músico também é atleta, e é assim que eu estou tentando me tratar.

A vida não está fácil. Estou pela primeira vez sem trabalho, pois a Orquestra está, por enquanto, em suspenso, apesar de que ainda há esforços grandes do maestro e dos músicos, para fazê-la retornar. Não é fácil ficar em casa, sem dinheiro, sem fazer uma das coisas de que mais gosto (vide texto anterior!). Estou passando diariamente por altos e baixos. Felizmente, quando me exercito e estudo, os “baixos” ficam menos fortes e menos freqüentes, então, estou usando isso para me manter ativa e produtiva, mesmo com os pensamentos negativos que inevitavelmente passam pela cabeça.

Na filosofia budista, existem as “Oito Verdades”, que nós temos, como praticantes, de buscar para nos aperfeiçoar. Uma dessas “verdades”, é, imagino, uma das maiores metas que o ser humano pode pretender: o Pensamento Correto. Isso significa manter ao máximo possível o pensamento positivo, independentemente das condições. Ser como a flor de lótus, que nasce e resplandece mesmo nas áreas mais poluídas e mais impróprias. Ser como a água, que a tudo se adapta, mudando sua forma, independente do recipiente. Ser como a flor da ameixeira, que é a primeira a nascer, maravilhosa, assim que a neve de um inverno japonês rigorosíssimo começa a derreter, no início da primavera. Ou seja, mesmo nas condições mais adversas. É isso que estou tentando manter, apesar dos pesares.

Como se não bastasse o período “sabático”, sem trabalho (logo, sem $$$), ainda andava triste, com a moral lá em baixo, e com a autoestima, como meu pai brinca, “mais por baixo que barriga de cobra”. E ainda tem uns dois ou três concorrentes (não colegas, concorrentes mesmo) que acham, sei lá porque, que eu “me acho”… não dá para entender… Se tem uma pessoa que nem sabe quem é, ainda, nesse mundo, sou eu. O que dirá “se achar”!!! Tenho certeza que isso JAMAIS vai acontecer! Até alguns meses atrás eu estava completamente perdida – tirando as minhas aulas, que faço com o maior empenho e carinho de que sou capaz. 102%. O resto, estava TUDO em crise, vocês viram, tanto que tentei o fracassado empenho para parar de reclamar (a “verdade” budista da “Palavra Correta”, ou seja, só dizer o bem), como vocês leram. Pretendo retomar esse treinamento, pois, além de ter sido muito útil para eu saber o QUANTO eu reclamava, criticava, me fez perceber que eu estava MUITO chata para todos os meus queridos.

A gente vai aprendendo, e, infelizmente, às vezes já não é mais possível reparar os erros, como o que já rolou comigo no passado. Briguei com uma colega que eu amava, na Orquestra de Santos, e ela nunca mais foi a mesma comigo, de tanto que eu abria minha boca para reclamar. Ela me chamou a atenção para isso, aprendi, melhorei, mas a amizade ficou abalada, e depois, saí de lá, e não pude reparar isso, em longo prazo. Mas, tenho certeza que sou melhor colega (ou era), na Orquestra de São José, por isso os colegas são mais felizes comigo, logo, eu recebo a amizade deles com satisfação e prazer.

Tudo o que eu tenho feito é querer melhorar como pessoa, superar defeitos, resolver meus medos, minhas inibições, minhas dificuldades técnicas como musicista, mas não é fácil… normalmente, para resolver defeitos, você tem que vê-los, encará-los bem encaradinhos, e isso não é gostoso, nem simples, nem muito menos fácil. Superar os próprios defeitos exige mudanças, é TÃO difícil mudar padrões de atitudes. O pensamento é até bonito, todo mundo sabe o que é certo (a maioria das pessoas, claro), sabe o que devia fazer, inclusive eu, mas mudar, fazer o que é certo, é TÃO difícil…

Cada vez tenho visto mais pessoas ensimesmadas, que só pensam em si mesmas, que andam no supermercado dando cotoveladas nos outros, crianças mimadas que não respeitam qualquer hierarquia ou os colegas, pessoas que não tem medo de ofender e nem de xingar, todo mundo querendo tirar vantagem, ganhar, passar por cima dos outros… isso é tão triste! Eu nunca quis passar por cima de ninguém, nem quero, nem vou querer, mas, às vezes, tratamos os nossos problemas como únicos, e não damos atenção aos nossos queridos, ao marido, aos pais, aos filhos (no meu caso enteados), colegas… quero ser mais agradável, menos mal humorada, mais positiva. E é difícil quando a gente percebe um tipo de atitude ruim em nós mesmos, aí sim é duro!

Por isso, esse texto será muito curto, mas demonstra uma firme decisão (que tem sido levada muito a sério também nas minhas ações, há pelo menos um mês e meio): mudar para melhor. Não responder, não ofender, respeitar, e tentar fazer o que eu sei que devo fazer para ser alguém melhor. Todo mundo admira grandes pessoas, mas como é difícil ser uma grande pessoa! Sabemos o que teríamos que fazer, mas não fazemos.

Parar de pensar em coisas negativas, parar de olhar os defeitos dos outros e olhar para os meus mesmo, não de um ponto de vista da “Hiena Risonha” (ó céus, ó vida, ó azar, lembram-se?), que costumava tomar sempre, mas tentando quebrar padrões de comportamento, pensar positivo, lutar para me aperfeiçoar, tentar manter a sanidade mental, a paz e a objetividade a todo custo, e tentar praticar o que a minha mestra Monja Coen falava em suas palestras: Seja o bem que você quer ver no mundo!

Para isso, voltei a fazer Yoga, Tai Chi, Sahaja Yoga (um tipo de meditação), Zazen, e estou tentando praticar a maior meditação de todas: estar no momento presente. Não no passado, nem no futuro. Cada minuto tem que ser uma preparação totalmente presente para o futuro. Cada minuto um investimento. Se estiver ouvindo música, ouvir a música. Se estiver andando, andar. Se estiver lavando louça, lavar a louça. Sem sofrer. Se estiver amando, amar. Se estiver tocando, tocar de corpo e alma. Viver o momento presente, que é onde verdadeiramente estamos.

Estudando, amando, respeitando, e ralando para ser uma pessoa melhor a cada dia, para “pensar mais feliz”, para ser mais “Ouro sobre o Azul”!

Ja’ temos TUDO

Como vocês já devem ter reparado, sumi do blog. Minha vida está uma agitação só, uma loucura e é claro que também acho bem difícil escrever sem reclamar, e como vocês viram no texto anterior, estou tentando parar de reclamar, ou, pelo menos, diminuir bastante.

Bem, não é fácil não reclamar, com certeza. Eu venho de uma família de críticos, reclamões profissionais, mal humorados profissionais (talvez até por isso eu seja boa professora – eu acredito nisso pelos resultados que vejo, não é metidez –  um professor de instrumento tem que achar o que está ruim, ou o que está pior, e tentar resolver).

Meu pai reclama e critica qualquer coisa na TV desde tempos remotos, e com certeza não é culpa dele, pois minha avó era bem mal humorada, meu avô era nervosinho e reclamão também, ele, como eu, só herdou essa “sina”. Minha mãe, com certeza também deve ter herdado de sua família o seu lado cri-cri e carregado de sofrimento e reclamação. Já disse antes que acredito ser uma característica do brasileiro essa coisa de ser sempre o mais coitado. Quase que qualquer conversa é uma disputa para saber quem sofre ou sofreu mais. Que o brasileiro sofre tanto, que é o campeão mundial de farmácias per capita! Heranças judias, católicas, dos imigrantes fugidos da miséria e da guerra… o que seja…

Veja qualquer música brasileira: 90% de reclamação!!! “Chora, disfarça e chora…”; “A tristeza é senhora…”; “Tristeza não tem fim, felicidade sim…”; “A Rita levou meu sorriso…”, “Vai, minha tristeza…” nossa! É até difícil de cantar sem reclamar! E o Cartola completa: “Todo mundo tem o direito de viver cantando, o meu único defeito é viver pensando em que não realizei e que é difícil de realizar…”

O Tom Jobim, amor da minha vida (depois do meu marido, meu cachorro e do Brahms), dizia que era quase um pecado ser bem sucedido no Brasil, e eu sempre achei muito estranho e curioso que nossa cultura de perdedores multiplica preguiçosos, e que a cultura japonesa ou americana, por exemplo, faz multiplicar trabalhadores, empreendedores e vencedores.

Felizmente, eu tenho no sangue e na mente da minha família a idéia camponesa italiana de economizar, trabalhar e fazer coisas por mim (minha avó paterna, por exemplo, cozinhava massas incríveis para 12 pessoas, quase sem dinheiro, meus avós plantavam hortas, meu avô paterno fez a própria casa e era carroceiro, minha avó materna trabalhava fora e usava calças numa época em que as mulheres só ficavam em casa. Com certeza esse lado cultural familiar me fez sempre achar que eu sou a pessoa que vai pegar pelas rédeas o meu destino financeiro e educacional, e que nunca vai querer morrer encostado feito o símbolo mor dos brasileiros, que é o Jeca Tatu…

Mas reclamar ainda é uma parte arraigada de mim. É duro eliminar isso (sei que estou reclamando…), mas tenho que tentar. É realmente um hábito MUITO feio. Vergonhoso. Mal agradecido. Aquela frase famosa de caminhão (essa é para você, querida Alice!): “ Nasci careca, pelado e sem dentes, o que vier é lucro!”, com certeza é uma frase muito sábia! Eu não tinha nada mesmo! Eu nunca fui dessas crianças desesperadas para ter coisas. Eu era uma criança mais para humilde do que para bem de vida, então, acho, de certa forma, que essa falta (da qual, sinceramente nem senti muita falta), é que me fez valorizar mais as coisas boas da vida, do que aconteceria se eu fosse riquinha e mimada.

Essa exigência de comer de tudo, mesmo não gostando muito, que minha mãe fazia, era, na época, algo sofrido, mas me ensinou uma lição muito importante, que não consegui ensinar a meus enteados, pois hoje não se exige mais nada de criança alguma, que foi essa capacidade de enfrentar pequenos desafios, mesmo não gostando tanto deles. Isso que a gente tem que fazer todo dia no trabalho, na vida, no instrumento, na convivência social. Outra lição importantíssima foi essa habilidade de experimentar coisas novas sem grandes preconceitos, e não querer e até exigir TUDO perfeito, tudo do meu gostinho, do meu jeitinho, como eu gosto mais. Eu sou uma pessoa que sabe comer de tudo, e que, mesmo não gostando de jiló, se eu for à sua casa e só tiver isso, vou comer e dizer que está muito gostoso. Não morrerei jamais de fome, isso eu sei, nem por preguiça de trabalhar, nem por enjoadez de não comer o que não se gosta.

No Budismo, cada alimento é considerado uma grande bênção, e é agradecido profundamente antes de ser comido. Além de se agradecer aos inumeráveis trabalhadores que fizeram o alimento chegar até mim. Depois de ter plantado alfaces, eu JAMAIS vou comer uma folhinha sequer sem SABER que ela demorou tanto para brotar, crescer e ficar linda, e está dando sua vida para fazer minha vida melhor. É uma lição que TODAS as crianças deviam mesmo fazer, plantar alguma coisa de comer, esperar crescer. Isso foi uma lição que tive na infância, dada pela escola, plantei um rabanete, íamos lá na hortinha regar, ver crescer, tirar matinho, demorou tanto para eu ter um raquítico rabanetinho na mão, comi com imensa reverência, e, mesmo não tendo gostado nada daquele sabor, não tive coragem de menosprezá-lo e simplesmente descartar.

Hoje em dia, tudo tem que ser prazer total e imediato. Estudantes não estudam, pois é “chato”. Intelectuais não lêem mais como antigamente, pois dá muito trabalho. O povo prefere políticas paternalistas a empregos. Pessoas preferem ganhar a vida passando por cima dos outros, fazendo falcatruas. Todo mundo só quer ganhar!

Nas aulas, fico boba com a total incapacidade de um aluno de fazer coisas propostas que ele não está com vontade, os alunos tem que escolher TUDO: o que vão tocar, o que vão estudar, qual a atividade que vão fazer, não aceitam em ABSOLUTO qualquer não. É claro para mim que algumas crianças com quem convivo JAMAIS recebem qualquer não como resposta. Eles são líderes. São reis. São deuses. Os pais e professores são escravos ou empregados. Não há qualquer respeito (claro que não são todos, mas a quantidade é assustadora).

Essas crianças vão reclamar ainda mais do que eu, na vida adulta, creio. Essas crianças não vão saber nem querer trabalhar, e acho que em vinte anos vai ser facílimo achar emprego, pois qualquer um que saiba que o mundo não é só prazer imediato vai ter capacidade extra para conseguir qualquer coisa.

É o avesso da geração dos meus pais e sogros, que foi criada para achar que só tinha que trabalhar e sofrer, e que ter prazer era coisa de puta, de vadio, de esnobe, era pecado, coisa proibida e muito feia! Eu gostaria de sido criada com mais equilíbrio e ter a capacidade de ajudar a criar uma geração de pessoas mais equilibradas, que suportem esperar, se esforçar, experimentar e trabalhar sem sofrer, mas, acredito mesmo que isso está muito difícil.

Nesse tempo evitando reclamar, vi que o problema não é reclamar. O problema é estar sempre sofrendo. Sempre evitando, sempre querendo a auto indulgência, sempre querendo ser vítima, até para mim mesma. Todos têm, talvez, aqui no Brasil, um pouco desse lado Jeca Tatu, Macunaíma, eu sempre achei isso uma vergonha! Meu lado Macunaíma me faz sofrer e é para mim uma vergonha! Percebi, para ser sincera, que reclamar é mostrar preguiça, na maior parte das vezes, e minha mãe dizia que ter preguiça era vergonhoso (e ela estava certa!).

Ter preguiça numa manhã de sábado ou de domingo em que não se tem NENHUM compromisso pode ser algo lindo e louvável, mas, acredite, quase toda reclamação interna que temos é uma pequena incapacidade de resolver algo, de receber um não, de não aceitar os outros, a vida como ela é, ou uma preguiça gratuita, mesmo, que só nos faz sofrer.

Poucas reclamações são verdadeiramente úteis para que se tente mudar algo, acho eu. Quero buscar esse equilíbrio de não ter mais preguiças pequenas de coisas pequenas, ser mais aberta a fazer e experimentar, a valorizar coisas diferentes.

Também algumas religiões falam que o desejo é que causa o sofrimento. Pensamos na nossa interpretação do que é o passado e nas nossas projeções do futuro (que jamais acontecem como foram imaginadas), então acabamos perdendo o foco do momento presente. Se estivermos no momento presente, verdadeiramente, é difícil sofrer tanto. Quase nunca, no dia a dia, temos problemas verdadeiramente impossíveis de se resolver, como doenças ou mortes. Somos muito exigentes, como crianças birrentas e mimadinhas. Mesmo eu não tendo sido mimadinha, sofro com meu lado mimadinho, e é isso que estou trabalhando para mudar.

Dar passagem no trânsito quando alguém pede, sem nem sonhar em bufar, dar um sorriso para alguma criancinha desconhecida, ser alegre e sorridente com colegas de trabalho de TODOS os tipos, desde os caras do pedágio, faxineiros, porteiros, colegas, a moça do café, etc, etc, etc, sempre foi para mim questão de honra. Mas agora estou focada em despoluir o mundo das minhas reclamações vazias, em melhorar o humor do mundo mudando somente o meu humor, em me dispor mais para as coisas, em ser menos preguiçosa e ter mais prazer em fazer, em dar, em vez de querer somente receber. “É dando que se recebe” é uma frase das mais sábias já pronunciadas, mas a idéia é não ficar esperando receber coisa alguma. Já temos TUDO, acredite.

Votos de não-reclamação (a “palavra correta”)

Estou lendo um livro que recomendo a todos os neuróticos de plantão, como eu “era”, até semana passada. O livro, pela cara e pelo jeito, somente parecia mais um dos livros de autoajuda que já me ajudaram um pouco, várias vezes na vida, nem que fosse para mudar para melhor apenas uma mísera atitude em relação a alguma coisa da vida.

Eu estava em crise profunda no fim de semana retrasado. Na terça-feira decidi (e estou cumprindo) que ia procurar TODO tipo de ajuda, inclusive voltar à terapia, a fazer yoga, a praticar Sahaja Yoga novamente (um tipo de meditação), que ia procurar de novo um fitoterápico que já tomei algum tempo para TPM e que funcionou (mas que parei de comprar porque era caro), que ia voltar a fazer exercício pelo menos três vezes por semana, evitar novamente beber ou comer em excesso, tentar dormir mais e mais cedo, enfim, fazer o que eu devia estar fazendo há muito tempo para estabelecer novamente a autoestima, a saúde e deixar os que estão à minha volta mais felizes, e não doidos porque eu estou doida.

Bem, entrei num posto de gasolina antes de pegar a dutra, porque estava morrendo de sede e PRECISAVA de água, e vi, na prateleira de livros, esse livrinho: “Pare de reclamar e concentre-se nas coisas boas – Encare o desafio de passar 21 dias sem se queixar e sem falar mal dos outros”, de Will Bowen.

Peguei o livro, li a orelha, vi o preço, R$ 19,90, nem hesitei, minha água acabou custando 21,40. Mas parecia exatamente o que estava precisando. Meu marido andou reclamando que eu reclamo muito, e ele, como sempre, tem razão. Eu só não sabia QUANTA RAZÃO ele tinha!!!

Entrei no meu blog (este que vocês estão lendo) para reler coisas, e vi como andei reclamando, de tudo!!!

Fiquei envergonhada. Estou na metade do livro, mas em treinamento há exatamente uma semana agora, eu estou fazendo um treinamento para parar de ficar reclamando de tudo.

Uma coisa é reclamar (pedir) para alguém mudar alguma coisa, objetivamente. Tudo tem a ver com o teor da emoção envolvida na reclamação. Se o metrô atrasar e eu constatar “O metrô atrasou”, calmamente, sem peso na alma, no coração, nos poros, sem sofrer, sem achar que vou morrer ou que isso é só um detalhe do complô mundial e divino para me ferir e me fazer ficar louca de chateação, se eu só constatar, não constitui uma reclamação. Se eu sofrer, ou seja, me LAMURIAR, é uma reclamação.

Então, funciona assim: você precisa prestar atenção no que diz (primeiro, um dia chegaremos no que pensamos também, mas a fala também cria estados de espírito e cria sensações, logo, pensamentos. Primeiro alterar a fala, um dia, o pensar, espero).

Só prestar atenção não é suficiente. Você precisa ter um objeto, que vira uma “ferramenta de monitoramento”, para tornar o ato de perceber sua fala reclamona mais objetivo, mais óbvio e até mais ridículo (“Oh céus, oh vida, oh azar”… – eu descobri que eu SOU a Hiena risonha dos desenhos!!!). Pode ser uma pulseira que vai mudar de braço a cada vez que percebermos que reclamamos, ou uma pedrinha no bolso, ou uma moeda, ou um anel que vai trocar de dedo ou mão, etc.

Escolhi usar uma das pulseirinhas que já costumo usar, mas somente com essa finalidade. Cada vez que eu reclamar, tenho que mudar de braço. Bem, no primeiro dia que comecei o processo de treinamento, fiquei a manhã toda SOZINHA em casa, sem falar com ninguém, e mudei a pulseira de braço cerca de 45 vezes até o fim do dia. Percebi que 98% do que eu estava falando era SÓ reclamação. Do tipo sofrida, mesmo, lamúria.

Segundo dia, acho que também mudei a pulseira o mesmo tanto de vezes, CHOCADA com minha natureza resmungona! Chocada! No terceiro dia, arrebentei a pulseira, arranjei outra, mudei menos vezes. Ontem, não cheguei a mudar 25 vezes. Estou diminuindo.

O incrível é que tenho me sentido mais feliz de encarar os problemas sem me queixar, de aceitar mais a vida como ela é. A idéia do livro é simples e genial, como tudo que é genial. Aceitar as coisas que não posso mudar, e tentar mudar o que posso mudar (mamãe já falava, vovó já falava, o Dalai Lama já falava, Jesus já falava, a Monja Coen já falava, etc, etc… só que eu não quis ouvir DE VERDADE!).

Hoje são quase 11hs da manhã, mudei três vezes. Estou melhorando. O desafio é ficar 21 dias seguidos sem reclamar.  Diz-se que qualquer hábito novo precisa de pelo menos 21 dias seguidos para fazer as mudanças químicas cerebrais para se estabelecer definitivamente.

Falar mal dos outros é reclamar, mas não é um vício que tenho, o Quarteto Nobilis já me ajudou a parar com essa nojeira que é falar mal dos outros, pois lá criamos uma idéia semelhante, o “porquinho”. Cada vez que alguém falasse mal dos outros tinha que por uma moeda, como  multa. Acabamos com esse mal de falar mal lá, e abolimos até o porquinho, que virou só uma idéia.

Se não dá para mudar algo, então não preciso sofrer, se dá, o que posso fazer? Existem maneiras realmente pobres de espírito de viver a vida, e uma delas é RECLAMAR.

O livro, apesar de ser de autoajuda, é muito bom. Além disso, o autor tem um capítulo que trata dos benefícios que achamos que recebemos ao reclamarmos, esse capítulo eu achei mais interessante ainda.

Essa idéia do autor virou um movimento mundial por um mundo sem reclamações, tem até site (www.acomplaintfreeworld.org), e eles vendem livros, e as pulseiras de monitoramento a preços bem módicos, só simbolicamente, mesmo, US$ 10,00, vem com dez pulseiras. Americano é assim, ganha dinheiro com tudo, mas até que é barato. Já houve 6 milhões de pedidos de pulseiras de mais de 100 países, e a idéia do movimento existe desde 2006. Será que daria MESMO para mudar o mundo assim?

O que importa é que a idéia do livro tem me feito muito bem. Vou conseguir ficar os 21 dias sem reclamar de NADA, eu sei que vou, mas parece que vai demorar. O importante é ser mais feliz, e persistente, só isso.

E já estou sentindo mudanças no meu estado normal de espírito, mais do que se eu me afundasse em chocolate, chorasse até derreter, ou se gastasse dinheiro em roupas, ou se eu enchesse a cara: efeitos de vergonha pelas minhas fraquezas e uma força interior que eu já tenho despontando, aparecendo. Concentrar-me no que quero, e não no que não quero. Uma das frases do livro, de que mais gostei foi: “Se estudar a vida de pessoas bem-sucedidas, descobrirá que frequentemente o sucesso delas aconteceu por causa dos obstáculos que enfrentaram e não apesar deles. Eles aceitaram os problemas e usaram  essas experiências para crescer”.

Pequenas coisas que eu odeio e coisas que eu adoro!

(Este texto foi escrito e publicado neste blog, no dia 19 de fev. de 2010, mas, como gosto muito mais dele do que os posteriores, republiquei, para ficar mais visível aos novos leitores. Obrigada!)

Inspirada nas famosas e maravilhosas tirinhas do cartunista Angeli, da série: “Duas coisas que eu odeio e uma que eu adoro”, resolvi fazer comentários pessoais sobre essas pequenas coisas do cotidiano. Eu realmente sou chegada em pequeniníssimos prazeres do cotidiano. Fiquei absolutamente feliz (e identificada) quando li no explêndido livro “Lavoura Arcaica”, de Raduan Nassar, que seu personagem adorava enfiar o pé na terra, ou em folhas secas. Eu AMO mexer na terra e na areia da praia.

E em um de meus filmes preferidos, “O fantástico destino de Amélie Poulin” , a personagem adora pequenos prazeres, como enfiar a mão em sacos de grãos no mercado. Essas coisinhas deliciosas. Estávamos, eu e meu marido, assintindo a um SBT Repórter, sobre animais da Índia, e mostraram macacos que tem como hobbie lamber pedras. Sim, lamber pedras. E meu marido deu uma gargalhada enorme, deliciosa (que eu ADORO).

Esse pequeno incidente da gargalhada sobre o hábito de “lamber pedras” me fez pensar que os pequenos prazeres são hábitos culturais que adquirimos, muitas vezes, claro, não todas, fazendo coisas que outras pessoas gostam de fazer, ou que outros fazem. Tentamos, e, de repente, vemos que gostamos, e pronto. Ou não. Então, pronto. Por isso eu gosto de tomates e não gosto de jiló. Experimentei e decidi.

O pior é quando fazemos sem gostar! (Por isso, comi carne quase a vida toda). Só porque o automatismo de “todo o mundo faz”, nos faz fazer, ou não fazer. Na escola, TODO O MUNDO dizia que não gostava de ler. Aí, eu também dizia. Até meu irmão me incentivar e eu perceber que eu AMAVA! Por isso, também, eu amo muito meu irmão, pois ele me deu um dos meus maiores prazeres.

Por exemplo, se todos tivessem o hábito de olhar estrelas (ou lamber pedras!), em vez de ver televisão, isso iria virar prazer de muitos? De todos ou quase todos?

Acredito, firmemente, que eu e quase todos, salvo raríssimas exceções de grandes cérebros, líderes, gênios, fazem exatamente o que todos fazem e gostam de fazer, como uma grande boiada.

A moda é isso, o marketing só lida com isso (afinal de contas, sem a propaganda, quem seria capaz de acreditar que a Xuxa, milionária que é, vai usar hidratante Monange no seu rostinho, com aquele cheiro super forte e aquela textura super oleosa? Quem já usou Clarins, Lancôme e outros do gênero, tem certeza que ela não usaria nem para fazer o comercial!).

Eu, por exemplo, sempre me questionei do porquê de ir à missa se o padre era tão sem cultura, com discurso tão vazio e decoradinho, e as pessoas ouvindo sobre como Deus amava os pobres, indo à missa com a sua melhor roupa, escova, maquiagem e correntinhas de ouro, e, na hora que eu mais gostava e temia, a dos cumprimentos, hora de desejar “a paz de Cristo”, todos se olhando e se medindo da cabeça aos pés, sem pensar no que estavam desejando, mas sim prestando atenção em como seu semelhante estava vestido (mal ou bem? De acordo com as regras da comunidade, é claro). E eu olhando pra fora, aquele domingão de sol, pensando: eu não poderia estar numa piscina? Lendo gibis, descalça, sentada no chão? Andando de bicicleta? Poderia, mas, e a boiada? Por isso, depois de muitos anos, decidi ser Budista (achei no que eu realmente acreditava).

A mesma coisa digo em relação a ter filhos, ou até mesmo bichos de estimação. Tenho certeza de que muita gente não tem o menor talento (afinal, trabalhei dos 12 até os 30 anos, ajudando meu pai, em uma loja de brinquedos, e vi cada coisa!). Eu SEI que muita gente não tinha que ter filhos. Mas a boiada exige. Tem gente que tem cachorros, um dia enjoa e larga. Ou não cuida, ou bate. Por que diabos tem?

Bom, não vim aqui pra falar da minha idéia de boiada, mas falo só pra defender que deveríamos SIM cultivar prazeres de que nós gostamos, independentemente da boiada. Um casal de amigos, que mora na Serra da Cantareira como nós, estava nos falando que quando se casaram e mudaram para cá, ficaram 5 anos sem televisão. Morri de inveja. Meu avô já dizia que a TV acabou com a família, as conversas, as histórias, ouvir música junto, no rádio, até com as orações (e olha que eu nem sou chegada em orações). Morri de inveja, pois esse amigo falou que foi a melhor época da vida deles, eles conversavam, riam, tinham silêncio, dormiam cedo, leram pra caramba, namoraram muito, e provavelmente, também, viram muitas estrelas (coisa que eu adoro, e apesar de tê-las às pencas aqui em casa, só me lembro de olhá-las quando chego tarde em casa, de ensaios e concertos, ou, umas 6 vezes por ano em que eu penso: deixe-me ir lá fora para olhar as estrelas. E isso porque eu a-do-ro. A mesma coisa acontece com nuvens, que também adoro.

Outro dia reparei, no metrô: 95% das pessoas em minha volta estavam de calça jeans. Eu simplesmente ODEIO calça jeans. Se mi vir com uma, saiba: usei porque estava totalmente sem criatividade, e ela é fácil de combinar, já que todo o mundo usa com qualquer coisa. Fiquei pensando: essa merda me aperta, nunca acho uma do meu tamanho (pernas compridas, quadril pequeno e coxa grossa), desbota, me deixa com cara de mal vestida (eu acho isso, sei que muita gente realmente adora jeans, outros usam apenas pois todo o mundo usa – a boiada), é difícil de secar, se demorar fica com cheiro de cachorro molhado, enfim, odeio. Por que eu uso, então? Resolvi ficar com duas, somente, uma nova e uma velha, para os dias de falta de criatividade, mesmo. Ou os dias que vou dar aula pras criancinhas e sei que vou ter que sentar no chão com elas. Só.

Adoro tantas pequenas coisas! Cheirinho de café, cheiro de limão (eu tenho um lance forte com cheiros, pois, ao contrário do que eu precisava, ter ouvido absoluto, tenho “nariz absoluto”. Juro, sei que o arroz está sem sal ou com muito sal só pelo cheiro. Em ônibus vocês nem imaginam os cheiros que sou capaz de perceber… tinha que ter sido perfumista ou enóloga, mas agora é tarde!). Adoro sapatos de salto alto, adoro batom mega vermelho, mesmo, adoro colares de pérolas. Adoro chinelos Ipanema e roupas bem largas. Adoro a textura dos cabelos do meu marido, adoro brisa no rosto, adoro olhar o mar, adoro o acorde de Sol com sétima, adoro o “Ré-fá-lá” que inicia a Segunda Suíte de Bach para cello solo – é somente um arpejo de Ré menor, mas a-do-ro. Adoro ver a Jacqueline Du Pré tocando, adoro bater claras em neve, adoro mexer em horta, adoro fazer cafuné em cachorro, cheiro de grama cortada, cheiro da Serra depois da chuva, adoro dançar ou cantar, adoro abraçar, adoro beijo na boca, beijo “daqueles” mesmo, adoro. Tantas coisas!

Tem gente, iogues, e praticantes de meditação, por exemplo, que dizem que adquirimos pequenas percepções da nossa vida percebendo nossa respiração. Também adoro isso. Mas, por outro lado, vi num filme que a sensação de viver, realmente, está naqueles momentos em que não conseguimos respirar, de tão emocionados, ou extasiados. Também adorei isso.

Fiquei pensando muito em uma noção que ouvi uma vez, de que amamos, e vivemos com alguém para termos noção de que existimos. Somos importantes para alguém. Como se esse alguém fosse uma testemunha da nossa vida. É a pessoa mais importante da nossa vida porque nos dá importância, vive compartilhando essas pequenas coisas, boas e ruins. Talvez por isso o Orkut, a Internet e o Facebook façam tanto sucesso. De repente, muitas pessoas podem testemunhar nossa vida, nossos feitos, viagens, fotos, etc.

Mas, ontem, vi na TV (nem tudo na TV é ruim, é claro), um homem, que vive em Bristol, Inglaterra, que largou tudo que tinha, e pelo jeito era bastante, para viver sozinho e praticamente sem dinheiro. Eu amo essas pessoas: que assumem as coisas que odeiam e que adoram verdadeiramente, que fazem diferente e fazem diferença. Meu pai sempre dizia, em tom de brincadeira (mas, como toda brincadeira tem fundo de verdade…), que seu sonho era ser andante. É a mesma idéia de libertação da boiada.

É por essas e outras que eu tenho como bandeira máxima, ao dar aulas, que a pessoa TEM que ser ela mesma, tocando, tem que criar e desenvolver seu próprio som, sua maneira de interpretar, sua concepção. Vejo coisas lindas acontecerem na minha frente quando um aluno com três anos de cello faz a SUA interpretação, quando o convenço de que, se ele escuta uma gravação e não gosta (rápido demais, articulado demais, devagar demais, som estridente demais, etc), ele já tem a sua concepção. Essa é uma das coisas que mais adoro: fazer os alunos serem eles mesmos, por breves instantes. É LINDO. É libertador, para mim e para eles. Por isso amo tanto dar aulas.

Mas ODEIO quem acha que existe TALENTO, e uns tem e outros não. Rostropovich, nas nossas conversas, mostrou que qualquer um pode ser incrível. Ele não acreditava nessa merda inventada, chamada talento. Eu também não, ele me convenceu disso.

Ando em crise faz tempo, como já falei em antigo post, por isso, hoje vou falar pouco do que odeio, pois eu odeio focar no que eu odeio, eu adoro focar no que eu adoro. É claro!